Conclusão do Prefácio de Paulo Francis no livro “O Brasil no Mundo”

Encerro o resumo do Prefácio de Paulo Francis no livro “O Brasil no Mundo: uma análise política do autoritarismo desde as suas origens” (RJ: Zahar; 1985). Um direitista neoliberal mais inteligente é uma carência do País em tempo obscuro de “boçalnarismo”…

O primeiro registro estatístico do Brasil é de 1600. Assinala, na Bahia e no Recife, cerca de 2 mil brancos e de 4 mil negros e índios convertidos, quer dizer, escravos também. Nada mudou, em essência, em 1985. Aumentaram “negros e índios”, tanto que podem atropelar os brancos se o controle destes fraqueja, ou, quem sabe, tangidos por quem souber ler-lhes o inconsciente cifrado em primitivismo.”

“Elites que reduzem e mantêm povos em uma prisão anímica de aferimento social estão aprontando contra si próprias uma revanche igualmente bárbara.

Democracia, que não é apenas voto popular, manipulado facilmente, mas sim a liberação das forças produtivas da sociedade, partindo do nível que se encontram, que é baixo, quando muito de subsistência, sugere uma saída entre a canga oligárquica atual, fardada ou à paisana, e a anarquia. Não é o pensamento em moda nas elites. Todas têm um plano nacional, imposto de cima para baixo, “pelo povo”, à la Pedro I, nada para o povo.

Tivemos 20 anos de tecnocracia misturada, aos poucos, ao velho cangaço de elite. A força bruta foi ocultada na nova república. As relações sociais são as mesmas do passado. Os populistas, desalojados da vida política em 1964, propõem que o Estado substitua essas velhas oligarquias. Não percebem, ou não querem ver, o que é mais provável, que trocam apenas a fachada do autoritarismo, mantendo-o absoluto.

Convenhamos, nesses 20 anos de um golpe que se propunha defender a “iniciativa privada” do comunismo, o Estado cresceu à elefantíase. Cinquenta e seis por cento da economia estão sob controle do governo, de governos, em verdade, com orçamento próprio e a autonomia que o mercado, o “tráfego”, permitir.

Em termos ideológicos, a direita de 1964 fez o trabalho prometido pela esquerda que alijou do aparelho de poder. Existe apenas a questão política de quem dirige o Estado. Este se tomou o senhor da sociedade. Disso não há dúvida. E espolia mais do que qualquer multinacional. Afinal nada precisa vender. Não enfrenta folha de pagamento. Deixa essa tarefa ao Tesouro, de que é o dono. É o círculo vicioso perfeito.

Em volta das diversas “brás” as favelas se avolumam. Montar essa estrutura de estatais custou-nos a maior parte de uma dívida externa de 104 bilhões de dólares e uma dívida interna de que se perdeu a conta. Há também a trambicagem que passa tantas vezes por capitalismo. De quando em quando a sede ao pote racha este e um pouco de água suja se esparrama à vista do público. Ninguém vai nunca para a cadeia.

Os desmandos dos estatistas e dos empresários do saque, ambos membros da mesma eliteque só diverge no “modus” de como se ceva, não são a saída, ao menos disso sabemos, é visível a olho nu.

Um relatório do Estado-Maior das Forças Armadas, EMFA, é comentado por Paulo Francis no livro, “O Brasil no Mundo”, é o melhor retrato disponível do Brasil. Começa pela gabolice que de quadragésima nação industrial em 1964 passamos a ser a oitava em 1984. As próprias esquerdas, que não “participaram” dessa jornada, dão crédito a essa sandice, a medida meramente industrial que nos coloca à frente da Suíça, Holanda e Suécia, que só quem não conhece pode imaginar à altura de meio-fio social em que está nosso país.

Vêm as más notícias do relatório. Notamos logo que não têm causas específicas. São “atos de Deus”. A inexplicabilidade e a impotência da condição humana, artigos de fé da ideologia da Contra-Reforma, continuam gravadas indelevelmente na fronte dos nossos generais, apesar de toda “ilustração” positivista-tecnocrática que recebem na Escola Superior de Guerra (ESG).”

“Tivemos uma espécie de democracia de 1946 a 1964. Um presidente se suicidou, dois interinos (Carlos Luz e Café Filho) foram depostos, outro foi empossado pelo exército, um outro renunciou e o último subiu se traindo e ao mandato, recuperou-o e terminou também deposto. O voto direto é em muitas regiões dirigido a quem nhonhô manda o caboclo votar, e em qualquer parte a maioria das pessoas não sabe do que estão falando os candidatos (nem estes dizem o que pensam…).

Ainda assim foi um processo educativo. Educação implica tentativa e erro até que se atinja a maturidade. Talvez o Brasil descrito pelo EMFA já esteja tão dilapidado, material e humanamente, que a alternativa seja a anarquia ou o estado de botina permanente na face do povo.

Talvez. Os homens não se criam problemas que não possam resolver. A democracia postiça, meia-confecção, precária pelos assaltos que sofre dos ditatoriais, ao menos permite que se proteste e se proponha formas de vida civilizada. É verdade que quem propõe se arrisca a ser desdenhado pelahorda, que quer apenas seguir o líder, ou a ser suprimido pelo próximo — inevitável? — regime de força.

Pode ser também que um número razoável de espíritos livres se faça ouvir acima e à margem da incompetência das oligarquias sentadas sobre o país desde que ganhou identidade. Espíritos livresgarantiram os direitos do homem na Revolução Francesa, em 1789. A ideia permanece viva apesar de achincalhada “n” vezes em todo o mundo. Divulgar essa ideia é um princípio.

Nova York, julho de 1985”

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