O Brasil no Mundo

Paulo Francis diz ter terminado de escrever o livro “O Brasil no Mundo” nos últimos dias de Tancredo Neves em 1985. Remeteu os originais ao Rio em uma quinta-feira. O presidente não empossado morreu no domingo.

Ele analisa o nível ideológico das elites dirigentes, todas autoritárias, na sua opinião, apesar da desconversa que algumas oferecem ao público em tempos de suposta democracia, como naquele momento.

Vai a D. João Charuto, ao Cabral dos tamancos, à Contrarreforma do catolicismo, no século XVI. Esta é a mãe espiritual de líderes tão diferentes entre si como Garrastazu Médici e Leonel Brizola. Foi a mentalidade, a ideologia da Contrarreforma, que criou a mística do “homem” todo-poderoso, da distância olímpica das elites do resto da sociedade. O assunto era pouquíssimo estudado entre nós. Esperava o livro não ser tedioso para o leitor e chatear muita gente. Era sua única ambição.

Pode parecer “frio” ao leitor, particularmente o jovem, alguém terminar um livro antes de saber do fim do homem cuja promessa era levar o Brasil à prometida Nova República. Bem, ele já tinha votado para presidente em 1950, 1955 e 1960. E não tinha votado em Tancredo, cuja eleição foi indireta. As semelhanças entre as “Repúblicas” brasileiras lhe impressionavam mais do que as diferenças

Disse: “as oligarquias brasileiras se sentem ameaçadas por regimes de força ostensiva. Melhor jogar a culpa neles pela desesperança no país. Tancredo provou que se pode “dar a volta por cima” com civilidades e promessas, sem conceder nada a quem, de resto, nunca teve nada, mas que prefere ser bem tratado da boca para fora. É a história de todos os episódios de conciliação nacional. É a história do Brasil. Roda um ou outro líder. Alguns batalhões são enviados à retaguarda, as posições básicas não mudam.”

Anticomunista, Francis se gabava de morar em Nova York (“Noviorque”): “posso me dar a esse “luxo” porque vivo do meu trabalho e não de trambiques e sinecuras do Estado, como tantos de meus inimigos e amigos, que aceitam “servir” a governos, qualquer um que os queira(a esquerda não fichada pelo DOPS começou a reingressar discretamente no aparelho de poder no governo Médici…), que lhes garanta vida sem risco e privilegiada em uma sociedade que permanece pré-científica e pré-capitalista. São todos, noto, nacionalistas.”

Assumidamente reacionário e neoliberal, Paulo Francis dizia: “Quero distância do Estado. É o inimigo. O único argumento que me seduz em favor da democracia é que possa garantir o indivíduo contra o Estado, seja pela justiça, imprensa, etc. Somos postulantes desse estado de bem-aventurança no Brasil. Conosco, até hoje, com períodos incompletos (1946-1964) de exceção, baixaram ordens do dia. O mal é de origem. A história prova.

O arranjo colonial da Inglaterra nos atuais EUA era essencialmente econômico. Os colonos que se virassem na selva, que se administrassem e que escravizassem e matassem índios por conta própria. Entregues a nós mesmos, decidindo o que fazer para vivermos uns com os outros, é mais fácil encontrarmos o toma-lá-dá do estado de direito, pelo princípio de “temei o próximo como a vós mesmos”.

O colonialismo espanhol, de que o português foi um arremedo, despachou à América Latina soldados, padres e burocratas da matriz. Não se dava um peido real sem consultarel-rey. Há aquela história fantástica e verdadeira de que Pizarro presenteou umas esmeraldas à rainha Isabela e exigiu recibo. E da próxima vez mande o número do CPF, da carteira de identidade, título de eleitor, filiação, certificado de nascimento, e não se esqueça de reconhecer tudo em cartório. Vejam em que deu os EUA. Vejam o que demos nós.

É esta consciência cultural do que somos o tema deste livro. O Estado que nos oferecem, seja o realismo capitalistade Roberto Campos ou o realismo socialistade Ferreira Gullar, tem a mesma raiz autoritária, apesar dos rótulos acrescentados ao longo da história, que sugerem ingredientes de outra cultura. O primeiro já nos foi imposto pelas Forças Armadas, em 1964, com o argumento de que são armadas e os civis são desarmados. É irrespondível. Ninguém respondeu. Os militares só saíram porque a casa estava desabando sobre eles, e preferem, como qualquer um de nós, ver pela televisão.

O realismo socialista é inédito, mas, ó, tão sonhado, tão prenunciado pelo que se vê à nossa volta, que não requer — ainda que receba — propaganda declarada. O povo feio, doente, maltratado, pré-coerente, é tanto e tão visível, que empolgou as fantasias das elites. A juventude de classe média imita o marginal, afetando uma maltrapilhice estilizada e um vocabulário telegráfico e pornográfico. O banqueiro que, num dia, ganha mais do que a população de várias cidades num ano, à noite chora as desditas e celebra os sucessos de pobretões em novelas de televisão.

Comerciantes, é certo, fazem fortunas explorando esse gosto popular pelo popularesco, mas será mesmo que o controlam, como muitos imaginam? O “mundo cão” da cultura de massa, que as elites usam para mantê-la onde está, a mim me parece também excitar os manipulados, já que se lhes oferece uma orgia de prestígio e de poderque em momento algum confere com o real esquálido e miserável. Um dia podem ir além do quebra-quebra ocasional e do pedágio cobrado pelo assaltante da esquina.

Anarquia é a questão. O Estado moderno se sofisticou muito em reprimi-la pela força, ou contê-la pela persuasão adulatória, mas há gente demais solta no mundo sem que sejam criadas uma economia e uma ordem social que possam absorvê-la.”

“No Brasil é diferente. Temos muito mais pessoas assim, com muito menos proteínas, e nenhuma tradição cristã ou secular de assistência social. As legiões de migrantes acampadas nas cidades médias e grandes sugerem que o “Nordeste” se mudou para cima de nós. Lampião e companheiros se reproduzem nas ruas.

Baniram a classe média das calçadas. É um estímulo à indústria automobilística, se o carro estiver no seguro. A maioria dessa gente não canta, ao contrário dos baianos na televisão. Dá dó, que diminui em proporção à proximidade, aos apelos que nos fazem e que podem ser outra coisa, à violação que impõem ao nosso conceito de humanismo, pelo que são, porque, em última análise, não há uma linguagem comum entre nós, nada há entre nós, exceto colisões ocasionais e o desconcertamento de um e outro que, ao se olharem, veem refletida de maneira hostil a imagem que têm ou gostariam de ter de si próprios.

“Nos Brasis nunca se fez o desenvolvimento possível das forças de produção — vulgo capitalismo —, nunca a maior parte da população foi integrada na modernidade urbana, industrial, em que a fartura de bens materiais é o objetivo das elites e em que predomina uma cultura secular, cuja máxima é o máximo nesta vida. Padres falam da outra vida, eterna. Comunistas prometem felicidade às futuras gerações. É o mesmo papo, em essência. A diferença principal entre o caipira de ontem e o de hoje é que este vê televisão nas praças públicas. Não se espanta tanto quanto imaginam nossos intelectuais. Tem uma antiga tradição de mágica.

Por que o povo chorou tanto por Tancredo? Ele não fez nada. Em dois meses de presidente eleito dizia coisas como “é preciso combater a inflação e retomar o crescimento econômico”. A maioria das pessoas não sabe o que é inflação e o PIB é o que se tem no bolso. Tancredo lembrava um agente funerário apresentando condolências à família do morto. Olhava sempre para o chão. Talvez fosse onde nos visse e se visse.

A presidência de Tancredo foi um arranjo entre as elites vitoriosas de 1964 e as elites derrotadas de 1964. O governo militar se desmilinguia a olhos vistos. Isto quando os militares já tinham contra eles os governos de São Paulo, Rio e Minas, a classe média que perdia — perde — o amealhado no “milagre” dos anos 70,uma recessão interna insuflada pela internacional, um débito externo impagável, nos dois sentidos da palavra, uma imagem de corrupção governamental sem paralelo na história do país e uma guerra civil ativíssima nas ruas.

“É o aspecto tribal, de casta, da escolha, que me fascina. Sempre foi assim na nossa história. Ungidos e iluminados decidem entre eles que lei deitar em cima de nós no berço esplêndido.

Não importa se é a batina do padre, a farda do soldado, o fraque do oligarca, ou o “três botões” do tecnocrata: a origem de todos é a mesma. É o que Deus quer. Padres, os primeiros iluminados, nos vetaram acesso à ciência, à revolução industrial, à ideia de liberdade política, rotineiras na Europa protestante e nos EUA — a prova de que o colonialismo em si não era o principal obstáculo — a partir do século XVIII.

O Brasil começou a ter precárias universidades e imprensa só a partir do século XIX. Antes, as trevas impostas, para que ficássemos a salvo da modernidade material e herética, protestante, o pensamento irresponsável que atribui ao indivíduo o direito de escolha e de organizar a sociedade experimentando e errando, em suma, o caminho da expansão e progresso das nações que dominaram o mundo até 1945, nenhuma católica, exceto a França, mas à custa de revoluções cataclísmicas, em 1789, 1848 e 1871. Espanha e Portugal murcharam à irrelevância sob o feudalismo forçado da Contra-Reforma católica. Aqui em casa chamamos feudalismo de latifúndio.

É o princípio da organização que conta, nem tanto o que se propõem. O positivista de fraque, o pai do tecnocrata, acreditava em ciência. A religião dele era a ciência, mas que fosse administrada por um clero secular, nada de povo, de contágios democráticos. Os iluminados sabem o que é melhor para os cegos. Nhonhô manda, caboclo faz.”

Se Nhonhô desse uns passes, todos comeriam e teriam “bom consumo”, o que é hoje, determinada pela televisão, a imagem que mais se faz de uma vida boa. Acanhado e passivo, talvez, mas o que é o tipo médio de rua, se não for bandido ou estiver bêbado ou no campo de futebol?

O que chamamos povonão conhece outra vida. Nunca atingiu o estágio de consciência que lhe permite articular interesses claros. Acasta de sacerdotes, a espiritual e a leiga, brilhou na catequese, que produz da submissão abjeta a expectativas mágicas. É uma espécie de gangorra.

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