Escola Sem Partido: Agravamento do Problema da Ignorância dos Brasileiros

Ingrid Fagundez (BBC News apud FSP, 05/11/18) publicou uma reportagem sobre a pressão da “nova direita” brasileira, predominantemente evangélica e estúpida — por provocar emburrecimento ao não ser inteligente e estudar ciência –, sobre os professores.

Os princípios do projeto e do movimento Escola sem Partido insistem na defesa do direito dos pais sobre o ensino dos filhos. Se é para eles permanecerem com a educação moralista, de acordo com as próprias convicções familiares, é melhor não irem à escola e ficarem no nível autossuficiente da ignorância doméstica.

Não sabem distinguir o espaço doméstico do lugar público. O primeiro pode ser religioso, escolhendo um dos diversos deuses para adorar, ou então ateu, quando não crê seja em um único deus, seja nos muitos deuses de todas as religiões, mas o segundo constitucionalmente é laico e plural, justamente, para a convivência tolerante com ideias distintas. O conhecimento tem de ser plural e não censurado em temas-tabus para a direita burra. Senão, a ignorância dela predominará e atrasará ainda mais o desenvolvimento sociocultural do País.

O discurso de que professores devem repassar apenas o conteúdo aprovado pelas famílias é recorrente entre os apoiadores do movimento. Outro ponto forte é o de que deve haver espaço igual para visões opostas sobre todos os temas — em teoria, seria possível criticar, mas também necessário listar as vantagens do capitalismo, por exemplo.

Ora, em ensino científico de excelência é recorrente ver todos os lados de uma questão. Porém, pelo nível de ignorância e intolerância demonstrado, os líderes desse movimento demonstram nunca terem estudado em boas escolas.

O Escola sem Partido culmina um amplo processo de transformação do papel da escola, diz a professora da Faculdade de Educação da USP Maria Isabel de Almeida.

Incentivado por interesses de grupos educacionais, e de alcance global, tal processo “de mercantilização da educação” desejaria tornar a escola um lugar de transferência de conhecimento, onde o professor é o fornecedor e o aluno, o cliente, deixando de lado sua função de formação do cidadão.

No Brasil, esse processo se aliaria a uma onda conservadora. Ela quer restringir discussões sobre sexualidade, gênero e raça na sala de aula.

“Estamos perdendo há décadas conceitos-chaves do processo educativo. São substituídos por temas do mundo empresarial. As competências para o trabalho substituem uma formação crítica. Não é à toa que o Escola sem Partido demoniza Paulo Freire”, diz Almeida, citando o célebre educador brasileiro. Freire criou um pensamento pedagógico assumidamente político. Para ele, o maior objetivo da educação é conscientizar o aluno.

Como outros elementos dessa tendência mercantilista, a professora cita as propostas de reestruturação da educação como a reforma do ensino médio, aprovada em 2017. Sua aplicação depende da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), ainda em elaboração.

Entre as principais mudanças da lei está o maior peso do ensino técnico e profissionalizante. Em vez de educar para o aluno integrar a casta dos sábios, oferece treinamento para ser membro da casta dos trabalhadores, a ser explorado pela casta dos mercadores.

A reforma foi criticada por não detalhar as matérias das áreas de Ciências Humanas e Sociais. Na versão original da Medida Provisória, apresentada pelo presidente Michel Temer em 2016, apenas Matemática e Português eram obrigatórias. Cultura? No Brasil?! Para que?!!! 🙂

Inserido em (e fruto de) um ambiente de reação a mudanças sociais, culturais e políticas, o Escola sem Partido também é muito influenciado pela religião, afirma o professor da Faculdade de Educação da UFRJ Luiz Antônio Cunha.

Ele diz que, apesar de não defender fé alguma em suas propostas, as inspirações do movimento são de caráter religioso.

Segundo Cunha, o objetivo do Escola sem Partido seria o mesmo de grupos cristãos: salvar a instituição familiar de um suposto processo de degeneração. Ambos partiriam da mesma concepção, a de que o mundo está se corrompendo, prejudicando a família.

Para provar essa conexão, Cunha argumenta, basta notar que as bancadas católica e evangélica sustentam o movimento nas votações no Congresso.

Em seu raciocínio haveria, sim, posições políticas no Escola sem Partido. Imagina a escola com doutrinação evangélica como fosse em um templo. Ou católica como estivesse em uma igreja?

“A Escola Sem Partido toma partido ao apresentar a Teoria da Evolução no mesmo plano do criacionismo, como se fossem distintas interpretações da mesma questão. Não são duas possibilidades de interpretação da mesma coisa, portanto toma partido. Da mesma maneira como não tratar 1964 como golpe ou apresentar a atividade missionária no Brasil como evangelização dos índios e não mencionar que foi uma das maiores práticas de etnocídio que tivemos é tomar partido.”

O discurso do movimento, no entanto, é de que o aluno deve ter liberdade de religião e consciência — desde que estas sigam a escolha dos pais, em geral, muito ignorantes. No site do movimento, é citado o quarto ponto do artigo 12 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos: “Os pais, e quando for o caso os tutores, têm direito a que seus filhos ou pupilos recebam a educação religiosa e moral que esteja acorde com suas próprias convicções.”

Apesar de se declarar a favor a liberdade de consciência dos alunos, o fundador do grupo, Miguel Nagib, argumenta que, em sala de aula, não deve haver liberdade de expressão. De nenhum dos lados. Com a censura e o silêncio ele acha possível ensinar?!

Em entrevista à BBC News Brasil em 2016, ele explicou que, como a presença dos alunos na escola é obrigatória, se qualquer um manifestar sua opinião livremente, os demais serão obrigados a escutá-la. Nesse caso, tal manifestação poderia ofender a liberdade de consciência e crença dos demais. Ora, caso tenha bons argumentos, ele rebata as ponderações contrárias. Pense em vez de censurar as ideias provocadoras de pensamento!

“Sala de aula não é Facebook, onde cada um fala o que quer, a qualquer hora, sobre qualquer assunto”, ele disse.

Para Nagib, nem os estudantes devem expressar suas opiniões. Caberia ao professor impedir que “este ou aquele aluno” abuse da “audiência cativa” dos colegas para promover suas próprias opiniões políticas, religiosas ou artísticas.

A ideia de escola do advogado ignorante a respeito de Educação é oposta a dos críticos do Escola sem Partido. Para o professor da Faculdade de Educação da USP Ocimar Munhoz Alavarse, a escola seria “um espaço de proteção contra [as dificuldades e os debates a serem enfrentados] na vida”. Nela qualquer tema ou discussão seriam possíveis — um exercício que às vezes o cotidiano adulto não permite.

“A vida é dura, difícil. E as escolas protegem os alunos, inclusive para que critiquem o conhecimento escolar. É o espaço para isso. O conhecimento humano tem essa característica: é sempre passível de questionamento. Absoluta é a religião: Deus existe [para os religiosos, não para os ateus] e pronto. Agora, as outras coisas, não. Essa é a aventura do conhecimento. Alguns paradigmas caem, outros permanecem.”

De acordo com o professor, o Escola sem Partido não estaria preocupado com a escola brasileira, mas com calar críticas a valores que o movimento defende, como o capitalismo e o modelo tradicional de família.

“Essa legislação joga uma cortina de fumaça sobre os grandes problemas da educação no país: os estruturais, a falta de condições para os servidores trabalharem. Isso desaparece.”

A Constituição de 1988 também é constantemente citada por quem é contrário ao movimento de Nagib. Em seu artigo 206, a Carta Magna garante a “liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento”, além do “pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas”.

5 thoughts on “Escola Sem Partido: Agravamento do Problema da Ignorância dos Brasileiros

  1. O Escola sem Partido defende justamente o que já está previsto em nossa Constituição: o PLURALISMO de ideias. É se fazer cumprir que os professores ensinem Marx, mas também Adam Smith; lecionem sobre Comunismo, mas também sobre o Capitalismo. A doutrinação tem acontecido em salas de aula, e não são poucos os casos, seja no ensino fundamental, médio ou superior. Professores que comparam Che Guevara a Jesus Cristo, ovacionam Fidel Castro, e não expõem o genocídio cometido por eles ou apresentam figuras antagônicas com o mesmo “destaque”.

    • Prezado Jurandir,
      fale sério! Escolas e Universidades de excelência no ensino científico são plurais. Os críticos defensores da Escola Sem Partido são ignorantes desse tipo de ensino justamente porque não estudaram nelas.

      Em vez de cobrar melhores condições de ensino com titulações e avaliações periódicas da qualidade do ensino científico plural, para todas as escolas, eles cobram um raciocínio binário: se o professor ensina o darwinismo científico tem de ensinar o criacionismo religioso!

      Isso sim é doutrinação. Não entender o método científico de teste de hipóteses. Sua crença no sobrenatural não passa por nenhuma experimentação científica.

      Você está desinformado e repetindo doutrina repassada por fake news a respeito de escolas. Leia bons livros em vez de rede social.
      att.

  2. Quem acha que as universidades são plurais me avisa onde posso agendar e divulgar uma palestra sobre conservadorismo e não ser pilhado, perseguido e impedido de realizar tal palestra.

    Apresente um projeto de monografia que não reze a cartilha da predefinição do referencial bibliográfica silenciosamente pré estabelecida. Na sua infinita maioria os professores rejeitarão seu projeto.

    Foram muito infelizes no nome “escola sem partido” porque o que buscamos é uma escola de todos os partidos.

    • Prezado Haroldo,
      se você tiver todas as qualificações para proferir uma palestra científica sobre conservadorismo, e não uma propaganda doutrinária, será bem-vindo. Escreveu a respeito para os acadêmicos o avaliarem?

      Nunca presenciei nenhuma censura bibliográfica em 33 anos de vida acadêmica. Vejo sim a sugestão de uma bibliografia plural para testar as hipóteses.

      O nome correto para um movimento social pluralista seria Escola com Ciência, ou seja, consciente e praticante do método científico. E não do método empirista desinformado e com má fé dos adeptos da Escola sem Partido.
      att.

      • Olá Fernando.Eu também, tivesse sido criador desse movimento, não o chamaria “Escola Sem Partido”.

        Conheço a argumentação de todos que acreditam piamente que não há doutrinação e que, por décadas as universidades veem sendo instrumento de uma ideologização. E acredito na sinceridade do argumento de pessoas como o senhor, o qual vejo muito mais adequado aos métodos científicos, etc.

        Todos os jovens nascidos nos anos 90 e 2000 e que foram (segundo min ha observação) engolidos pela “escola com ideologia” também pensam assim e sem método científico.

        Enquanto eles e doutos como o senhor creem nisso, o mais velho e ardiloso articulador dessa ideologia, o qual se esgueira em todos os frontes dessa “batalha” desde os anos 60, diz o que está nesse vídeo abaixo, com o qual encerro minha resposta.

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