Vozes da Urna

Não há uma única voz expressa nas urnas da eleição em primeiro turno de 2018. A expressão “em uníssono” seria um acontecimento em conjunto, cuja entonação seria absolutamente a mesma.

A beleza da expressão democrática nas eleições é as votações serem os únicos canais de escuta das diversas vozes do território nacional. O reducionismo a uma única mensagem taxativa empobreceria a análise desse fenômeno macrossocial com múltiplas vozes.

Uma voz da moderação diz, dentro das circunstâncias, a curta campanha eleitoral de Fernando Haddad ter sido muito adequada para receber exatamente a preferência eleitoral pelo PT, detectada em pesquisa recente pelo IBOPE: 29%. Dados da pesquisa nacional do Datafolha, na última semana de agosto, antes de ser lançado, indicavam Fernando Haddad (PT) ter o potencial para obter 24% do total dos votos.

Outra voz da cautela sugere a soma de votos apenas de candidatos da esquerda não ser capaz de levar Haddad a igualar com Bolsonaro no segundo turno. Haddad, Ciro Gomes (PDT) e Guilherme Boulos (PSOL) somaram 42% dos votos. Para se tornar competitivo no segundo turno, o petista terá de receber “votos de centro”, eleitores de Geraldo Alckmin (PSDB), Marina Silva (Rede) e Henrique Meirelles (MDB). Eles somaram 7% dos votos. Ainda assim, como deve atrair a maior parte dos eleitores de centro-direita de João Amoedo, Álvaro Dias e Cabo Daciolo, um conjunto 4,6%, o candidato de extrema-direita larga com folgada margem.

Para reverter essa desvantagem, a voz pragmática assegura Haddad ter de tirar votos do líder. Nas últimas disputas, só aconteceu em 2006 um candidato obter menor número de votos no segundo turno se comparado ao primeiro.

O ponto-fraco do adversário de extrema-direita é ele não ter nenhuma qualificação pessoal para o cargo, dada sua ignorância e intolerância com a diversidade da sociedade brasileira. Justificando-se pela facada, não enfrentou o debate ou o confronto pessoal com um adversário muito melhor preparado para o cargo de presidente da República. Seu exército de propagadores de fakenews já demonstrou o que e quem vem por aí com uma prática fraudulenta, mentirosa, violenta e desabonadora da democracia.

Existem diferenças cruciais entre as interações das pessoas e o comportamento ético dentro e fora do ciberespaço. Neste muitos costumam ter a percepção de o ambiente on-line comportar uma ética distinta do mundo real. Isso influencia o modo como lidam com a moralidade no mundo on-line. Nesse ambiente virtual, os neofascistas demonstraram poder de persuasão pela intensidade robótica e impensada dos internautas de rede social. Escondidas a ideias do candidato e com um cala-a-boca em cada porta-voz, seu projeto de país esteve ausente do debate público e presencial no “mundo real”. Suas agressivas memes foram as grandes vencedoras.

Existem supostamente mais episódios de discussões e expressões de descontentamento nas interações on-line se comparado ao debate cara a cara. As desavenças são expressas de formas muito mais incisivas e muitas vezes ofensivas ou abusivas. Os democratas necessitam aprender a enfrentar esse desafio virtual dos autoritários.

Uma voz simplória afirma o grande motor do conservadorismo ter sido o voto antipetista. A adoção desse invólucro sem reflexão maior é apenas uma autojustificativa encontrada por muitos eleitores sem ideologia ou preferência partidária para obscurecer o tosco desejo de “elevação da violência no combate da própria violência”, encontrada no cotidiano urbano.

Votaram sim na elevação do poder da ordem, da lei e do livre-mercado. Esses eleitores se enganam com a ideia de atacar os sintomas em vez das causas reais da crise: estruturais, cíclicas e conjunturais. Vivemos uma grande depressão econômica com empobrecimento e agravamento da desigualdade social.

Culpam os desvios, as fraudes e a corrupção político-eleitoral como os males a serem combatidos pelos representantes eleitos das castas da farda, da toga e dos mercadores. Basta conferir a origem militar de muitos novos deputados/senadores e de prováveis novos governadores: juiz (RJ), advogado (DF) e empresário (MG). Esses eleitores se enganam ao “assinar um cheque-em-branco” para o ex-capitão (e político profissional), um líder de clã político da extrema-direita militarista. Ele não ofereceu nenhum projeto socioeconômico capaz de resgatar o bem-estar social, vivenciado até meados de 2013.

Esta eleição revela mais uma vez como a sociedade brasileira é multidimensional. A elaboração de uma estratégia eleitoral adequada a sua estratificação não pode se reduzir à luta de classes, ideia originária do Partido dos Trabalhadores. Deve considerar também o status social e as outras afiliações “partidárias”: grupos e associações com ações coletivas para influenciar a sociedade. Em conjuntura de enfraquecimento sindical, pela desindustrialização, desemprego e reforma trabalhista, representa os movimentos sociais como os das lutas identitárias – feministas, antirracistas, LGBT, MST, etc. –, e apresenta um projeto de desenvolvimento socioeconômico para a população de regiões menos desenvolvidas: Nordeste e Norte do Brasil.

O desafio no segundo turno será ampliar-se com um projeto nacional para todos os habitantes do País. Este não foi apresentado por seu adversário, cuja tecla única é a questão da segurança pública. Cabe ao Haddad destacar também a ótica social-desenvolvimentista nessa questão prioritária atualmente para a população brasileira.

Como classe, status e partido se combinam e se sobrepõem, isso gera um panorama complexo da estrutura social. Diversas posições possíveis interagem dentro da sociedade. As posições de status social variam seja qual for a classe. A posse de riqueza normalmente confere um status elevado, mas nem sempre.

O status, para cada pessoa, pode ser diferente de acordo com o contexto social. A classe média urbana das regiões sul, sudeste e centro-oeste, sob intenso bombardeio midiático há quatro anos, adotou um discurso de ódio dirigido a um bode-expiatório: “o PT”. No fundo, esse sentimento de aversão foi adotado devido ao seu empobrecimento relativo. A raiva cega culpa o responsável pela ascensão “dos outros” e não reflete sobre a conjuntura particular. Votou no aprofundamento da recessiva política econômica atual!

A anomia é um sentimento de extrema ansiedade e medo resultante da experiência de ausência de normas sociais efetivas. Aparece durante períodos de rápida mudança social. Surgem grandes problemas sociais com a quebra de estilos de vida tradicionais, morais, crenças religiosas e rotinas cotidianas, muitas vezes sem serem substituídos. Essas condições desestabilizadoras resultam em anomia, sentimentos de falta de perspectiva, medo e desespero quando as pessoas não sabem mais “como prosseguir”. Não é mais como antes.

As regras e os padrões de moral tradicional fornecidos antes pela religião católica com o auto sacrifício ou o conformismo foram destruídos pela emergência da teologia da prosperidade evangélica. Muitas pessoas ficam com a sensação de o cotidiano carecer de sentido e o buscam nas orientações político-partidários de pastores evangélicos. Votos-de-cabrestos religiosos, novamente, influenciaram uma eleição brasileira.

Quando o sistema partidário tradicional, com raras exceções, está praticamente destruído, levando junto alguns oligarcas estaduais, as igrejas e os templos não foram as únicas instituições transformadas em partidos. O Poder Judiciário se partidarizou. As Forças Armadas, junto com as polícias militares, também foram contaminadas pelo vírus da política partidária.

Isso é um grande risco para a democracia brasileira por elas deterem o monopólio da violência das armas, embora este seja contestado pelo crime organizado. Esse monopólio, em conjunto com o monopólio da emissão da moeda nacional, detido pelo Banco Central, constitui um baluarte da soberania nacional. Se esta é democrática, é popular.

A anomia ocorre quando não existem padrões claros orientadores do comportamento em determinadas áreas da vida social. Quando ausentes, podem deixar as pessoas desorientadas, ansiosas e incapazes de agir e votar de maneira racional.

A anomia institucional se refere a uma situação, como a atual brasileira, quando há uma ênfase excessiva na ética de mercado. Ela tende a sobrepujar e destruir as normas sociais reguladoras dos comportamentos éticos dos indivíduos. A lógica de ação mercantil foi adotada até pela teologia da prosperidade!

Quando alguns indivíduos cometem crimes e atos de desvio de conduta, é possível duvidar se eles são seres racionais sabedores exatamente da dimensão dos erros cometidos. Uma elevada proporção de “crimes aquisitivos”, cometidos para o ganho financeiro imediato, se dão contra valores culturais promotores da busca do sucesso material como objetivo legítimo, condicionado à autodisciplina e ao trabalho árduo. Essa ideologia encobre o fato de as oportunidades legítimas de sucesso não estarem abertas a todos.

Os crimes corporativos, classificados como “crimes do colarinho branco”, como fraude, peculato, sonegação, infração de regras em licitações, corrupção, etc., são crimes aquisitivos cometidos por sujeitos de grupos sociais com sucesso material já alcançado. Muitos deles se encontram em condomínios de luxo da Miami brasileira (Barra da Tijuca) – e não nas celas da República de Curitiba. Pior, eles e seus representantes são eleitos pelo impedimento da candidatura do maior líder popular pelas castas da toga, da farda e da pena. Ocupam esse vácuo político criado pela força da lei, da ordem e do mercado. A história fará a justiça contra a irresponsabilidade política dessas castas.

Publicado também em:  https://jornalggn.com.br/noticia/vozes-das-urnas-por-fernando-nogueira-da-costa

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