Sistema de Pagamentos: Interações entre Componentes de um Sistema Complexo

Tenho uma hipótese a ser testada. Somos partes de um sistema econômico complexo onde no passado as trocas eram feitas à base de tempo de trabalho empregado na produção de mercadorias. Hoje, as interconexões são feitas por um sistema de pagamentos eletrônicos, onde se atribui cada valor de mercado à base das diversas subjetividades dos participantes do mercado.

Nossas interações são para trocar ativos, isto é, formas de manutenção de riqueza, principalmente financeira, desde haveres monetários plenamente líquidos até os não-monetários com rendimentos de juros. As precificações são voláteis, porque especulativas a respeito de qual valor barato pagar no presente para viabilizar um acréscimo de margem de lucro e consequente ganho de capital com sua venda no futuro por um valor mais caro. A velha “regra de ouro do comércio” deixou de ser à base da teoria do valor-trabalho. O custo de vida é inflado com as diversas taxas além do socialmente justo por causa do grau de oligopólio deste mercado.

A economia contemporânea é um sistema complexo emergente dessas interações em um mundo quando o trabalho é dispensado. Ele é substituído por máquinas robóticas. O problema essencial é este — e não a mal-amada (e superficial) “financeirização”.

Estamos interconectados sim por um sistema de pagamentos digital, eletrônico ou virtual. O problema complexo é a precificação ou o poder de mercado para apreçamento dos ativos, bens e serviços desmaterializados.

Flávia Furlan (Valor, 18/10/18) informa: a empresa de tecnologia de meios de pagamentos alemã, a SumUp desembarcou no Brasil em 2013 com três funcionários. Suas “maquininhas” só aceitavam cartões com tarja magnética e a ambição era de conquistar uma fatia de um mercado até então dominado por duas credenciadoras, a Cielo, controlada por Bradesco e Banco do Brasil, e a Rede, do Itaú.

Ao se deparar logo de cara com dificuldades para driblar a concorrência – muito pela presença de grandes bancos em toda a cadeia -, a saída foi mudar a estratégia e passar a oferecer soluções para um segmento mal atendido: o do pequeno empreendedor.

“Decidimos atuar em um nicho fora do radar das gigantes”, conta Carlos Grieco, diretor de marketing da SumUp. Cinco anos depois, os resultados mostram que a mudança foi acertada. Hoje, a empresa ocupa seis andares de um prédio em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, conta com 600 funcionários e tem vendido em média 50 mil maquininhas por mês.

O curioso nesse caso é a SumUp estar em um grupo, segundo especialistas, competitivo a ponto de obrigar as grandes empresas a sair da zona de conforto: o das “subcredenciadoras”. Essas empresas atuam na oferta de soluções de pagamento, em geral, para pequenos comerciantes, usando os sistemas das credenciadoras, mediante o pagamento de uma taxa.

Geralmente, essas empresas surgem como “fintechs” e podem chegar a valer bilhões de dólares, passando a concorrer diretamente com as credenciadoras. Esse foi o caminho trilhado, por exemplo, pela PagSeguro. Ela fez a maior oferta pública de ações (IPO) de uma empresa brasileira nos Estados Unidos e hoje tem valor de mercado de US$ 9,5 bilhões.

Na esperança de se tornar a próxima PagSeguro, esse mercado de subcredenciadoras não para de crescer, chamando a atenção de potenciais investidores. O Banco Central estima em mais de 200 essas empresas no país, que movimentam cerca de R$ 30 bilhões por ano em suas soluções de pagamento. Ainda é uma fatia ínfima, considerando que o mercado de cartões no país movimenta R$ 1,3 trilhão ao ano, com a maior parte desse volume passando nos sistemas das grandes credenciadoras – Cielo, Rede e GetNet (do Santander) concentram cerca de 85% do total.

Além da SumUp, que tem entre seus investidores a American Express, o Groupon e o BBVA Ventures, outra que desponta no segmento é o Mercado Pago, uma empresa do Mercado Livre. Segundo um relatório do J.P. Morgan, o Mercado Pago tem vendido aproximadamente 100 mil maquininhas por mês.

Há ainda subcredenciadoras criadas para atender grupos específicos, como salões de beleza. E outras para complementar negócios de empresas que até então atuavam de outra forma com os varejistas. É o caso da Linx Pay, planejada para ser lançada hoje pela empresa de tecnologia para o varejo Linx.

Existem também empresas que optaram por pular a fase das maquininhas e ir direto para o celular. Um exemplo é a Avante, fintech que oferece um aplicativo para o varejista ou profissional liberal receber pagamentos em débito e crédito escaneando o cartão do cliente pela câmera do celular. Os valores vão direto para a conta do empreendedor. “Conseguimos 80 clientes por dia em média no aplicativo, mas queremos 1 milhão ativos até 2021, usando o aplicativo para aceitar cartão e outros produtos que teremos disponíveis”, diz Davi Viana, sócio da Avante.

As subcredenciadoras buscam conquistar um público negligenciado pelas grandes empresas do setor, entre eles os pequenos varejistas ou profissionais liberais. Estima-se um potencial de até 30 milhões de clientes no Brasil com esse perfil [⅓ da população ocupada?!].

No caso da PagSeguro, os números mostram: cerca de 80% dos novos clientes nunca haviam aceitado cartões antes. “A companhia não enxerga esse mercado com apenas um competidor para atingir os clientes. Na verdade, a PagSeguro vê espaço para dois ou três competidores com sucesso”, escreve o J.P. Morgan.

Como miram os pequenos varejistas, as subcredenciadoras começaram com um modelo de venda de maquininhas, e não de aluguel mensal, forçando as grandes companhias a seguir esse caminho. Até então, quem vendia colocava um preço impeditivo, para forçar o aluguel, de olho em uma fonte de receita garantida, segundo especialistas.

Um sinal do aumento da concorrência é estar demorando mais para os equipamentos comprados pelos varejistas serem entregues. Hoje, o tempo médio de entrega vai de 45 a 60 dias, ante 15 dias há um ano.

As subcredenciadoras também têm conseguido oferecer taxas de desconto, aquelas cobradas como percentual das vendas, e cobrar taxas para antecipação de recebíveis aos pequenos varejistas menores do que as cobradas pelas grandes credenciadoras para esse mesmo público.

A competição está tão acirrada a ponto de, no início deste ano, essas fintechs começarem a oferecer taxas de 1%, tanto no débito quanto no crédito à vista, nos três primeiros meses para novos clientes, movimento seguido pelos concorrentes de maior porte.

Levantamento da consultoria Boanerges & Cia. mostra a taxa de desconto média das credenciadoras é de 2,6% no crédito e de 1,5% no débito. Para as subcredenciadoras, elas ficam em 4,25% no crédito e 2,2% no débito. Pode parecer que elas cobram mais, mas as grandes costumam jogar a taxa para baixo nos varejistas maiores, o que torna sua média bem menor.

A SumUp concentra sua atuação no segmento de pequenos empreendedores capazes de faturarem de R$ 2 mil a R$ 4 mil por mês. Encabeçou o movimento de reduzir as taxas a 1%. Uma das apostas da empresa é na transparência nas taxas cobradas, com uma tabela valendo para todos os clientes. Não há uma negociação caso a caso, prática comum nas grandes credenciadoras ligadas a bancos.

“Deixamos claro quanto custa o serviço, e o valor cobrado é igual para todos os clientes”, afirma Grieco. A SumUp ainda faz a antecipação dos recebíveis para os clientes no prazo de um dia útil no crédito ou débito.

E mesmo com uma participação ainda pequena do mercado, essas empresas têm reforçado o orçamento de marketing para campanhas em TV, rádio, jornais e revistas do país. Só no primeiro semestre deste ano, as empresas de meios de pagamento gastaram R$ 450 milhões em marketing.

De acordo com o diretor do Mercado Pago no Brasil, as subcredenciadoras são competitivas “pelo posicionamento agressivo de mercado e estrutura de custo mais enxuta”. Pelas regras do BC, o Mercado Pago não é um subcredenciadora, e sim um arranjo fechado de pagamento porque tem interoperabilidade com as bandeiras. No entanto, a empresa compete diretamente no mercado porque tem maquininhas. A proposta é oferecer uma conta de pagamento, onde o cliente pode liquidar os valores das vendas físicas e on-line e usá-los para pagar contas ou fazer compras.

Quando as subcredenciadoras crescerem, elas podem se tornar credenciadoras, negociando diretamente com as bandeiras e bancos emissores e respondendo diretamente ao BC. “Essa é uma decisão estratégica de cada empresa”, diz Pedro Coutinho, vice-presidente da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), que também preside a adquirente GetNet.

Foi o caminho seguido por PagSeguro. Por isso, ela chamou a atenção para esse mercado oligopolizado e extorsivo para os comerciantes e ainda mais para os consumidores: pagam preço à vista como fosse preço a prazo com o repasse de todas as taxas da cadeia do sistema de pagamentos.

Cada banco gigante possui seu nicho de mercado, recebendo foco especial, mas todos exploram os milhões de cartões de crédito e débito com os quais ganham taxas de desconto nas vendas de varejo e exploram o crédito rotativo. Quanto às Receitas de Prestação de Serviços (RPS), o caso do Itaú em 2017 ilustra bem sua importância: R$ 32,885 bilhões. As principais atividades das quais são oriundas se referem aos cartões de crédito: 38%.

2 thoughts on “Sistema de Pagamentos: Interações entre Componentes de um Sistema Complexo

  1. Olá Professor,
    Acompanho suas críticas à literatura sobre a financeirização e gostaria de pedir um comentário, se possível.
    O senhor adere ao paradigma da complexidade para explicar os movimentos da economia, que acho bem interessante.
    No entanto, não me parece haver ainda densidade nas análises que usam este paradigma nos estudos históricos, os econômicos em particular. É um paradigma bastante avançado nas ciências naturais, mas embrionário nas sociais, e parece-me que o foco deste paradigma ainda se encontra na sua sustentação teórica e em exemplos anedóticos. Como acompanho pouco essa literatura, posso estar ignorante ou equivocado, mas exponho minha impressão leiga.
    Dito isso, não fica claro para mim de que modo a evolução da interação entre componentes explica a mudança de pensamento que ocorreu a partir da década de ~1970, com (i) a primazia do valor do acionista sobre outras formas de distribuição dos resultados, (ii) a crescente discrepância entre as remunerações dentro da firma e (iii) o enfraquecimento dos sindicatos, por exemplo, dentre outras mudanças, muitas delas comportamentais. Em resumo, pelo maior pensamento de curto prazo nas interações entre agentes.
    Como explicar essa mudança nos motivos dos agentes por meio da complexidade?
    Agradeço a atenção.

    • Prezado Vitor,
      a pergunta é boa e mereceria reflexão e resposta mais profundas. Entretanto, como responderei ligeiramente, de “bate-e-pronto”, eu começaria a pesquisa com uma visão holística verificando as interações entre as três forças citadas por ti: acionistas X gerentes X sindicatos. Venceu a aliança entre os dois primeiros contra os terceiros. Era (e é) situação de crise de desemprego tecnológico e menor poder de barganha dos sindicatos e contexto de desregulamentação e/ou “flexibilização do mercado de trabalho” pelas reformas trabalhistas neoliberais.

      Quanto às mudanças de comportamentos, a análise da economia como um dos componentes de um sistema complexo se faz em distintos níveis ou escalas. O importante é deixar sempre claro, para o leitor ou o ouvinte, seu foco a cada passo. Não se parte de fundamentos microeconômicos como determinantes da macroeconomia, típico do individualismo metodológico, e nem vice-versa: o contexto ou o coletivo condicionando inexoravelmente o comportamento do agente. Este acha raio-de-manobra para reagir, inovar, adequar-se ou provocar uma ruptura. Interage com outros e com instituições passíveis de alterações. Ao analisar todas as redes de relacionamentos, o analista percebe os elos mais fortes pelas influências de suas interconexões — e aí foca nelas.

      Concordo ser ainda um método de pesquisa embrionário até por conta de seu caráter transdisciplinar com pretensão de integrar, coerente e consistentemente, métodos de pesquisa e insights de diversas áreas de conhecimento. É necessário esforço de colaboração de pesquisadores dispostos a trocar conhecimentos, indo além de suas especializações, seja em Ciências Naturais, seja em Ciências Sociais, ou mesmo Ciências Exatas e Ciências Humanos.

      Conto com sua colaboração! Se quiser sugestão de leituras, veja em: https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2015/08/06/economia-interdisciplinar/
      att.

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