O Lugar da Lógica na Filosofia

Desidério Murcho, no livro “O Lugar da Lógica na Filosofia”, afirma haver “uma incompreensão da natureza da Lógica e do seu lugar na filosofia. Este livro procura clarificar e remover algumas incompreensões frequentes acerca de ambas, as quais dificultam o seu ensino e estudo. Não pretende, contudo, ensinar Lógica — para isso há outros livros bons.”

Um professor competente tem de saber muito mais em relação à ementa obrigatória de ensinar em uma disciplina.

  • Só assim pode responder adequadamente aos desafios levantados pelos estudantes.
  • Só assim tem um domínio seguro das matérias mais simples porque lhes conhece os fundamentos e as ramificações.
  • Só assim tem a autonomia intelectual para escolher as matérias importantes e deixar as acessórias.

“A argumentação é um instrumento sem o qual não podemos compreender melhor o mundo nem intervir nele de modo a alcançar os nossos objetivos”.

Quando argumentamos podemos enganar-nos. Podemos argumentar bem ou mal. É por isso que a Lógica é importante. A Lógica permite-nos fazer o seguinte:

  1. Distinguir os argumentos corretos dos incorretos;
  2. Compreender por que razão uns são corretos e outros não; e
  3. Aprender a argumentar corretamente.

Os seres humanos erram. E não erram apenas no que respeita à informação de que dispõem. Erram também ao pensar sobre a informação de que dispõem, ao retirar consequências dessa informação, ao usar essa informação na argumentação.

Muitos argumentos incorretos não são enganadores: são obviamente incorretos. Mas alguns argumentos incorretos parecem corretos. Por exemplo, muitas pessoas sem formação lógica aceitariam o seguinte argumento:

Tem de haver uma causa para todas as coisas porque todas as coisas têm uma causa.

Contudo, este argumento é incorreto. A Lógica ajuda-nos a compreender por que razão este argumento é incorreto, apesar de parecer correto.

Chama-se «válido» a um argumento correto e «inválido» a um argumento incorreto. Do ponto de vista estritamente lógico não há qualquer distinção entre:

  1. argumentos inválidos e enganadores porque parecem válidos, e
  2. argumentos inválidos e não enganadores porque não parecem válidos.

Mas esta distinção é importante, e por isso alguns autores reservam o termo «falácia» para os argumentos inválidos que parecem válidos. Distingue-se por vezes falácias de sofismas, havendo no segundo caso intenção de enganar. Mas esta distinção é irrelevante para a compreensão da argumentação.

Como é evidente, são as falácias particularmente perigosas. Os argumentos cuja invalidade é evidente não são enganadores e se todos os argumentos inválidos fossem assim, não seria necessário estudar lógica para saber evitar erros de argumentação.

Há muitos aspectos da argumentação não estudados pela lógica, por exemplo, alguns aspectos psicológicos. Algumas pessoas aceitam argumentos inválidos pensando que são válidos, outras, recusam argumentos válidos pensando que são inválidos. Há vários tipos de fatores que explicam estas atitudes: psicológicos, sociológicos, históricos, patológicos, etc. A lógica não estuda estes aspectos da argumentação. Eles são estudados pela Psicologia, Sociologia, História e Psiquiatria.

A Lógica também não estuda o que as pessoas aceitam como argumentação válida, tal como a história não estuda o que as pessoas pensam sobre o passado. A história estuda o próprio passado e não o que as pessoas pensam dele, se bem que tenha em conta o que as pessoas pensam do passado — nomeadamente para determinar se o que as pessoas pensam do passado é ou não verdadeiro.

Do mesmo modo, a Lógica não estuda o que as pessoas aceitam como argumentação válida, mas a própria argumentação válida. Isso embora leve em conta o que as pessoas aceitam como argumentação válida — nomeadamente para determinar se o que as pessoas aceitam como argumentação válida é ou não efetivamente argumentação válida.

«Argumento», «inferência», e «raciocínio» são termos praticamente equivalentes.

  • Fazer uma inferência é apresentar um argumento.
  • Raciocinar é retirar conclusões a partir de premissas.
  • Pensar é em grande parte raciocinar.

Um argumento é um conjunto de afirmaçõesde tal forma organizadas de modo pretender uma delas, a que se chama «conclusão», seja apoiada pelas outras, a que se chamam «premissas». Um argumento só pode ter uma conclusão, mas pode ter várias premissas.

O que se pretende em um argumento válido é as suas premissas estarem de tal forma organizadas para «arrastarem» consigo a conclusão. Uma boa analogia é pensar nas premissas e na conclusão como elos de uma corrente.

  1. Se o argumento for válido, «puxamos» pelas premissas e a conclusão vem «agarrada» a elas.
  2. Se for inválido, «puxamos» pelas premissas, mas a conclusão não vem «agarrada» a elas.

Sem isca válida, não se pesca o peixe…

Nem sempre é fácil determinar em um dado argumento:

  • qual é a conclusão e
  • quais são as premissas.

Mas as separaré o primeiro passo para o argumento poder ser discutido. Chama-se «representação canónica» a esta maneira de representar os argumentos, separando claramente cada uma das premissas da conclusão.

Só assim se torna claro:

  1. quais são as premissas e
  2. qual é a conclusão.

Esta forma de representar argumentos é já fruto do trabalho de análise de argumentos. Reformular argumentos, apresentando-os na sua forma canónica, é um exercício imprescindível no estudo da Lógica.

O objetivo do estudo da Lógica é desenvolver as seguintes capacidades, face a um ensaio filosófico ou outro:

  1. Identificar a conclusão ou conclusão principal;
  2. Identificar as premissas, incluindo eventuais premissas implícitas;
  3. Distinguir diferentes argumentos, explícitos ou aludidos, apresentados pelo ensaio.

Estas capacidades permitem discutir as ideias e adotar uma posição crítica. Sem ela, resta a paráfrase e o monólogo sem rumo, habitualmente chamado de «comentário de texto» e «problematização».

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