Reflexividade

Anthony Giddens e Philip W. Sutton, no livro Conceitos Essenciais da Sociologia(tradução Claudia Freire. – 1. ed. – São Paulo: Editora Unesp Digital, 2017), acham a definição prática de reflexividade dizer respeito à caracterização da relação entre conhecimento e sociedade e/ou pesquisador e sujeito, focando na reflexão contínua dos atores sociais em si mesmos e seu contexto social.

A reflexividade está ligada às ideias de reflexão ou autorreflexão e, portanto, tem uma história muito longa. Contudo, sua aplicação nas ciências sociais remonta às ideias de sobre o eu social[social self], à abordagem construcionista social e a alguns trabalhos antigos sobre profecias autorrealizáveis e autoderrotistas.

Alguns autores rejeitavam a ideia de o eu individual ser inato. Em vez disso, argumentavam o eu [self] ser criado por meio da interação social com outros, pois as pessoas passam a ver a si mesmas da forma como os outros as veem. Segundo essa teoria, essa interação contínua entre o organismo humano biológico e o ambiente social de outras pessoas produz um eu de duas partes consistindo de:

  1. um “eu” [“I”] e
  2. um “mim” [“me”].

Ambos vivem em constante diálogo interno com o indivíduo. Essa reflexividade individual se constitui no pano de fundo da interação social genuína.

Entretanto, a reflexividade individual e social se tornou mais central para a teoria social a partir do final do século XX. Outras ideias teóricas ampliaram o conceito de reflexividade do nível individual para o social, enquanto uma ênfase renovada nos métodos de pesquisa qualitativos atraiu atenção para a natureza fundamentalmente reflexiva da vida social per se. A existência da reflexividade individual e social fatalmente acabou com qualquer vestígio de positivismo na Sociologia.

Há uma distinção básica entre duas abordagens de pesquisa:

  1. umas buscam o conhecimento profundo explorando o raciocínio e os processos de tomada de decisão (qualitativas) e
  2. outras fazem vasto uso de medidas para quantificar os fenômenos sociais (quantitativas).

Para a tradição interacionista simbólica como um todo, o processo de construção do “eu” [self] torna os seres humanos “reflexivos” – ativamente engajados na vida social e, ao mesmo tempo, capazes de refletir sobre ela. A reflexividade individual significa agentes humanos ativos conseguirem surpreender as previsões dos cientistas sobre como irão ou deveriam se comportar. Demonstra ainda aquela coisa chamada “sociedade” ser uma contínua construção social e não uma entidade fixa, objetiva, desvinculada dos indivíduos.

As profecias autorrealizáveis também ilustram algumas das consequências da reflexividade. Por exemplo, boatos de problemas em um banco solidamente seguro podem fazer os investidores se apressarem para sacar seu dinheiro. Isto, por sua vez, concretiza a falsa profecia levando o banco a de fato ter problemas.

Conhecimento e informação de todos os tipos têm o poder de:

  1. alterar os processos de tomada de decisões das pessoas e
  2. conduzir a ações imprevisíveis.

A reflexividade é um conceito-chave de compreensão das sociedades contemporâneas. A modernidade “tardia” é um contexto social “destradicionalizado”, quando os indivíduos são isolados da estrutura social e, em consequência, forçados a serem continuamente reflexivos em relação à própria vida e identidade.

Essa forma emergente de sociedade é denominada de “modernização reflexiva”, “segunda modernidade” ou “sociedade de risco” além da forma industrial. As consequências dessa reflexividade intensificada para a prática da pesquisa são supostamente profundas.

As descobertas da pesquisa sociológica se tornam parte da reserva de conhecimento da sociedade. Esse conhecimento é retido pelos indivíduos e sustenta sua tomada de decisões. O tipo de efeito recursivoevidente nas profecias autorrealizáveis e autoderrotistas se torna parte integrante da vida social como tal.

Dessa forma, uma abordagem meramente positivista baseada no estudo objetivo do mundo externo “lá fora” [“o que é”] parece equivocada, na medida em que a lacuna entre pesquisador e sujeito da pesquisa é erodida se ele se move para inovar em normas [“o que deveria ser”].

Da mesma maneira, os métodos adotados por sociólogos precisam refletir isso, o que pode ser o motivo pelo qual os métodos qualitativos como pesquisa biográfica, história oral e inclusão da biografia do próprio pesquisador no processo de pesquisa cresçam em popularidade. O conceito de reflexividade se tornou fundamental para a criação de teorias sociais e para os métodos de pesquisa sociológica, enfatizando as inevitáveis conexões entre ambos.

A teoria de modernização reflexiva e a intensificação da individualização pressuposta por ela ficam sujeitas a críticas em bases empíricas. Embora algumas mudanças sociais descritas pela teoria sejam incontestáveis – a diversificação da vida em família, mudanças nas taxas de casamentos e divórcios, por exemplo –, a ideia de a sociedade industrial ter viabilizado uma nova forma de modernidade reflexiva é polêmica.

Administrar riscosrealmente se tornou o novo princípio de organização das sociedades contemporâneas? Os processos de produção industrial agora estão em escopo global, com a maior parte da manufatura ocorrendo em países em desenvolvimento. Então, é contestável a visão de o capitalismo industrial continuar sendo a melhor caracterização das sociedades hoje.

A tese de individualização e maior reflexividade também pode ser exagerada. Ainda que as pessoas talvez não se identifiquem conscientemente com uma classe social, por exemplo, de forma muito parecida como ocorria na primeira metade do século XX, não é certo afirmar sua vida e as oportunidades de vida não serem mais influenciadas por posicionamento de classe. De fato, houve uma forte reação contra a tese de individualização na medida em que os sociólogos demonstraram a contínua proeminência da classe.

A adoção da reflexividade na pesquisa sociológica também foi recebida de formas diferentes. Para alguns, o ímpeto de incluir a biografia do próprio pesquisador no processo de pesquisa pode facilmente levar a desvios para autocomplacência e descrições irrelevantes de detalhes pessoais.

Além disso, o foco na reflexividade pode conduzir a um processo interminável de reflexão sobre reflexão e interpretação sobre interpretação. Isso traz o risco de paralisar os pesquisadores pegos em uma prática própria em detrimento da verdadeira tarefa da Sociologia, ou seja, produzir conhecimento válido e confiável da vida social a fim de compreendê-la e explicá-la melhor.

Também não fica claro como a prática da pesquisa reflexiva poderia ser aplicada às pesquisas sociais. Qual seria a atitude em larga escala ainda necessária se quisermos descobrir os padrões e as regularidades constituintes da base das sociedades?

Métodos de pesquisa mais reflexivos não necessariamente endossam a teoria de modernização reflexiva ou a tese de destradicionalização. Para muitos pesquisadores, a reflexividade é apenas parte da forma como eles abordam a tarefa de estudar a sociedade, forma esta que os ajuda a se conscientizarem melhor de suas próprias inclinações e pressuposições teóricas. Sem dúvida, uma dose de reflexividade pode ser muito saudável para pesquisadores sem costume de refletir sobre seus arraigados hábitos e práticas.

Vale ter uma ideia sobre o significado para um pesquisador levar a si mesmo para o processo de pesquisa. Contudo, nem todos os sociólogos são a favor de pesquisadores dispondo de detalhes pessoais e biográficos como parte de seus estudos, o que pode parecer autocomplacente e talvez irrelevante. Entretanto, atualmente, pesquisadores mais novos estão procurando cada vez mais incluir a reflexividade em seus projetos de pesquisa.

É positiva a reflexão explícita sobre o parti pris por parte de cada autor.  O leitor identificará e entenderá mais a posição, atitude, opinião ou opção decidida ou assumida antecipada ou preconcebidamente. E reagirá com prevenção a respeito com a necessária cautela de evitar a Falácia Genética: quando um argumento é desvalorizado ou defendido não por seu mérito, mas somente por causa da origem do pensamento da pessoa a defende-lo.

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