Levantando, Sacudindo a Poeira e Dando a Volta por Cima

Uma maneira de sublimar a perda, fato comum na vida, mas uma sensação emocional muito difícil, é pensar mais racionalmente a respeito das derrotas. No caso atual, a eleitoral. Necessitamos sair do lugar-comum para racionalizar.

Quais são os comentários mais encontrados sobre a eleição de 2018?

Houve uma série de fatores determinantes, fora a perseguição e o aprisionamento do favorito (Lula) antes da campanha.

Houve o uso massivo de “fake-news, kit-gay, incesto, e bobagens do tipo apropriado para gente ignorante em busca de uma desculpa por acreditar na “demonização do PT corrupto” no Sul-Sudeste-Centro-Oeste, tudo financiado por caixa-2 de empresas.

Houve o acaso: a facada capaz de colocar o capitão semialfabetizado em destaque na mídia tradicional, recuar a contrapropaganda no primeiro turno e justificar a ausência em debates no segundo turno.

Houve a tática inédita dos adversários: o voto-útil da direita já no primeiro turno (46%), face à ameaça de vitória do PT.

Tem cientista político, como Wanderley Guilherme dos Santos (WGS), lembrando ter avaliado antes: a esquerda não ganharia a eleição com o PT à frente. Caso ganhasse, essa previsão seria esquecida. Como a esquerda perdeu, ela vira diagnóstico de “engenheiro de obra-feita”, tipo “eu não disse?”.

O equívoco dessa análise típica dos eleitores do Ciro Gomes é apelar para o argumento de “o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva assustava a direita”. Ora, assustava-a e atraía os votos populares no Nordeste. Dificilmente Haddad os herdaria sem se identificar como o substituto indicado por Lula.  O Nordeste tem 39,2 milhões de eleitores ou 26,6% do total brasileiro. Em toda a região, em Alagoas Haddad obteve o menor percentual de votos com 60% e teve o maior (77%) no Piauí, onde o governador é petista.

Para comparação, ele recebeu 32% dos votos paulistas, porém, o maior número absoluto: 7,2 milhões dos seus 47 milhões. Somando mais 4,4 milhões em Minas Gerais (42%) e 2,7 milhões no estado do Rio (32%), percebe-se o discurso petista necessita ser adequado ao perfil de emergentes dos eleitores desses estados do Sudeste.

A boa avaliação dos governos do PT na Bahia, historicamente com finanças públicas muito mais reguladas se comparadas às dos demais estados, permitiu ele receber lá 5,5 milhões de votos (73%). Devido também ao reeleito governo petista no Ceará, lá obteve 3,4 milhões de votos (71%). Então, é necessário pensar uma estratégia correta para a esquerda não ficar restrita ao Nordeste e avançar muito além de cerca de ⅓ dos eleitores nos estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Pior foi em Santa Catarina, onde só recebeu 24% do total de votos locais.

Não basta acusar os 57,8 milhões de eleitores na extrema-direita terem votado sob a influência de neofascistas – e nada fazer quanto a isso. Da mesma forma, os eleitores de Ciro Gomes, nem ele, não devem ter “mágoa do PT” por este não ter “aberto mão” de ser o maior partido político brasileiro em termos de militância. Seria como “dar um tiro-no-pé”!

Ninguém garantiria a priori um candidato personalista da casta dos oligarcas regionais ter com 12,5% dos votos (13,5 milhões) a capacidade de, além desses eleitores, empolgar todos os petistas (29,3%) e mais 9% dos eleitores. Ele não sofreria o “antipetismo”, mas ele abraçaria a militância petista sem estar em uma chapa aliada? Por que ele não aceitou ser “o estepe de Lula”, como Haddad aceitou? Mancharia sua biografia política essa estratégia?

Também é ingênua a crítica ao discurso do golpe contra a Dilma e da perseguição política ao líder petista feita com prejulgamentos. Criticar a obsessão de se levar ao limite a defesa de sua liberdade como plataforma de campanha é não reconhecer a legitimidade dessas bandeiras de luta dos militantes lulistas. A lealdade ao maior líder popular da história brasileira é admirável se o culto à personalidade não implica em um desviacionismo político.

Aos 83 anos, WGS diz um “autogolpe” pode vir a ser evitado com uma frente, acima dos partidos, de modo a reunir esquerda e centro. Seria para proteger as instituições democráticas contra o chamado por ele de “governo de ocupação”. Ocorrerá se Bolsonaro transformar toda oposição em inimiga – e não uma adversária legítima.

Fascismo existirá se surgir uma organização paramilitar e toda a população passar a ser organizada sob uma hierarquia estabelecida, dotada de uma estratégia de ação coordenada com base na violência.  Isto ainda não existe no Brasil porque as milícias são informais, atuantes só em periferias, sem se subordinarem ao Bolsonaro.

O que vê̂ em curso, diz WGS, é “um ataque à democracia pela própria democracia”. Um governo reacionário é uma possibilidade democrática, quando há alternância de poder devido à eleição.

A pergunta-chave é: por que 55% do total de eleitores brasileiros preferiram uma ordem hierárquica, autoritária e conservadora em costumes? Para respondê-la, temos de ir além dos citados fatos conjunturais e fortuitos, mas evitando o Viés Retrospectivo: um fenômeno do tipo “eu sempre soube disso”, porque do ponto de vista retrospectivo tudo parece ter uma clara consequência necessária.

A mente humana possui o Viés de História: organizar o caos de detalhes eventuais, em nossa vida, como fosse uma história com fio-condutor de modo a entender – e seguir. O risco é incorrer no Viés de Resultado ou na Falácia do Historiador: a tendência humana de avaliar decisões com base no resultado — e não com base no processo anterior à decisão. “Profecia reversa” é julgar o processo a partir da linha-de-chegada.

Vamos rever as flutuações na nossa história sob a ordem das castas de natureza ocupacional. Grosso modo, sugerimos uma periodização em termos de suas alianças:

  • 1500-1822: domínio da aristocracia governante do Império português em aliança com guerreiros e sábios-sacerdotes;
  • 1822-1888: golpe militar-monárquico na Constituinte de 1923 e domínio da aristocracia governante do Império brasileiro em aliança com guerreiros-militares e comerciantes de escravos;
  • 1889-1929: golpe militar-republicano (“Proclamação da Republica”) e domínio dos oligarcas governantes regionais e dos comerciantes primário-exportadores e importadores de bens industriais;
  • 1930-1963: golpe militar (“Revolução de 30”) e domínio dos guerreiros-militares nacionalistas em aliança com sábios-tecnocratas nacional-desenvolvimentistas e comerciantes-industriais;
  • 1964-1984: golpe militar (“Revolução de 64”) e domínio dos guerreiros-militares autoritários e desenvolvimentistas em aliança com sábios-tecnocratas liberais e comerciantes-industriais conservadores;
  • 1985-1987: eleição indireta de oligarcas regionais (Tancredo e Sarney) e, como fruto da emergência da casta dos sábios-universitários, breve domínio de sábios-tecnocratas desenvolvimentistas;
  • 1988-2002: domínio de sábios-tecnocratas neoliberais em aliança com comerciantes-financistas, inicialmente eleito um representante da casta dos oligarcas governantes regionais (Collor), depois do impeachment/golpe eleito um da casta dos sábios-universitários (FHC);
  • 2003-2014: aliança de trabalhadores organizados com sábios-tecnocratas social-desenvolvimentistas e comerciantes-industriais;
  • 2015-2018: golpe de comerciantes-exportadores e financistas com apoio de sábios-sacerdotes jornalistas e juristas contra a aliança de trabalhadores organizados com sábios-tecnocratas liberais, até a eleição de um representante da casta dos militares.

Na realidade, a aliança entre a casta dos militares e a casta dos sábios-sacerdotes (antes a Igreja Católica e agora a Evangélica) é comum na história brasileira desde a colonização portuguesa. Novidade histórica foi a aliança entre a casta dos trabalhadores organizados (Lula) – sindicatos surgem depois de 1917 – e a casta dos sábios-universitários (Haddad) – a massificação dos universitários ocorre após 1970. Esta é a socialdemocracia europeia. Aqui chamamos social-desenvolvimentismo.

Dada esta tradição, a cultura da sociedade brasileira se formou entre a ordem unida militar e a ordem religiosa subordinada ao sobrenatural. Existiam duas alternativas disponíveis. Se não fosse o primogênito herdeiro dos clãs dinásticos, ir para o Exército ou para a Igreja: ser padre no caso masculino, casar ou ser beata no caso feminino.

Face ao avaliado como “desordem”, isto é, a liberdade de dispor do próprio corpo para o sexo e o aborto, sem discriminação de gêneros, homofobia ou racismo, 55% dos eleitores preferiram a tradicional ordem hierárquica, autoritária e conservadora em costumes.

O resultado eleitoral de 2018 não foi totalmente mau, em termos da história da esquerda brasileira, porque:

  1. renovou suas lideranças com a geração Haddad-Manuela-Boulos (PT-PCdoB-PSOL) fazendo a transição da velha geração 68 com 50 anos de rebeldia para a aprendizagem de viver sem o lulismo;
  2. o PT no Nordeste demostrou a importância de ampla aliança com os demais partidos de esquerda (PSB e PDT além dos citados);
  3. o feminismo se tornou a liderança mais expressiva ao sair “das casas para as ruas”.
  4. o uso massivo da rede social (“uotzap” e “feicebuque”, sic) mostrou ser uma necessidade porque tem uma abrangência muito superior ao tradicional grito-de-luta da esquerda: “vamos ocupar as ruas!” Onde? Na Avenida Paulista e Cinelândia? E o interior do País onde fica?
  5. 45% do eleitorado ou 47 milhões de votos e mais uma bancada razoável no Congresso Nacional para a luta de resistência contra a onda conservadora não é desprezível.

Obs.: publicado também em https://jornalggn.com.br/noticia/levantando-sacudindo-a-poeira-e-dando-a-volta-por-cima-por-fernando-nogueira-da-costa

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