Brasil, raízes do atraso: paternalismo x produtividade

Fabio Giambiagi aproveitou freneticamente da onda surgida durante a Era Desenvolvimentista (2003-2014) de atender à demanda por uma literatura política e econômica de teor direitista. Os derrotados nas quatro últimas eleições presidenciais, depois das duas primeiras derrotas seguidas (2002 e 2006), vendo o sucesso de políticas sociais ativas em conjunto com uma política de crédito para incentivar a demanda agregada, em vez de se perguntarem “onde errei”, invertem a questão: onde meus adversários erram– ou fazem o não feito na Era Neoliberal (1988-2002).

No livro “Brasil, raízes do atraso: paternalismo x produtividade – As Dez Vacas Sagradas que acorrentam o país” (Rio de Janeiro: Elsevier, 2007), comete a Falácia da Autoatribuição como argumento para defender suas hipóteses neoliberais sobre as pressupostas raízes do atraso brasileiro. Curiosamente, para ele, essas raízes não são históricas, herdadas da extinção tardia da escravidão sem jamais ser realizada uma reforma agrária para os ex-escravos obterem um lugar para cuidar da sobrevivência por conta própria. Pelo contrário, trata todas as conquistas sociais posteriores, supostamente “doadas por populismo” getulista e lulista, como as raízes do atraso!

Este pressuposto “atraso” levou o Brasil ser considerado um dos quatros maiores países emergentes com futuro promissoraté o novo golpe político para implantar as ideias neoliberais incapazes de ganhar uma eleição democrática limpa sem impedimento de candidato popular. O “atraso” contemporâneo está acontecendo a olhos vistos desde o golpe de 2016. Ocorre de uma maneira distinta do retrocesso histórico do país de seus pais, a Argentina, um dos mais ricos no início do século XX.

Na verdade, Fabio Giambiagi é um economista brasileiro, filho de argentinos e criado na Argentina. É graduado pela Faculdade de Economia e Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre em Ciências Econômicas pela UFRJ. É concursado pelo BNDES. Ele se transferiu para o IPEA durante o governo do PT, onde encontrou espaço como coordenador do Grupo de Análise Conjuntural, mas saiu da instituição quando esta era presidida por Márcio Pochmann, no segundo Governo Lula.

Seu rancor pessoal quanto às ideias de esquerda é explícito, embora tenha sido criado na Argentina, onde viu pessoas próximas integrarem a lista de desaparecidos. Seus pais foram caçados e um tio, sequestrado.

Já na Apresentação do livro, dá um longo depoimento tipo mea culpa: “Sou consciente de que as ideias aqui defendidas não são hoje abraçadas pela maior parte da população. Por isso mesmo, em muitas das questões aqui tratadas, os partidos políticos fogem do assunto, como o diabo da cruz. O problema é que, talvez por essa dificuldade de analisar temas polêmicos em profundidade, para Ralph Waldo Emerson “um partido político é apenas um eufemismo elegante para poupar um homem do vexame de pensar”. Ao mesmo tempo, como pensador que reflete há mais de duas décadas sobre essas questões, estou convencido: as ideias aqui defendidas são corretas e seria bom o Brasil dar uma guinada com base no tipo de filosofia que impregna estas páginas.

Da contradição entre a certeza de ser minoritária e a firmeza das próprias convicções, em épocas anteriores parte da intelectualidade optou por bater às portas dos quartéis. Hoje, para nossa sorte, os tempos são outros e o caminho a seguir é o da tentativa de conquista dos corações e mentes. [Não foi o ocorrido em 2016.] Cada um, na sociedade, atua de acordo com as suas possibilidades, defendendo seus pontos de vista, no trabalho, na conversa do bar da esquina ou no seio da família e dos amigos. No meu caso, o desafio é tentar exercer a arte da persuasão com bons argumentos.

Em termos pessoais, este livro reflete duas coisas. A primeira é uma mudança de filosofia. Segundo contam, Keynes, confrontado em público por contradizer antigas afirmações suas, teria respondido: “Quando as circunstâncias mudam, eu mudo de opinião. E o senhor?” Hoje, como então, as circunstâncias e o mundo mudaram — e eu também.

Um ditado anônimo diz o seguinte: “O tempo é o melhor professor. Infelizmente, ele mata todos os seus alunos.” Para minha sorte, consegui aprender algo em tempo ainda hábil. Nesse sentido, eu não teria escrito este livro há 20 anos. Mais ainda: é bem provável que ele me deixasse indignado.

Devo, neste ponto, fazer uma pequena confissão. Em 1988, a revista Veja[veja só!] publicou um longo artigo — desses que marcam época — de Mário Henrique Simonsen, criticando de forma ácida os rumos trilhados pela Assembleia Nacional Constituinte e o perfil assumido pelo que viria meses depois a ser a Nova Constituição. O artigo era uma espécie de manifesto em favor do liberalismo e denunciava uma série de mazelas que, na opinião do autor, passariam a acompanhar o Brasil se a nova carta constitucional fosse aprovada com a “cara” “que estava sendo desenhada pelo desenrolar dos trabalhos no Congresso.

Formado na heterodoxia, jovem mestre, com a ousadia própria dos 20 e poucos anos que eu tinha na época, acertei com um amigo de escrevermos um artigo “contra” o do Simonsen, rebatendo o mestre — haja empáfia! — e defendendo os rumos que o Brasil vinha seguindo. Para o bem da minha biografia, a revista recusou-se a publicar o artigo — diante do qual hoje eu coraria de vergonha, sem dúvida. Daquela época, conservo ainda certa paixão pela polêmica, mas, no debate, é claro que mudei de lado: Simonsen estava corretíssimo nas suas apreciações.

Daqui a 50 anos, quando os historiadores se debruçarem sobre o período vivido pelo Brasil nas últimas duas décadas, não tenho dúvidas de que, na hora de apontar o momento em que o país se perdeu nos descaminhos das opções erradas, a Constituição de 1988 será julgada com extrema severidade. O pêndulo, claramente, foi longe demais naquele momento. Em um país onde o fim da escravidão, na época, estava completando apenas um século, a herança escravocrata era visível nos hábitos e costumes locais, sobretudo para quem, como era o meu caso, vinha de fora — já que até então tinha passado a maior parte da minha vida na Argentina e estava acostumado com uma realidade social mais igualitária. Nesse contexto, a ideia de se insurgir contra uma sociedade muito desigual parecia promissora. [ou oportunista?]

No esforço de garantir uma série de direitos pela força da Lei — no caso, da própria Carta Magna —, o país descuidou das condições para que a prosperidade econômica pudesse ser alcançada de maneira efetiva por todos. Usando uma velha metáfora, em vez de “ensinar a pescar”, o que se buscou, naquele momento, foi “dar o peixe” para todos, sem distinção.

O resultado foi uma multiplicação de pressões, pelas quais uma parte considerável da sociedade brasileira entendeu que havia “direitos” a serem exercidos, na forma de políticas distributivas cada vez mais intensas, sem que déssemos a devida atenção a como o país poderia atender adequadamente a tais demandas. Até 1994, essa incompatibilidade entre as demandas e a capacidade de satisfazê-las por meio de um aumento da produção efetiva de bens se manifestou, de modo indireto, em uma tendência hiperinflacionária, ainda que reprimida mediante sucessivos e fracassados planos de estabilização.

[Diagnosticar a hiperinflação como pressão de demanda e não devido aos dois choques cambiais (1979 e 1983) em economia indexada é pueril – e equivocado.]

Já numa segunda fase, depois de 1994, com o Plano Real, os desequilíbrios mudaram de feição e se expressaram na explosão da dívida pública. Por fim, quando esse processo ameaçou levar o país ao defaultda dívida interna, a partir de 1999 a “fuga para a frente” se deu por uma enorme elevação da carga tributária e da compressão ainda maior do investimento público. O resultado de uma nação que zelou pela distribuição do que não tinha, no lugar de se preocupar em como intensificar a criação de riqueza.”

[Diagnosticar a explosão da dívida pública sem falar na flexibilização da taxa de câmbio com dívida dolarizada, choque de juros com dívida pós-fixada, e na ausência de uma estrutura tributária progressiva para arrecadar mais imposto de renda dos mais ricos, é no mínimo uma visão parcial ao só constatar a carência de receita tributária.]

Trânsfuga é uma expressão de origem militar para designar o desertor, quando abandona seu posto de combate e passa para o lado inimigo. Em sentido figurado passou a indicar a pessoa com reviravolta radical de ideologia: abandona um partido, uma causa, passando-se para o campo oposto. Ela renega as próprias convicções ideológicas ou políticas e passa a se justificar como estivesse antes endemoniado e, baixada uma “luz direitista ou neoliberal”, tivesse renegado uma seita, uma crença. Assume ser renegado.

O trânsfuga é referido também como apóstata. Nesse caso, a expressão se relaciona ao ato de desertar da religião a que pertencia para adotar outra ou nenhuma. Abjurar é renunciar pública e/ou solenemente à crença religiosa. Não é incomum fanático abandonar a religião antes professada de maneira indignada. Ele renega tudo de seu passado – crença, convicção, princípio moral, etc. –, e inverte o que antes acreditava.

Muitos no Brasil abjuraram o comunismo do dia para a noite, argumentando ter voltado atrás por ter se esclarecido quanto a qualquer ponto confuso, criticável, contraditório ou polêmico anteriormente afirmado. Eles se retratam, piamente, e quebram os votos religiosos. Largam o hábito – e adquirem novo hábito de “cuspir no prato que comeu”.

É lamentável ver o espetáculo público de renegar opiniões, doutrinas ou ideias por parte de “infiéis”, em vez de, simples e discretamente, abandonar um partido, grupo político, companheiros, etc. Passam a atacar sua própria história como espécie de penitência!

One thought on “Brasil, raízes do atraso: paternalismo x produtividade

  1. Fábio Giambiagi, tio e pais perseguidos pela ditadura. Hoje tá lá, do lado de Bolsonaro. O incômodo dele era com a ditadura ou com o fato da ditadura persegui-lo? Se for um governo militar para perseguir os “outros”, é bom e tem seu apoio?

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