Todos Contra Todos: O Ódio Nosso de Cada Dia

Leandro Karnal, no livro “Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia”, diz ter havido uma regra desde o golpismo instalado após a reeleição da Dilma: “Não apenas me oponho a você, mas você é o obstáculo para o progresso brasileiro.” Ou: “O Brasil seria um bom lugar se você não existisse.” Daí cresce o ódio diante das mazelas políticas, porque se interpreta tudo de ruim a ocorrer no Brasil nascer do outro.

Em determinado momento do processo de golpe contra a Dilma, Karnal disse nas redes sociais e em palestras: “ele seria a pessoa mais feliz do momento se acreditasse a corrupção no Brasil estar ligada, exclusivamente, a uma pessoa ou a um partido”. Algo tão óbvio poderia ser considerado uma platitude. No entanto, foi atacado por centenas de pessoas, acusando-lhe de ser pró-governo Dilma e um petista.

Caiu o governo do PT, subiu o grupo oposto, e as denúncias de corrupção continuaram. É evidente a corrupção não ter terminado com o rito aparentemente legal do impeachment. Apesar de todos os governos terem casos de corrupção – Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer – Karnal estava dizendo os atos corruptos, denúncias e escândalos não se restringirem a um partido, ainda se, eventualmente, um ou outro partido se destacassem em dado momento.

Mas a corrupção é institucional e endêmica. Portanto, não seria a solução a queda de uma pessoa para resolver o problema da corrupção.

Hoje, Karnal gostaria de entrevistar aquelas pessoas que lhe acusaram de ser pró-governo e perguntar: “Você viu que eu tinha razão? Que a corrupção não estava concentrada num partido?” Provavelmente, porém, essa pessoa responderia que “não”, que ele continua trabalhando para aquele partido por dizer algo do gênero. Afinal, não há racionalidade nessa polarização.A discussão política no Brasil de hoje tem o patamar da irrelevância para quem espera uma discussão política verdadeira.

Debater sua posição partidária ou ideológicaé como se fosse um corintiano/atleticano/flamenguista/colorado discutindo, respectivamente, com um palmeirense/cruzeirense/pó-de-arroz/gremista, e passássemos a tarde dizendo por que cada time é melhor. Quem já ouviu falar de algum torcedor, após ouvir a exposição apaixonada do outro, dissesse: “É verdade, eu nunca tinha me dado conta desse ponto de vista. Vou mudar de time…”

É tão idiota e violenta a discussão políticaque não se pode classificar de discussão política. É apenas a disputa de um espaço de narciso para a base. O que se discute na rede socialnão é o golpe ou não golpe, mas é se eu sou mais inteligente que você, se eu sou melhor que você e se você é o idiota. Esse ódio “psicologizante” da base e esse ódio “politizante” do topo, relacionados apoder e subjetividade individual, é um jogo de cartas marcadascom o qual ocorre o debate político.

O problema da polarização é ela não pensar. A polarização adjetiva. No momento que eu lhe acusar você ser petralha ou coxinha, deixo de pensá-lo como um ser humano dialético, contraditório, orgânico, em evolução, e paro de discutir as suas ideias e apenas o rotulo. A polarização é burra. Mas ela vem acompanhada de uma coisa ainda pior: a vontade de eliminar o oponente. O “inimigo” desconhecido nem lhe escuta. Nem quer saber o que você tem a dizer.

“No Brasil não ocorre debate político, e sim troca de insultos, palavrão, incapacidade de ouvir qualquer outra questão. Ninguém ouve ninguém nesse momento. Por isso é possível supor que todo ódio político brasileiro, que começou nessa fase e não terminou, possa ser visto como uma cortina de fumaça contra algo maior. Enquanto as pessoas se matam, eu sigo com meu esquema. Não sei qual é esse esquema na teoria conspiratória, mas é uma cortina de fumaça. Ou seja, discutam o que é secundário.”

A Políticaé um exercício de distribuição e controle do poder. Para isso, impôs-se, há algum tempo, a necessidade de elaborar o discurso do bem coletivo. “Eu quero me candidatar para fazer o bem para o Brasil.” Não significa que alguns políticos não pensem dessa forma. Alguns políticos podem pensar no bem comum, no interesse público e nos benefícios públicos, mas mesmo esses estão inseridos em um jogo maior. Esse benefício é uma face importante de um jogo de poder.

As redes sociais empoderaram pessoas. Muitos passaram a se achar agentes políticos. Hoje o discurso de politização é maior do que no passado. Mais gente discute política. Mais gente, de fato, pensa politicamente e expressa a sua opinião. As redes sociais são um fato novo. Tudo é divulgado, incluindo coisas verdadeiras e coisas falsas. Muita gente dá opinião, e essa opinião é imediata e forte.

O problema é haver dezenas de milhões de pessoas sentindo uma proletarizaçãoameaçadora de produzir uma volta à sua situação anterior. Essas pessoas precisam atribuir sua proletarização a uma força distinta externa a si. Achar um bode-expiatório.

A rede social e a instabilidade econômica produziram um ódio enorme. O problema não é eu ter voado sistematicamente de classe econômica e agora ter direito à executiva ou à primeira classe. O problema é eu ter chegado à executiva e à primeira classe e agora me dar conta de que precisarei voltar à econômica.

Se há um componente racional dessa crise, parece a crise nos ter tornado mais éticos, porque no início da Era FHC, surgiram os imensos escândalos das privatizações. Hoje, dada a memória curta nacional, as pessoas esqueceram. Da mesma forma como hoje, surgiam os indícios de ter sobrado dinheiro para o político, o empresário e ainda para a ascensão social. A festa era paga para o honesto e o desonesto. Na Era Lula, continuou. Agora que não há mais dinheiro, nem para o empresário, nem para o corrupto, nem para o trabalhador, eu preciso achar alguém para culpar. A disputa fica mais feroz.

Não éramos tão zelosos da ética pública quando houve o escândalo da Coroa Brastel, da poupança Delfim ou das polonetas no regime militar. Até porque não podíamos ser, não sobrevivia quem fosse.

Não éramos tão zelosos da ética pública quando pessoas tradicionais de São Paulo roubavam, como Ademar de Barros. Tinha a fama de ser corrupto, mas produtivo. Fama herdada pelo ex-governador Paulo Maluf. Mas esses episódios e personagens não causavam tanto ódio. É muito curioso. Existem antimalufistas, mas a rede social não é dominada pelo ódio contra os malufistas, ou contra os “ademaristas”. Pelo contrário.

Quando, supostamente, um grupo novo passa a ser culpado pela corrupção – com ou sem razão – e junto vem a crise, a questão incomoda. O moralismo de classe média tem essa base terrível: ser parte resistência social, parte resistência à mudança do padrão do corrupto brasileiro. É um mistério para Karnal alguns governantes, como Maluf, com casos comprovados de corrupção, julgados, não tenham contra si a mesma carga de ódio destinada a outros igualmente acusados, mas sem comprovação ou julgamento.

Todo ódio tem um traço do nosso narciso infantil. O mundo deve concordar conosco e, quando discorda, ele está errado. A democracia é boa sempre que consagra meu candidato e minha visão de mundo, mas é ruim, deformada ou manipulada quando diz o contrário. Acredita-se em dado informado por um instituto de pesquisa de opinião, mas o considera comprado quando diz o contrário.

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