Social-democratas do PSDB: Voto contra o Autoritarismo

O primeiro dos muitos problemas do Partido da Social Democracia Brasileira foi a desistência do eleitorado popular, tornando-se um partido apenas da classe média, sem votos nas regiões mais pobres do Brasil. O golpismo instalado logo após a eleição de 2014 levou ao impeachment de Dilma Rousseff.

Seus velhos líderes fundadores passaram a ser rejeitados internamente. Uma nova geração de políticos de direita do PSDB, como João Dória, deram a facada final no partido, diz o historiador Lincoln Secco, professor de História Contemporânea na Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro História do PT (Ateliê Editorial).

O site português Publico  o entrevistou.

Como é que chegámos a tanta divisão entre os brasileiros, em que metade adora o Partido dos Trabalhadores (PT) e a outra metade o e apoia um homem que idolatra a ditadura?
Desde 1989, quando houve as primeiras eleições após a ditadura, que o sistema político brasileiro se divide em PT e antipetismo. O PT esteve em todas as eleições no primeiro ou segundo lugar. Claro que o antipetismo assume diversas formas. Na maior parte do tempo foi representado pelo PSDB, que é um partido com uma origem de centro esquerda, ocupou o centro direita mas tinha uma certa racionalidade. Só que a partir de 2013, com essa crise que se abateu no Brasil, com a eleição muito polarizada de 2014, e depois com a campanha do impeachment, o partido perdeu a hegemonia no campo do centro-direita. Essa é a causa principal dessa polarização muito mais agressiva que vivemos hoje. O principal problema está no PSDB e não no PT.

O PSDB é o principal problema? Porquê?
Porque o PSDB segurava um pouco esse radicalismo extremista. Como a extrema-direita não tinha uma possibilidade eleitoral viável, votava no PSDB. Mas o PSDB implodiu.

O que aconteceu ao PSDB para se ter transformado assim?
O ex-presidente do PSDB, Tasso Jeiressati, do Ceará, deu uma explicação plausível. São erros que o partido cometeu, primeiro questionando a legalidade das eleições de 2014, fazendo uma oposição irresponsável ao Governo Dilma Rousseff e principalmente defendendo a destituição. Isso não era da tradição do PSDB. Há uma questão mais antiga, histórica, que é o facto de desde 2005, com os escândalos de corrupção do Mensalão, o PSDB ter deixado de buscar o apoio do sector popular. Tornou-se um partido particularmente de classe média e regionalmente concentrado no Sul e em São Paulo. O partido praticamente desistiu do sector popular. Assim não consegue praticamente vencer eleições. A frustração eleitoral do PSDB fez com que começasse a procurar saídas que já não são institucionais.

E há uma origem sociológica, ou histórica, para o PSDB se ter transformado dessa forma?
O PSDB sempre foi um partido mais do Sul e Sudeste e de classe média. Mas nos dois governos de Fernando Henrique Cardoso também tinha apoio popular. Só que Lula da Silva e o PT conseguiram conquistar o apoio dos mais pobres e aconteceu aquilo que um politólogo brasileiro, André Singer, chama de “realinhamento eleitoral.” O problema é que a partir daí o PSDB desistiu dessa disputa, passou a condenar as políticas sociais de Lula, a combater o programa Bolsa Família, dizendo que era uma esmola dada aos pobres. Isso afastou-o do sector popular, tornou-o um partido só da classe média. Isso foi o grande problema.

O que vai acontecer agora ao partido?
O PSDB dividiu-se com os movimentos pós-2013. Sempre foi um partido com caciques, com lideranças regionais fortes, mas era principalmente um partido de São Paulo, e um pouco de Minas Gerais. E o Ceará também tinha um papel importante no partido. Mas São Paulo era a base, e a liderança de São Paulo começou a ser questionada, e mesmo aqui dentro do estado, porque esses novos movimentos de rua são muito mais radicais do que o discurso dos tucanos. Isso ficou muito claro numa grande manifestação contra  Dilma em 2016, a primeira, em que uma carrinha foi à Avenida Paulista com os principais caciques do PSDB, incluindo Aécio Neves e José Serra, e foram expulsos da Avenida por pessoas de extrema-direita, que não queriam políticos, só aceitaram Bolsonaro, e algum outro assim de extrema-direita.

Então o partido foi perdendo a liderança da oposição ao PT e foi-se dividindo. Aqui no Brasil fala-se de “cabeças pretas”, que são os deputados um pouco mais jovens, não são exactamente jovens, e os “cabeças brancas”, que seriam a ala tradicional, a mais antiga do partido, que ainda tem certos compromissos com a democracia, com o liberalismo, como o Fernando Henrique Cardoso, por exemplo. O principal problema deles é essa divisão interna. Um grande expoente dos “cabeças pretas” hoje é o João Dória, que não é tão novo assim, mas é uma liderança nova do partido, foi prefeito de São Paulo por pouco tempo, e é agora candidato a governador.

O futuro do PSDB depende das vitórias em São Paulo e Minas. Se perderem São Paulo, o partido esfacela-se. Vou ser até mais cruel. Se ganharem também se esfacela. Porque a liderança do Dória não é uma liderança tradicional tucana. É muito à direita e muito personalista. Ele já está a apoiar Bolsonaro. Não apoia mais o seu próprio partido. Acho que o PSDB está numa crise, que não sei se é terminal, vai depender dos resultados eleitorais. Mas não estavam à espera disso.

Isso é mau para a democracia…
É, porque acaba um partido que era de centro-direita mas que moderava os radicalismos. Também não sei o que vão fazer na segunda volta, é uma incógnita. Vão ficar numa situação muito difícil, porque uma parte da base deles é muito de direita, não quer o PT de jeito nenhum mas ao mesmo tempo essa liderança tradicional não pode apoiar o Bolsonaro.

E o papel do FHC nestas eleições?
Ele já não tem influência eleitoral, tem uma influência simbólica. Ele já declarou que apoiaria Fernando Haddad contra Bolsonaro. Mas depois disse que os dois eram extremos, devem tê-lo chamado a atenção dentro do partido. Mas hoje é apenas uma figura simbólica. Mas seria importante que ele fizesse uma declaração a favor da democracia e contra o Bolsonaro. Não é inútil.

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