Sacrificar “Dez Vacas Sagradas do Brasil” em Nome do Neoliberalismo

Fabio Giambiagi, no livro “Brasil, raízes do atraso: paternalismo x produtividade – As Dez Vacas Sagradas que acorrentam o país” (Rio de Janeiro: Elsevier, 2007), junta citações “ixpiiiertas” ou frases de efeito engraçadinhas como argumentos para defender suas hipóteses neoliberais sobre as pressupostas raízes do atraso brasileiro.

O livro reflete dois aspectos pessoais do autor. O primeiro é uma mudança de filosofia. O segundo é o sentimento de urgência. Ele estava em plena crise de meia-idade.

“O Brasil tem colhido o que plantou: um país é resultado das suas escolhas — e, em 1988, nós fizemos as escolhas erradas. Mais de um membro daquela Assembleia Nacional Constituinte declarou anos depois que a Constituição teria assumido um perfil bem diferente se ela tivesse sido escrita em 1990, após a queda do Muro de Berlim. Como foi escrita antes desse episódio histórico, porém, ela foi uma espécie de “canto do cisne” do dirigismo distributivista. O país está pagando um preço — e caro — por isso. O livro, nesse sentido, é um apelo por mudanças.”

[Este argumento é típico do golpismo antidemocrático imperativo em mentes esnobes de iluminares. “Mais de um membro daquela Assembleia Nacional Constituinte” não reconhece a legitimidade democrática de sua eleição?! Se suas ideias neoliberais não foram contempladas após vinte anos de ditadura militar o autor taxa a Constituição brasileira como anacrônica?! Ora, qual Constituição é atualizada ao sabor da volatilidade do debate ideológico conjuntural?]

“O Brasil precisa mudar. Para isso, é preciso enfrentar alguns de nossos tabus. De forma intelectualmente provocativa, dei a eles aqui o nome de “vacas sagradas”. Escolhi dez delas, sabendo em sã consciência que o número verdadeiro é maior.”

A tradição de divinizar as vacas nasceu com o hinduísmo. Os Vedas, coletânea de textos religiosos de cerca de 1500 a.C., comentam a fertilidade do animal e o associam a várias divindades. Outra escritura hinduísta fundamental, o Manusmriti, compilado por volta do século I a.C., também enfatiza a importância da vaca para o homem.

Nos séculos seguintes, foram criadas leis elevando gradualmente o status religioso bovino. No sistema de castas ainda vigorante na sociedade indiana, a vaca é considerada mais “pura” até do que os brâmanes (indivíduos pertencentes à casta mais elevada, dos sacerdotes). Por isso, não pode ser morta nem ferida e tem passe livre para circular pelas ruas sem ser incomodada. O leite do animal, sua urina e até mesmo suas fezes são utilizados em rituais de purificação.

Em mecanismo de auto validação ilusória, Giambiagi convidou o ex-ministro Maílson da Nóbrega, consultor de bancos e outras instituições de O Mercado para prefaciar seu livro. Ele critica. “A cultura prevalecente ainda é esperar tudo do Estado. Muitos pensam ganhar dinheiro sem grande esforço ou até sem esforço nenhum. Câmbio generoso, TJLP “desenvolvimentista”, proteção contra a “ameaça” chinesa e outras generosidades são, em sua essência, irmãs gêmeas das demandas em torno de uma boa aposentadoria sem correspondência nas contribuições ou de uma sinecura no governo.”

Resume. “Giambiagi se esmerou em minar dez “vacas sagradas” que o imaginário aceita como verdades inequívocas(e não são). Elites políticas, sindicais, empresariais e intelectuais se aferram a ideias sem correspondência na realidade. Por isso, é difícil atacar privilégios e remover barreiras à ampliação do potencial de crescimento. Temas como o aumento do salário mínimo, os privilégios da Previdência, a rigidez anacrônica da legislação trabalhista, as demandas por protecionismo e juros camaradas fluem com extrema competência, provando a improcedência de certos raciocínios.”

Como constataremos com a leitura dessa pregação neoliberal, os dez mandamentos do seu credo a respeito dos pecados em Terrae Brasilis em vez de fornecerem um roteiro para viabilizar um choque de capitalismo com democracia foram oportunisticamente usados pela equipe econômica do governo golpista para implantar com alianças fisiológicas no Congresso Nacional um “saco de maldades” contra o povo brasileiro. Ou nas inesquecíveis palavras do usurpador do Poder Executivo à sua base de apoio $$$ de empresários conservadores: “eu não me importo de tomar as medidas impopulares almejadas por vocês”. Resultado: o governo mais impopular da história brasileira! E ele pouco se importa com seu candidato sucessor não conseguir sequer 1% de apoio eleitoral…

Confira o programa neoliberal de medidas impopulares (“matar vacas sagradas”):

  1. As vacas sagradas (I): o salário mínimo que não é mínimo
  2. As vacas sagradas (II): a Previdência Social imprevidente
  3. As vacas sagradas (III): o assistencialismo exacerbado
  4. As vacas sagradas (IV): os direitos dos incluídos
  5. As vacas sagradas (V): a vinculação preguiçosa de gastos orçamentários
  6. As vacas sagradas (VI): a TJLP esquizofrênica
  7. As vacas sagradas (VII): as transferências temporárias infinitas
  8. As vacas sagradas (VIII): a taxação do capital financeiro, esse inimigo
  9. As vacas sagradas (IX): o protecionismo concedido à indústria nascente quando ela passa a ser adulta?
  10. As vacas sagradas (X): o viés anticapitalista sob as asas do Estado.

Esta última se trata da bandeira-de-luta síntese de Giambiagi: combater a “forte influência do espírito anticapitalista que vigora em parte expressiva da opinião pública nacional e de como isso prejudica o dinamismo da economia.”

“A tendência, muito presente na sociedade brasileira, de se proteger sob as asas do Estado remonta à tradição ibérica, observada nas origens portuguesas do Brasil e também nas raízes espanholas de diversos países da América Latina, de conseguir alguma forma de concessão ou favor do rei ou vice-rei, ou de qualquer outro representante na colônia.

Tal tendência manifesta-se nas mais diversas formas e nos diferentes grupos da sociedade. Se os setores econômica e politicamente mais fortes pediam a outorga de cartórios ou a garantia de alguma reserva de mercado, nas classes médias a máxima aspiração para milhares de famílias era conseguir o apadrinhamento para a obtenção de um emprego público. A novidade surgida no Brasil nas últimas décadas — e isso não deixa de ser uma socialização da prática — é que, refletindo a pressão de uma democracia de massas, os pobres e os despossuídos também estão sendo partícipes dessas práticas.”

A versão moderna desse comportamento, que é, ao mesmo tempo, a sua versão popular, é a figura de quem fica “encostado no INSS”, de quem passa a receber um benefício assistencial do Loas ou se torna beneficiário do Bolsa-Família. Por mais méritos que possam existir no apoio aos marginalizados, o fato é que se trata da adaptação de dois velhos hábitos nacionais, antigamente restritos às classes mais favorecidas:

  1. o de lutar para conseguir algum benefício do Estado; e
  2. o de ter uma renda, sem ter feito antes um esforço para isso.

Enquanto a ética anglo-saxã prevalecente até hoje nos Estados Unidos cultua a tradução do self-made man e representa a construção de uma sociedade a partir da vigência do rígido princípio do rule of Law, a tradição cultural do Brasil parece ser a oposta: a de privilegiar a obtenção de recursos públicos, sem levar em conta quaisquer outras considerações.”

Ai, como o coitado é infeliz por o States não ser aqui… snif, snif…

Ele denuncia: “no Brasil impera a filosofia de que o lucro é muitas vezes algo suspeito. Enquanto nos Estados Unidos os altos lucros das empresas são sempre recebidos com beneplácito, no Brasil é de suspeição o verniz com o qual muitas vezes o noticiário sobre os lucros empresariais é apresentado na mídia.”

Defende tanto a TV Globo quanto o sistema financeiro nacional: “Não por acaso, dois dos maiores símbolos do sucesso do capitalismo brasileiro — a rede Globo, que representa um padrão de excelência que é um benchmark no setor; e o setor financeiro, provavelmente um dos mais modernos no universo das economias emergentes de todo o mundo — foram, historicamente, ícones da rejeição de parcelas importantes da esquerda brasileira.”

A contrapartida do esquerdismo infantil não deve ser o direitismo senil. Mas esta é a atitude adotada pelo autor.

“Nota-se uma dificuldade de entender o funcionamento do capitalismo e certa atitude negativa para com a iniciativa privada, em todas as instâncias da vida brasileira. (…) é o Poder Judiciário se auto-atribuindo um papel normativo para melhorar a distribuição de renda. Não é exatamente o que no resto do mundo se entende como um “bom ambiente de negócios”…”

Em defesa da privatização das empresas estatais argumenta com a crítica à ela! “A tradição do abrigo estatal, a suspeição quanto às atividades privadas e o espírito contrário ao lucro convergiram no Brasil, como não poderia deixar de ser, na crítica às privatizações dos anos 90. (…) “a grande maioria dos brasileiros opõe-se à privatização de ícones como o Banco do Brasil ou a Petrobras. (…) No fundo, o ataque à privatização nada mais é do que a manifestação de desconfiança diante do que é privado.”

E se apresenta como o velho entreguista, defensor dos Estados Unidos, por tudo de bom para os States ser bom também para o Brasil!

“Se alguém deseja ter a proteção do Estado, suspeita das empresas lucrativas, opõe-se à figura do lucro como algo quase pecaminoso e ataca a iniciativa privada, nada mais natural, por extensão, que dirija as suas baterias contra o que é a Meca do capitalismo: os Estados Unidos. Por conta do mesmo espírito anticapitalista ao qual já fizemos alusão, existe no Brasil uma forte prevenção contra os Estados Unidos.”

O individualista apela, então, para a defesa da ideologia binária norte-americana do “vencedor ou perdedor”.

“Novamente, é útil aqui a comparação da atitude — esta é a palavra-chave — vigente no cidadão comum nos Estados Unidos e no Brasil. Os Estados Unidos têm a cultura do vencedor. Na sociedade norte-americana, todos procuram ser winners. Mais do que em outras sociedades e em nítido contraste com o Brasil, o sucesso pessoal e profissional é valorizado como o grande objetivo na vida de qualquer indivíduo. Evidentemente, nem todos atingem o estrelato, a fortuna ou o poder, mas todos são igualmente estimulados, cada qual em sua esfera de atuação, a tentar ir o mais longe possível.

O ideal cultural é, ao chegar à idade madura, poder olhar para trás e dizer que se ‘venceu na vida’. O reverso é verdadeiro: a pior pecha que pode atirar em um norte-americano é a de que se trata de um perdedor, um loser. À luz do padrão cultural do país, o perdedor não é apenas alguém que ficou em desvantagem. É um indivíduo, acima de tudo, responsável pelo seu próprio fracasso.

“No Brasil, ao contrário, o sucesso gera com frequência suspeita e desconfiança. (…) Lá [nos Estados Unidos], glorifica-se o sucesso e despreza-se o frustrado. Aqui [no Brasil], de modo geral, suspeita-se do sucesso e cultua-se a frustração. Vigora no país o que alguém apropriadamente uma vez denominou de “cultura do coitado”.

“No Brasil estamos desenvolvendo hábitos que levam o cidadão comum a associar o seu bem-estar ao fato de estar ou não no círculo de beneficiados pelo recebimento de algum fluxo de recursos públicos. Não há melhor receita para desestimular a criatividade humana.”

“O Brasil cresceu — e muito — no passado, utilizando políticas que hoje são consideradas não recomendadas e sem atentar tanto para pontos que agora se consideram vitais. Como foi possível isso? A explicação é que eram outras épocas.” Só?!

Fabio Giambiagi resume sua hipótese no livro “Brasil: Raízes do Atraso”: “O ponto aqui defendido é que o Brasil precisa se assumir como país capitalista e desenvolver uma cultura em que:

  1. a educação seja vista como fundamental pelo cidadão comum,
  2. a inovação seja estimulada e
  3. o esforço seja reconhecido.”

“Há dois problemas, porém. O primeiro é que uma fração importante da população está alheia a esse espírito. O segundo é que a estrutura de incentivos está completamente errada. O país deveria premiar o êxito e induzir a população a seguir esses exemplos. Na prática, o que temos feito implica exatamente o oposto: o lado moderno do Brasil vem sendo sufocado, e estamos desenvolvendo uma cultura do assistencialismo, em que:

  1. o excluído aspira a ganhar o Bolsa-Família,
  2. a classe média aspira a passar num concurso público para ter o salário garantido por 30 anos, e
  3. os ricos se acostumaram a aplicar no mercado financeiro ganhando juros reais de 10% a.a.”

Então, mata tudo! Viva o capitalismo!

O incréu na cultura brasileira deseja sacrificar as “vacas sagradas”, desrespeitando a vontade popular expressa em eleição democrática! O incrédulo se justifica apenas com base em sua (má) fé no neoliberalismo e na cultura norte-americana!

2 thoughts on “Sacrificar “Dez Vacas Sagradas do Brasil” em Nome do Neoliberalismo

  1. Essa gente não conhece seu próprio povo. Eles têm uma visão distorcida do brasileiro, não o conhecem e não conseguem entede-lo. Procuram justificativas para os nossos problemas sempre olhando para os EUA, mas escondem que mesmo la, foi o estado que atuou na construção de um relativo bem estar social, que por sinal vem se perdendo por conta de um estado cada vez mais ausente.

  2. às vezes me lamento por não ter um título acadêmico além das manjadas pós lato sensu, mas aí eu vejo esses acadêmicos defensores do neoliberalismo e me sinto confortado na minha mediocridade. Esses Giambiagis e Mansuetos não se cansam de passar vergonha, só gostaria de fazer uma perguntinha simples para eles, o que tanto querem conservar no nosso sofrido Brasil ?

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