Bancadas BBB e Boçalnazi

A bancada do boi já capturou a candidatura de Jair Bolsonaro (PSL) à Presidência. A FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária), braço congressual do setor, declarou apoio na véspera de eleição no 1º. turno ao deputado-capitão da bancada da bala desde 1991. Participante ativa da base de apoio ao governo golpista, corrupto e aprofundador da crise econômica, seu cinismo político e moral é descarado. “Uniremos esforços para evitar que candidatos ligados à esquemas de corrupção e ao aprofundamento da crise econômica brasileira retornem ao comando do nosso país”, disse em nota a deputada do DEM-MS, presidente da Frente ruralista. Predominam políticos do Centro-Oeste, não por acaso a região conservadora onde ele atinge os maiores índices de intenção de voto.

A FPA diz reunir 261 de 594 deputados e senadores. Historicamente ligada à candidatura do PSDB e fortemente integrada por membros do chamado Centrão, a mistura partidária conservadora também denominada de “emedebismo”, a frente vinha se aproximando de Bolsonaro e sabotando a candidatura de Geraldo Alckmin. A traição política se deu sem o menor pudor. O capitão contra o MST (Movimento dos Sem Terra) já contava com o apoio do presidente da reacionária UDR (União Democrática Ruralista), como conselheiro principal na área rural.

Além da importância econômica, o agronegócio tem grande capilaridade em Estados onde se necessita de menos votos para se eleger. A Sociedade Rural Brasileira estima haver 5,5 milhões de pessoas empregadas diretamente em sua cadeia produtiva no Brasil. Cada uma delas tem família e geralmente integra núcleos comunitários regionais, ampliando em quatro ou cinco vezes seu alcance. Predomina ainda o “curral eleitoral” na zona rural?

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Vozes da Urna

Não há uma única voz expressa nas urnas da eleição em primeiro turno de 2018. A expressão “em uníssono” seria um acontecimento em conjunto, cuja entonação seria absolutamente a mesma.

A beleza da expressão democrática nas eleições é as votações serem os únicos canais de escuta das diversas vozes do território nacional. O reducionismo a uma única mensagem taxativa empobreceria a análise desse fenômeno macrossocial com múltiplas vozes.

Uma voz da moderação diz, dentro das circunstâncias, a curta campanha eleitoral de Fernando Haddad ter sido muito adequada para receber exatamente a preferência eleitoral pelo PT, detectada em pesquisa recente pelo IBOPE: 29%. Dados da pesquisa nacional do Datafolha, na última semana de agosto, antes de ser lançado, indicavam Fernando Haddad (PT) ter o potencial para obter 24% do total dos votos.

Outra voz da cautela sugere a soma de votos apenas de candidatos da esquerda não ser capaz de levar Haddad a igualar com Bolsonaro no segundo turno. Haddad, Ciro Gomes (PDT) e Guilherme Boulos (PSOL) somaram 42% dos votos. Para se tornar competitivo no segundo turno, o petista terá de receber “votos de centro”, eleitores de Geraldo Alckmin (PSDB), Marina Silva (Rede) e Henrique Meirelles (MDB). Eles somaram 7% dos votos. Ainda assim, como deve atrair a maior parte dos eleitores de centro-direita de João Amoedo, Álvaro Dias e Cabo Daciolo, um conjunto 4,6%, o candidato de extrema-direita larga com folgada margem.

Para reverter essa desvantagem, a voz pragmática assegura Haddad ter de tirar votos do líder. Nas últimas disputas, só aconteceu em 2006 um candidato obter menor número de votos no segundo turno se comparado ao primeiro. Continue reading “Vozes da Urna”

Saga Brasileira: A Longa Luta de um Povo Por Um Jornalismo Plural

Uma piada de José Simão nos anos 90 era dizer: “Privatizemos tudo, inclusive a Miriam Leitão!”. Ele se referia à jornalista chapa-branca, feroz militante no jornal O Globo, na TV Globo e na Globo News em defesa do governo FHC, ou pior, um governo neoliberal para desmanchar o Estado desenvolvimentista. Este foi o que levou o Brasil a ser um dos maiores emergentes representados na sigla BRIC.

Não é o caso de “desneoliberalizar” só ela. Por exemplo, Claudia Safatle é diretora-adjunta de Redação do jornal Valor. Confira um exemplo de como ela usa sua coluna, assim como faz a maioria de seus colegas colunistas, para divulgar o antipetismo. Ela conclui um de seus inúmeros panfletos (Valor, 17/08/18) da seguinte forma: “A surpresa negativa fica por conta do PT, cuja chapa puro-sangue e a linguagem esquerdista, antidemocrática e cheia de mágoas do programa leva o partido a retroceder para antes de 2002. Ali o PT ampliou seu arco de alianças rumo ao centro e foi vitorioso.”

Deixe em paz meu coração

Que ele é um pote até aqui de mágoa

E qualquer desatenção, faça não

Pode ser a gota d’água

Detalhe talvez explicativo de sua “isenção, imparcialidade e pluralismo” (sic): ela foi assessora do Banco Central na gestão do Armínio Fraga (PSDB). Continue reading “Saga Brasileira: A Longa Luta de um Povo Por Um Jornalismo Plural”

Resultado Eleitoral do Primeiro Turno em 2018


Veja os totais das bancadas do Senado Federal, considerando a não-renovação de ⅓ nesta eleição:

85% foi a taxa de renovação do Senado Federal, a maior da história: 46 dos 54 eleitos são novos no cargo.

53% foi a taxa de renovação da Câmara de Deputados: 240 deputados conseguiram se reeleger.

Bancada da Bala com 73 representantes no Congresso Nacional: 4 vezes maior é o número de policiais e militares no Poder Legislativo, em 2018, comparado com o número de 2014.

29,9 milhões de eleitores não compareceram às urnas no dia 07.10.18: abstenção de 20,3%, o mais alto desde 1998 (21,5%),

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Governo Neoliberal na Argentina: Crônica de um Fracasso Anunciado

Os brasileiros necessitam refletir sobre o caso argentino, para avaliar as melhores condições políticas para o próximo governo social-desenvolvimentista não assumir um país polarizado. Têm de votar na democracia contra a regressão ao regime autoritário militar. Uma aliança progressista em busca de uma histórica conciliação nacional contra discursos de ódio mútuo e em favor do bem-estar social é a solução para ultrapassar essa terrível página da história brasileira durante 2013-2018.

Daniel Rittner (Valor, 12/09/18) avalia: o presidente da Argentina, Mauricio Macri, passou de príncipe dos mercados, que permitiu à Argentina ser estrela no Fórum de Davos e emitir títulos da dívida externa com resgate em cem anos, para chegar aos mil dias de mandato, na segunda semana de setembro de 2018, com zero de crescimento acumulado da economia e dois pedidos de ajuda ao Fundo Monetário Internacional (FMI) em quatro meses.

Macri anunciou, então, um duro pacote de ajuste em meio a uma dúvida geral: por que O Mercado deu as costas a um de seus grandes queridinhos no mundo emergente? snif, snif…  🙂

Logo no início do governo, Macri acabou com o controle cambial e concluiu as negociações com os credores mais resistentes (“holdouts“) da Argentina, que ainda detinham títulos da dívida em situação de default. Isso lhe garantiu acesso ao crédito barato no exterior, em tempos de alta liquidez e juros baixíssimos nos Estados Unidos, para financiar duas distorções da economia argentina que só foram aumentando: os déficits gêmeosfiscal e de conta corrente.

Para cobrir o rombo, a Argentina tem emitido mais de US$ 30 bilhões por ano em títulos da dívida. À diferença do Brasil, cujo governo Lula desdolarizou a dívida pública e se desvinculou da dependência ao FMI, o Tesouro faz a maior parte das captações com títulos de dívida pública com correção em dólares (Letes). Em seguida, vem o Banco Central e enxuga a base monetária por meio da emissão de letras próprias (Lebacs). Assim, o BC busca conter a sobrevalorização do peso e evitar uma disparada da inflação, já elevada, mas o sucesso foi apenas relativo.

Essa fórmula resultou em aumento do endividamento e do desequilíbrio cambial. Em termos reais, o peso já estava valendo, antes da desvalorização de maio de 2018, quase a mesma coisa que nos anos 1990. No ano passado, a Argentina teve o pior déficit comercial de sua história: US$ 8,4 bilhões. O déficit na conta de turismo chegou a US$ 10,6 bilhões, também histórico.

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Economista Oportunista: ultraliberalismo econômico + conservadorismo político e de costumes

Cristian Klein, Beth Koike e César Felício (20/02/18) informam sobre a herança reacionária do economista Paulo Guedes. Ele ainda lembra do comentário quando o pai soube, em 31 de março de 1964, que os militares haviam tomado o poder. “Agora vai ter ordem, não vai mais ter bagunça”, recorda.

Guedes, que se define como um liberal, defensor do que chama de uma “sociedade aberta”, tem muito mais afinidade com os pontos de vista de Bolsonaro do que poderiam supor aqueles que o veem como alguém que puxaria o ex-capitão do Exército da extrema direita em direção ao centro. 🙂

Em uma referência ao lema positivista (ideologia da casta dos sábios iluministas: o conhecimento científico devia ser reconhecido como o único conhecimento verdadeiro) da bandeira brasileira, de maneira equivocada, Guedes considera a parceria com Bolsonaro o encontro do “progresso” — representado pelas ideias liberais que defende — com a “ordem” e os valores conservadores, em nome de Deus e da família, empunhados pelo pré-candidato. “Ele tem determinação e princípios muito claros e firmes”, diz. E errados!

O economista afirma não ser um “censor moral”. “Ele tem valores [perversos]. Se você concorda ou discorda… Os valores dele não me ofendem. O sujeito falar ‘Deus, pátria e família‘ me ofende? Não”, diz. Continue reading “Economista Oportunista: ultraliberalismo econômico + conservadorismo político e de costumes”