Boom das Ações da OGX, Petroleira do Grupo EBX

Sergio Leo, no livro “Ascensão e queda do império X”, conta as reações dos acionistas minoritários quando descobriram suas convicções a respeito da petrolífera do grupo EBX estarem erradas e um enorme patrimônio em reservas de petróleo que eles acreditavam existir era uma ficção. Os especuladores haviam apostado na queda dos preços das ações da OGX e estavam condenados a “quebrar a cara”.

Os acionistas minoritários acreditavam que esses investidores, impressionados com notícias negativas sobre a petroleira do grupo EBX, não tinham se dado conta da enormidade do tesouro prestes a ser bombeado para fora do subsolo marinho pela empresa de Eike Batista. A revista Veja, antes da campanha antipetista, publicava nota prevendo a existência de dois bilhões de barris, em reservas, apenas em bloco da bacia de Santos. A notícia entusiasmou investidores da OGX sem questionamento da fonte de informações “plantadas”.

A devolução daquela área de exploração, por inexistir tecnologia capaz de torná-la viável economicamente, era um revés importante: a campanha de prospecção de petróleo da EBX havia produzido apenas mais um anúncio furado. A empresa, ao contrário do que imaginava o acionista minoritário, não poderia usar aquele patrimônio para fazer caixa e superar crises como a que enfrentou a partir de seu quarto ano de vida. Seria um caso a ser comunicado aos acionistas, por meio de um novo “fato relevante”, o que não aconteceu.

O executivo Rodolfo Landim, ex-dirigente de prestígio da Petrobras, havia garantido ao dono da EBX que a exploração de petróleo teria probabilidades de sucesso muito superiores às do minério. Landim mostrou ao empresário que a relação de erros e acertos da Petrobras na prospecção de petróleo chegara a 50% na bacia de Campos — um achado em cada duas perfurações.

O índice de acerto na prospecção de petróleo no Brasil seria quase três vezes maior que a média mundial e absurdamente superior à encontrada na prospecção de minério. Infinitamente superior à proporção de descobertas na busca do ouro, de 17 mil para um. Para quem começara a ganhar dinheiro com ouro, o petróleo seria uma aventura afortunada.

O melhor negócio do mundo é uma empresa de petróleo bem-administrada; o segundo melhor negócio do mundo é uma empresa de petróleo mal administrada”, escreveu o criador do Império X em sua autobiografia. Citava um dito famoso do bilionário fundador da Standard Oil, John Rockfeller. Conheço esta frase se referindo a banco…

É recomendável todo dicionário de citações com essa frase traga, anexado, um verbete com a história da OGX, como advertência contra a falsa sabedoria das belas frases de gente famosa.

Mas, em julho de 2007, o dito de Rockfeller faria sentido. Era criada a OGX, sob a presidência de um ex-presidente da Petrobras, Francisco Gros, também ex-presidente do BNDES e do Banco Central, um afável economista de gestos elegantes e carreira ligada ao mercado financeiro, que havia pilotado a estatal em uma época de boatos sobre sua possível privatização. A principal contratação de Eike, porém, foi a do gerente-executivo de Exploração e Produção da estatal, Paulo Mendonça, que, quando sondado por Rodolfo Landim, era responsável pelo planejamento da Petrobras para os leilões das áreas de exploração prestes a ser lançados pela Agência Nacional de Petróleo, órgão regulador do setor.

Geólogo havia 34 anos na Petrobras, português de nascimento, Mendonça acompanhara as pesquisas que resultaram na descoberta das gigantescas bacias de petróleo leve abaixo da camada de sal, sob o solo oceânico. Conhecia a estratégia prevista pela estatal para atuar nos leilões de exploração daqueles blocos pela ANP.

O ex-diretor da Petrobras, “Mr. Oil”, como foi apelidado por Eike, levou com ele algumas dezenas de funcionários do setor de exploração e produção da empresa. A saída de Mendonça da Petrobras, acompanhado do gerente de contratos do departamento, Luís Reis, gerou uma crise na estatal. No dia em que anunciou a intenção de agregar-se à equipe de Eike Batista, foi chamado mais de uma vez de “traidor” pelo diretor de Exploração e Produção, Guilherme Estrella, que o procurou no gabinete para tirar satisfações.

Estrella foi além: em outubro, às vésperas da nona rodada de licitações para exploração de áreas de petrolíferas, o diretor da Petrobras, apoiado pelo presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli, capitaneou uma reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mostrou a importância da descoberta do petróleo na chamada camada do pré-sal. Havia reservas de gás e petróleo equivalentes a oito bilhões de barris de óleo, quase 60% das reservas identificadas no país.

Dos 312 blocos a serem licitados pela Agência Nacional de Petróleo, 41 estavam na área onde havia reservas do pré-sal. Era preciso cancelar o leilão, se o governo não queria correr o risco de dar um “bilhete premiado” às empresas privadas, na maioria multinacionais,argumentou Estrella. O “traidor” Paulo Mendonça também foi lembrado como um trunfo da recém-criada OGX no leilão, capaz de levar a empresa privada a disputar, com vantagens, com a Petrobras as reservas de petróleo certo.

Lula mandou sua ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, convocar uma reunião do Conselho Nacional de Política Energética, responsável por decisões na área. Para não cancelar toda a licitação, gerando problemas com investidores e regiões que seriam beneficiadas pelos royalties do petróleo, o Conselho decidiu tirar da oferta os 41 blocos vizinhos às áreas já identificadas do pré-sal.

Eike, que havia baseado a estratégia de sua OGX na captura dessas áreas, teve de mudar de planos. “Melhor ainda; em águas rasas é mais barato”, teria dito o empresário, segundo um de seus ex-colaboradores. Essa capacidade de Eike de desdenhar das novas dificuldades e manter o otimismo mesmo com a deterioração das expectativas é uma das características elogiadas no empresário, mas também um elemento que provocava desconfianças entre seus parceiros.

O anúncio da retirada dos blocos, feito a duas semanas da licitação da ANP, foi uma surpresa que desanimou muitos dos que acompanhavam Eike nos planos da OGX. O então presidente da empresa, Francisco Gros, chegou a revelar que o grupo contava com aquelas áreas e estava disposto a ir “no limite das possibilidades” para consegui-las, disputando com a Petrobras.

Dinheiro, o grupo conseguiu quando ainda engatinhava no terreno dominado por empresas tradicionais de atuação internacional. A OGX fez, pouco após sua criação, o que se chama no jargão de mercado “private placement”, a venda de ações da empresa a grandes investidores privados.

Os 12 investidores dispostos a seguir Eike no ramo do petróleo repetiram o fenômeno realizado na mineradora MMX: os megafundos de investimento internacionais BlackRock (depois se tornaria o maior gestor de investimentos do mundo) e Pimco (maior comprador de títulos de renda fixa), o Gávea Investimentos, do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, o BTG Pactual, do bilionário André Esteves, e outros pesos-pesados compraram US$ 1,3 bilhão em ações da nova companhia. Com essa aposta, sinalizaram ao mercado o grau de confiança merecido pela aventura petrolífera de Eike.

Entre os novos sócios estava também o fundo de pensão dos professores de Ontário, cujos gestores do Ontario Pension Fund haviam gostado da experiência da TVX, mineradora de ouro de Eike, pois haviam vendido as ações quando perceberam que já tinham valorizado o suficiente, antes da derrocada. Repetiriam a estratégia na OGX.

Detalhe desconhecido pelos acionistas minoritários: a compra de ações da OGX nem de longe significou um matrimônio sólido com a empresa, mas uma oportunidade extra de investimento em uma época de:

  1. excitação irracional nos mercados financeiros mundiais,
  2. enorme confiança em relação ao desempenho da economia brasileira,
  3. muito dinheiro disponível e poucas oportunidades de investimento.

Em dezembro de 2011, antes mesmo que as ações da OGX chegassem ao pico de sua valorização e entrassem em queda livre, esses primeiros sócios de Eike já haviam aproveitado o forte crescimento no valor da empresa e vendido grande parte das ações que haviam comprado antes que a companhia de Eike fosse oferecida na bolsa de valores. Satisfeitos, os administradores de fundos Pimco e BlackRock comprariam, mais tarde, títulos de dívida — bonds— da OGX e teriam dores de cabeça quando a empresa começou a ter dificuldades para pagar suas contas.

O dinheiro em caixaobtido com o lançamento privado de ações deu a Eike o fôlego de que precisava para dar um mergulho ornamental no leilão de áreas de exploração de hidrocarbonetos promovido pela ANP.O leilão ocorreu quatro semanas após a criação da OGX, duas semanas após a decisão do governo Lula de tirar do jogo os 41 blocos vizinhos às reservas gigantes descobertas pela Petrobras. Em uma licitação na qual as maiores empresas estrangeiras do setor decidiram ficar de fora, a OGX surpreendeu a todos.

Eike e seu time petroleiro foram a estrela do leilão, com a compra de 21 dos 271 blocos postos à venda, o maior número de áreas arrematadas depois da Petrobras. A OGX ficou com quase 18% do total de blocos arrematados, mas, com seus lances, que chegaram a duplicar ofertas feitas pela Petrobras na bacia de Campos, foi responsável por 70%, ou R$ 1,5 bilhão, dos R$ 2,1 bilhões arrecadados. Na bacia de Santos, na área próxima a das impressionantes reservas do pré-sal anunciadas pelo governo, a petroleira do grupo X deu o maior lance do leilão por uma área, R$ 344 milhões, disputada com a Petrobras.

Até especialistas do setor buscaram, perplexos, razões na espantosa liberalidade da empresa recém-chegada, nos lances para aquisição de áreas de exploração de petróleo, em regiões de potencial reconhecido, como a bacia de Campos, e em áreas de grande expectativa, na bacia de Santos. Como em uma partida de pôquer, Eike conseguiu dar a impressão de que a equipe de veteranos da Petrobras contratada pela OGX tinha, nas mãos, jogadas ocultas aos demais participantes do mercado. Algo ELES sabiam. Quando, seis meses depois, o empresário lançou as ações da OGX na bolsa de valores, o sucesso estava garantido.

De fato, foi um recorde na história da Bovespa. E um excelente negócio para os acionistas que colocaram seu dinheiro na empresa antes da abertura de capital. Esses investidores multiplicaram por seis o dinheiro que aplicaram na empresa novata.

A Comissão de Valores Mobiliários, o mal-equipado e muitas vezes distraído xerife do mercado de ações, teve dificuldades em agir, no caso EBX, sem ser provocado. Ao contrário de sua contraparte dos Estados Unidos, a SEC, a CVM não tinha especialistas na área de petróleo, capazes de avaliar previamente a qualidade de informações prestadas aos acionistas no período de atividade da OGX. Mas, já no primeiro dia de existência da OGX como companhia aberta no mercado de valores, Eike, na análise da CVM, rompeu as regras e levou multa.

O banco responsável pelo lançamento primário de ações, em geral, adquire o direito de comprar um lote adicional de ações por um preço fixo por ação, caso a procura dos investidores levasse o preço dos papéis acima desse patamar. Esse tipo de incentivo é comum em lançamentos de ações e estimula o banco responsável pela abertura na bolsa a buscar a maior valorização possível da empresa. O lucro é maior quanto maior for a diferença entre o piso, pelo qual o banco pode comprar ações recém-lançadas, e o preço atingido no mercado, pelo qual se pode vender as mesmas ações imediatamente. Mas é proibido ao banco inflar artificialmente a procura, e, para a CVM, foi isso, exatamente, o que fizeram os responsáveis pela abertura da OGX no mercado acionário.

Segundo a CVM, Eike e o diretor do Credit Suisse, banco responsável pelo lançamento, anabolizaram a oferta de ações da OGX, com declarações públicas de incentivo às compras, sem incluir, como é obrigatório nos comunicados oficiais, alertas para o risco da empresa. Era preciso alertar, não só na papelada de lançamento, mas também nas outras manifestações públicas do banco de dirigentes da companhia, que a OGX não tinha histórico na área de petróleo, atuava em um setor já bastante arriscado e fazia projeções de produção que poderiam simplesmente não se realizar.

Condenados pela CVM, Eike e o banco fizeram um acordo para não repetir o malfeito e pagaram multas, de R$ 100 mil para o dono da OGX e o banco e R$ 50 mil para o diretor. Valores baixíssimos, se comparados ao total que ambos haviam obtido com o lançamento das ações.

O lançamento da OGX foi, como gostava o controlador da EBX, um recorde. A empresa captou R$ 6,7 bilhões naquele dia, valor nunca alcançado na Bovespa. Sacramentava-se a fama de arrojado visionário alimentada por Eike Batista. A empresa se apresentaria como a maior companhia privada em ação na exploração de petróleo no Brasil estreava nas bolsas de valores — sem uma broca sequer a furar a crosta terrestre em busca de óleo — como uma das maiores empresas do país, em valor de mercado.

Mais uma vez, Eike aproveitava a elevação de uma onda no mercado de commodities; o preço do barril de petróleo elevava-se acima de US$ 100. Além disso, no Brasil, as altas taxas de juros permitiram a ele, com a aplicação de seus bilhões no mercado financeiro, apresentar lucro, quase R$ 360 milhões, no fim do primeiro ano da OGX como companhia aberta.

Quando começou, de fato, em agosto de 2009, a chamada campanha de exploração, a pesquisa por petróleo nas áreas arrematadas, Eike, a cada passo, encorajava acionistas e potenciais investidores com manifestações públicas otimistas. Elas movimentavam a história da empresa em um momento carente de notícias realmente relevantes. Sem ter comprovadas suas reservas, a OGX não se constrangia de fazer algo que a Petrobras sempre evitou: divulgar as reservas prováveis e possíveis, uma coleção de deduções hipotéticas dos geólogos de empresas especializadas.

Durante a vida da OGX, declarações de Eike, em entrevistas ou no Twitter, com previsões ou comentários superlativos, às vezes em contradição com a situação real da companhia, agitaram as ações da companhia nas bolsas. Engajado em seu papel de animador do espírito especulativo dos investidores, o empresário abusou de declarações que, pelas regras de mercados de valores como os dos Estados Unidos e do Canadá, poderiam levar o controlador da empresa a sérias dificuldades com a Justiça, mas que, no Brasil, encontram a complacência da legislação e, portanto, dos órgãos de fiscalização.

A OGX não fazia petróleo, mas fazia barulho, e os investidores adoravam. Em novembro de 2009, as ações da companhia, somadas, valiam pouco menos de R$ 48 bilhões. No mês seguinte, já estavam em mais de R$ 55 bilhões, e ficariam no patamar dos R$ 50 bilhões na metade de 2010, quando saltariam, de R$ 54 bilhões em junho, para R$ 60 bilhões em julho, R$ 71 bilhões em setembro, e, no auge, pouco mais de R$ 72 bilhões em outubro. A OGX era um sucesso. As empresas EBX, para usar uma expressão do agrado de Eike, bombavam nas bolsas.

Em 2010, Eike chegava ao grau máximo de exposição públicae era celebrado pela revista Forbes como o oitavo maior bilionário do mundo(chegaria ao sétimo posto, segundo a agência Bloomberg). O maior do Brasil.

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