Escola Sem Sentido

Ilustração de Marta Mello para Fernanda Torres de 23.nov.2018.

Infelizmente, foi necessária a grande ameaça de retrocesso histórico à época do regime militar ditatorial, agora misturado com fundamentalismo evangélico retrógrado em costumes e intolerância, para os sábios criativos colocarem toda sua criatividade artística em defesa da democracia e contra o tempo obscuro. Até a Folha de S.Paulo está lenta, gradual e seguramente voltando aos tempos de combate à ditadura do Seu Frias.

Os cronistas progressistas estão cada vez melhores. Compartilho dois exemplos abaixo.

Nasce o projeto Escola sem Sentido

Para evitar doutrinação, colégios serão substituídos por igrejas evangélicas

Uma Notável Comissão de Homo Capensis liderada por Silas Malafaia, Tiririca, Joice Hasselmann, Luciano Hang, Ernesto Araújo e Eduardo Bolsonaro apresentou hoje uma evolução do projeto Escola sem Partido.

“Pedimos que os alunos não apontem mais os seus celulares para os professores. Apontem armas”, conclamou Eduardo Bolsonaro, enquanto desenhava uma caveira no quadro negro.

“O marxismo cultural se impregnou no globalismo e culminou no tropicalismo. Caetano, Gil e Pabllo Vittar influenciaram a Revolução Francesa que, por sua vez, culminou com a crucificação de Jesus por Jean Wyllys. Desde então, a Nova Ordem Mundial dá as cartas num movimento pélvico que visa extinguir os valores cristãos”, completou o chanceler Ernesto Araújo.

Em seguida, mostrou um slide em que discos voadores partem do interior de Roraima levando médicos em direção a Cuba.

Joice Hasselmann apresentou algoritmos baseados na lei matemática de Benford para mostrar que a soma da Lei Rouanet com a doutrinação nas escolas é igual ao CPF de Lula. “O problema do Brasil é que algumas pessoas ainda acreditam na educação e na cultura. Mas são minoria”, explicou, ajoelhada no milho e na soja.

Exaustos após elencarem tantas evidências, membros da Notável Comissão apresentaram o projeto Escola sem Sentido. “São provas e mais provas de que não faz sentido ter escola no Brasil. A Bíblia já traz todos os ensinamentos éticos, morais e cívicos”, argumentou Silas Malafaia. E concluiu: “Para evitar doutrinação comunista, vamos substituir colégios, escolas e universidades por igrejas evangélicas. Que, além de tudo, são mais lucrativas e, por isso, estimulam o empreendedorismo”.

Numa transmissão ao vivo de Harvard, Luciano Hang deu um exemplo de como o currículo escolar está partidarizado: “Nenhum aluno aprende hoje que a nota de R$ 1 saiu de circulação porque trazia mensagens subliminares sobre o tríplex de Lula. Ou que as maquininhas de cartão de crédito emitem sinais criptografados para fraudar as urnas eletrônicas”. Entusiasmado, destrinchou o Planejamento MAÇOM-ILLUMINATI para os próximos 27 anos da humanidade que a Globo vinha escondendo há décadas.

No final da tarde, Dr. Rey tentou entrar na Notável Comissão. Mas foi barrado.

Fernanda TorresFernanda Torres

Atriz e roteirista, autora de “Fim” e “A Glória e Seu Cortejo de Horrores”.

Eterno

O empenho evangélico ultrapassou a esfera religiosa, tornando-se uma força política

S. se interessa por um livro sobre a mesa. É a “Ascensão e Queda de Adão e Eva”, de Stephen Greenblatt. A gravura de Albrecht Dürer do casal, na capa, chama a sua atenção.

S. frequenta o culto pentecostal da cidade em que nasceu. É ali que namora, faz amigos e passa os domingos com a família. S. crê no que lhe diz o pastor, que Adão e Eva deram origem a todos os homens sobre a Terra.

Quando lhe pergunto sobre a possibilidade de existir um ancestral comum ao homem e ao macaco, ela responde que conhece a teoria, mas que se guia pelo Evangelho e que a informação não consta dos versículos.

Penso em presentear S. com um exemplar da obra de Greenblatt, e me pergunto se a moça se sentirá atraída pelo estudo das transformações sofridas por um mito que sobreviveu a Darwin, Newton e Galileu.

O que pensaria S. da presença de Noé no “Atrahasis” e em “Gilgamesh”? Que conclusões tiraria de Agostinho e Milton? Será que se ofenderia com o pterossauro de Twain e o humor demolidor de Voltaire? Ou, pelo contrário, descobriria um mundo outro, igualmente belo e respeitoso, mas diferente do que prega o pastor?

Tenho pensado muito nisso, num diálogo possível entre aquilo que me é caro e o novo cristianismo em ascensão no Brasil. Um cristianismo deveras monoteísta, que não admite sincretismos e enxerga o demo em Iemanjá.

Lutero e Calvino renegam até o politeísmo disfarçado dos santos católicos. Depois de 500 anos de Cristo, Oxalá e Tupã, não é tarefa fácil se acomodar à ortodoxia puritana.

Pragmático, o protestantismo celebra o progresso pessoal e conseguiu, nas últimas décadas, agir sobre o caos social, convertendo e organizando a vida dos que foram esquecidos pelo estado.

O empenho evangélico ultrapassou a esfera religiosa, tornando-se uma força política. A última eleição não deixa dúvida, Deus se fez presente no palanque, pregando uma agenda conservadora, baseada na moral e nos bons costumes.

Os que preferem o risco ateu da ciência costumam tratar a fé como estupidez. Mas existe lógica na troca da liberdade da dúvida, pela certeza de um ente protetor.

Entre Eva e Lucy, S. escolhe Eva. A heroína do Gênesis enfrenta questões semelhantes às dela: amor, casamento, traição, responsabilidade, culpa, trabalho, doença e finitude. Lucy não, Lucy é puro acaso.

O romeno Mircea Eliade, grande estudioso das religiões, ensina que do paleolítico ao neolítico; dos megálitos à Cruz; de Marduk a Zeus; de Lao-Tsé a Confúcio; de Shiva a Buda; todas as crenças compartilham raízes comuns, sendo que as mais arcaicas sobrevivem ocultas em épocas posteriores.

A visão de Ezequiel, do vale coberto de esqueletos, é resquício da adoração dos ossos praticada nas cavernas. Os cultos ligados às plantas –como o da árvore do bem e do mal– datam do início do período agrário, quando o homem dominou o milagre da morte e a ressurreição das sementes.

Por meio dos mitos, Eliade traça a genealogia da civilização indo-europeia. Lévi-Strauss faz algo parecido com os ameríndios em “Mitológicas”.

Se esses autores se tornassem matéria obrigatória nas escolas, entenderíamos, desde cedo, que a história das ideias e das crenças religiosas se confunde com a da civilização, e não nos surpreenderíamos com o poder de Deus nas urnas.

Minha dúvida é se Eliade, Strauss e Greenblatt são considerados globalistas marxistas, traidores de Cristo e do Ocidente pelo futuro chanceler Ernesto Araújo.

Se for esse o caso, aceito ser queimada na fogueira, com S. riscando o primeiro fósforo.

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