Bastam R$ 10,2 bilhões por mês para erradicar a pobreza no país: 58 mil famílias acumulam R$ 1,044 trilhão em Riqueza Financeira

Bruno Villas Bôas (Valor, 06/12/18) informa: o Brasil precisaria gerar uma renda adicional de R$ 10,2 bilhões por mês para erradicar a pobreza no país. Este valor é a soma de quanto cada um dos 54,8 milhões de brasileiros pobres — vivem com uma renda inferior a US$ 5,50 por dia, o equivalente a R$ 406 mensais — precisariam receber a mais para superar a linha de pobreza.

A estimativa consta na Síntese de Indicadores Sociais, divulgada no dia 05/12/18 pelo IBGE. Segundo o estudo, a pobreza cresceu 3,7% em 2017, o que corresponde a 1,97 milhão de pessoas a mais vivendo com menos de US$ 5,5 por dia. Metade desse incremento foi no Estado de São Paulo, o mais rico do país, que tinha 6,7 milhões de pessoas na pobreza, 1,1 milhão a mais que no ano anterior.

Erradicar a pobreza depende de decisões. Você pode subsidiar a moradia e a alimentação, gerar empregos, contemplar isso tudo. Mas, se você quiser resolver o problema amanhã, numa canetada, esse seria o montante necessário a ser investido”, disse o pesquisador Leonardo Athias, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A pobreza cresceu num ambiente negativo no mercado de trabalho, que emprega menos e pior. O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no ano passado, de 1,1% frente ao ano anterior, foi puxado pela agropecuária, atividade menos empregadora. Além disso, programas de transferência de renda ficaram mais restritos por conta da situação fiscal do setor público.

Dessa forma, 26,5% dos brasileiros estavam abaixo da linha de pobreza em 2017, ante 25,7% no ano anterior, considerando essa métrica de pobreza usada pelo Banco Mundial para países de renda média-alta, como o Brasil – a comparação do organismo internacional e do IBGE para os US$ 5,50 é feita usando a paridade do poder de compra. Basicamente, trata-se da soma de todas as rendas do domicílio dividida pelo total de moradores (pais, filhos etc.).

O forte crescimento da pobreza no Estado de São Paulo seria ainda condizente com o ciclo econômico do país, avaliou o pesquisador Pedro Herculano de Souza, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). “O trabalho e a renda urbana foram muito afetados pelo aumento do desemprego e, por isso, a crise foi tão profundamente sentida no Sudeste”, disse Souza.

O Nordeste ainda concentra, porém, a maior parte da pobreza do país. A região tinha 25,6 milhões de pessoas vivendo com menos de US$ 5,50 por dia, 46% da população. Na comparação com 2016, a pobreza no Nordeste cresceu 2,5%, o que corresponde a 622 mil pessoas a mais. No Sudeste, o crescimento foi de 9,2%, refletindo a piora no Estado de São Paulo.

O Maranhão segue o Estado mais pobre do país, com 54,1% da população vivendo com menos de US$ 5,50 por mês. Na sequência, aparecem os Estados de Alagoas (48,9%) e Amazonas (47,9%). No. outro extremo das estatísticas, Santa Catarina tinha 8,5% de sua população vivendo abaixo da linha de pobreza, o menor índice do país.

Como outros indicadores sociais, a pobreza é crescente também em razão de cor, sexo e do arranjo familiar. Um domicílio com uma mulher de cor preta ou parda sem cônjuge e com filho tinha 64,4% de probabilidade de ser pobre. As chances de um homem branco ou mulher branca serem pobres eram de 16,7% e 16,2%, respectivamente.

O retrato feito pelo IBGE mostra também que os pobres ficaram ainda mais pobres no ano passado. A pobreza extrema como um todo no país – renda per capita de US$ 1,90 por dia, ou R$ 140 por mês – cresceu 12,7% em 2017, para 15,2 milhões de pessoas. O resultado confirma reportagens do Valor ao longo do ano, mostrando a disparada da pobreza extrema no país.

Especialista em distribuição de renda, o economista Marcelo Neri, diretor da FGV Social, defende o aumento do Bolsa Família, programa de transferência de renda federal, para servir de amortecedor ao avanço da pobreza, mesmo com as restrições fiscais enfrentadas pelo país. Ele lembra que o programa foi um dos mais bem-sucedidos em sua área no mundo.

“Esta é a hora que o Bolsa Família mostrar seu valor”, disse o pesquisador.

Dados levantados por Neri mostram que o valor médio recebido por beneficiários do Bolsa Família recuou de R$ 154,90 em 2016 para R$ 153,90 em 2017, baixa de 0,6%. Segundo ele, o movimento reflete o “pente fino” feito pelo governo federal no programa. Ele reconhece, porém, que o programa ficou mais bem “focalizado” por causa disso.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou ontem um novo cálculo do Índice de Gini do país e mudou um pouco a percepção sobre o que aconteceu com a desigualdade de renda no primeiro ano de saída da crise. Pelo novo cálculo, que considera um tratamento estatístico na base de dados do instituto, a desigualdade passa a ter um leve acréscimo de 2016 para 2017, em vez da estabilidade anteriormente divulgada.

Em abril, o IBGE divulgou que o índice de Gini, principal medida de desigualdade da renda, ficou estável no país no ano passado, em relação ao ano anterior, ao registrar 0,549 – o indicador varia de zero a um, sendo zero uma distribuição perfeitamente igualitária. Das cinco grandes regiões, a desigualdade recuava apenas no Sudeste.

A Síntese de Indicadores Sociais divulgada pelo IBGE confirmou que o índice foi de 0,549 em 2017, mas exibiu um índice menor para 2016 (0,546). A diferença é pequena, de 0,03 ponto, mas é assim que o índice de Gini costuma se mover – lentamente. Os técnicos do IBGE chamaram a diferença de “acréscimo”, mas evitaram defini-la como “significativa” – ou seja, para além da margem de erro.

Segundo André Simões, gerente da pesquisa, o índice de 2016 mudou por causa do tratamento estatístico aplicado nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua de 2016, fonte do cálculo do Gini. O órgão decidiu retirar da amostra um empresário de transportes – com renda declarada de mais de R$ 1 milhão por mês – que provocou distorções nas estatísticas do órgão.

Por ser uma pesquisa baseada em amostra, cada entrevistado pela Pnad Contínua representa um grupo de pessoas. Em geral, moradores de bairros de alta renda tendem a representar um conjunto pequeno de pessoas na pesquisa, por representarem uma parcela menor da população (os mais ricos). Esse milionário dos transportes, porém, mora num bairro de baixa renda e entrou na pesquisa com peso maior do que deveria.

Desta forma, a desigualdade de renda do Sudeste também passou a ter comportamento diferente. Em vez de queda de 0,535, em 2016, para 0,529, em 2017, o índice de Gini da região passou a crescer de 0,528 para 0,529. A região Nordeste continuou exibindo, o pior indicador de desigualdade: 0,567 em 2017, nível semelhante da República Centro-Africana (0,563).

O IBGE também divulgou que os 10% das pessoas com os maiores rendimentos (de todas as fontes) do país acumulavam 43,1% da massa total dos rendimentos. Já os 40% com os menores rendimentos detinham apenas 12,3%. Esse estrato do topo concentrava 3,51 vezes mais rendimentos do que a base, razão conhecida como o Índice de Palma.

Metade da população do Nordeste vivia de uma renda de meio salário mínimo por mês no ano passado. Isso corresponde a 28,5 milhões de pessoas. Na região Sudeste, 21% da população viviam com um rendimento domiciliar per capita de até meio salário mínimo. Já a região Sul teve o maior rendimento domiciliar per capita, de R$ 1.788 por mês, superando as regiões Centro-Oeste (R$ 1.776) e Sudeste (R$ 1.773). Os menores rendimentos por morador estavam, novamente, nas regiões Nordeste (R$ 984) e Norte (R$ 1.011).

Os estudantes que completaram o ensino médio em escolas particulares têm 1,2 vez mais chances de ingressar em uma faculdade do que os alunos da rede pública de ensino, mostram estatísticas da Síntese de Indicadores Sociais, divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Conforme a pesquisa, que faz um cruzamento de diversos indicadores divulgados pelo órgão ao longo do ano, apenas 43,2% da população com ensino médio completo entrou no ensino superior em 2017. Dos que completaram o ensino médio na rede privada, 79,2% ingressaram na faculdade. Na rede pública, o percentual cai para 35,9%.

Essa diferença não seria explicada apenas pela qualidade de ensino entre as redes pública e privada. Segundo os técnicos do IBGE, o perfil socioeconômico também exerce influência nas chances de ingresso em uma faculdade, uma vez que o rendimento das famílias limita a capacidade de pagar cursinhos ou arcar com mensalidades.

>> Leia mais: Fim da pobreza no Brasil custaria R$ 10 bi por mês

Além da desigualdade de renda, a racial também se faz presente nesse indicador de acesso ao ensino superior. Dois estudantes da rede privada, um de cor branca e outro de cor preta ou parda,

também têm probabilidades diferentes de ingressar em uma faculdade – de 81,9% e 71,6%, respectivamente.

O estudo do IBGE detalhou ainda os motivos que levam pessoas de 18 a 29 anos a não seguirem com os estudos. Do total de brasileiros nessa faixa etária, 52,5% dos homens não estudam porque estão trabalhando ou procurando trabalho. Entre as mulheres, 39,5% não estudam porque cuidam de afazeres domésticos ou filhos.

A desigualdade de oportunidades na área da educação foi enfrentada nos últimos anos pelo setor público por meio da oferta de vagas com sistema de cotas, além de subsídios por meio de programas como Prouni, que concede bolsas tanto integrais quanto parciais em instituições privadas de ensino.

>> Leia mais: Desigualdade de renda teve leve acréscimo em 2017

Segundo a pesquisa do IBGE, de 2009 a 2016, a proporção de matrículas por cotas no ensino superior público cresceu 2,5 vezes, passando de 1,5% para 5,2%. Nas instituições privadas, no mesmo período, a proporção de matrículas com Prouni subiu 28,1% no período.

“Das 2,84 milhões de matrículas no setor privado em cursos de bacharelado em 2009, 26,3% contavam com algum tipo de auxílio financeiro. Em 2016, mais da metade das 3,88 milhões de matrículas no setor privado nesses cursos se beneficiava de algum tipo de auxílio financeiro”, informou o IBGE.

Os problemas, porém, vêm desde cedo. No grupo de crianças de quatro e cinco anos de idade, 91,7% delas estavam na escola, insuficiente para atingir a meta de universalização proposta pelo Plano Nacional de Educação (PNE). O PNE tinha como prazo de universalização para o grupo de crianças de quatro e cinco anos o ano de 2016.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s