Dicas de Leitura em Política

O cientista político norte-americano Steven Levitsky, que em palestra no auditório da Folha de S. Paulo lança o livro "Como as Democracias Morrem", em São Paulo
O cientista político norte-americano Steven Levitsky, autor do livro “Como as Democracias Morrem”, em palestra 

Celso Rocha de Barros (FSP, 31/12/18) dá dicas de leituras. Para ele, o livro-símbolo de 2018 foi “Como as Democracias Morrem”, de Steve Levitsky e Daniel Ziblatt. “Trata-se de uma análise dos riscos que a eleição de Trump trouxe para a democracia americana feita por cientistas políticos que conhecem como poucos a história dos retrocessos democráticos recentes em lugares como Venezuela, Turquia, Hungria e Polônia.

Já sobre a crise da democracia mesmo onde ela ainda funciona, o destaque fica com “The People vs. Democracy”, de Yascha Mounk (The People vs. Democracy). Será publicado no Brasil em abril de 2019. Entre os vários insights do livro, destaque para a discussão sobre “liberalismo não democrático” (a tecnocracia, a judicialização) e “democracia não liberal” (os variados populismos).

Na mesma linha, “Como a democracia chega ao fim”, de David Runciman, já valeria só pela discussão das dificuldades políticas trazidas por questões que talvez sejam grandes demais (aquecimento global) ou pequenas demais (epidemia de drogas) para um governo democrático.

Fascismo: um Alerta”, da ex-secretária de Estado americana Madaleine Albright, é um alerta antiautoritário muito bem-feito por uma autora que conheceu os totalitarismos do século 20 e sabe o quanto o consenso democrático dos anos 90, apesar de tudo, merece ser defendido.

E, se você quer saber mais sobre a crise econômica que ajudou a criar e/ou acelerar todas essas crises políticas até o inferno, “Crashed”, de Adam Tooze, é um livraço, uma magistral história do crash de 2008, com ênfase na dificuldade política de proporcionar soluções nacionais para uma crise financeira eminentemente global.

No Brasil, os melhores livros também foram sobre crise: “Dinheiro, Eleições e Poder”, de Bruno Carazza, é uma investigação minuciosa sobre corrupção e financiamento de campanha informada pelos resultados da Lava Jato. Sugiro lê-lo em companhia de “Presidencialismo de Coalizão”, de Sergio Abranches, o cara que inventou o conceito que dá título ao livro, e agora escreveu uma história do negócio. E feche com a discussão sobre a atuação do Supremo nos últimos anos em “A Batalha dos Poderes”, de Oscar Vilhena Vieira.

Em 2018 começaram a sair as análises de esquerda da crise do petismo. “O Lulismo em Crise”, de André Singer, é uma discussão sobre o período Dilma feita pelo autor do que ainda é o melhor livro sobre a era Lula. “Valsa Brasileira”, de Laura Carvalho, mostra como a “Nova Matriz Econômica” foi inspirada na “Agenda Fiesp”, um programa de incentivos à indústria que, enfim, vejam aí no que deu.

Sobre as guerras culturais que acompanham e aprofundam a crise atual, não deixe de ler o livro-reportagem “Em Nome de Quem? A Bancada Evangélica e seu Projeto de Poder”, de Andrea Dip. Nesses dias de governantes moleques se fazendo de homens, um bom antídoto é “Mulheres e Poder: um Manifesto”, da excelente historiadora britânica Mary Beard.

E, enfim, saindo da crise para o crônico, finalmente saiu em livro a tese de doutorado de Pedro Ferreira de Souza, “Uma História da Desigualdade: a Concentração de Renda entre os Ricos no Brasil (1926-2013)”, o melhor trabalho de ciências sociais feito no Brasil nos últimos anos.

Torçamos para que daqui a alguns anos os livros sejam sobre outra coisa, e não porque foram censurados.”

Dicas de leituras em Política:

  1. Como as democracias morrem, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt (Zahar)

Os professores da Harvard Steven Levitsky e Daniel Ziblatt tentam entender o que tornou possível a eleição do presidente americano Donald Trump em 2016. O evento, que chocou o mundo, é comparado com outros exemplos de rompimento democráticos dos últimos 100 anos. A obra ajuda a entender o momento de hoje — tanto nos EUA quanto no Brasil — mostrando a mutação das ondas autoritárias. Segundo os autores, ao contrário do que aconteceu nas ditaduras militares da América Latina nos anos 1970, ou da ascensão do fascismo nos anos 1930, as ditaduras agora não acontecem através de rupturas violentas, mas com a desestruturação gradual das instituições de um país.

  1. A era do imprevisto, Sergio Abranches (Companhia das Letras)

Três revoluções tornaram o mundo imprevisível. Segundo o jornalista Sergio Abranches, são elas: a socioestrutural, que afeta a própria estrutura das sociedades; a científica e tecnológica, causada pelas novas ferramentas, como o digital; e a climática, associada ao aquecimento global. O seu livro dialoga com pensadores contemporâneos em busca de teorias para compreender os tempos contemporâneos.

  1. A morte da verdade, Michiko Kakutani (Intrínseca)

A terra é plana, o nazismo é de esquerda, vacina prejudica as crianças… Por que teorias da conspiração já descreditadas voltaram com força nos últimos tempos? Por que fatos comprovados perdem força diante de lendas urbanas e fake news? De acordo com a crítica literária americana Michiko Kakutani, há uma valorização excessiva da subjetividade, que colocou em xeque os valores comuns em torno da realidade. Ela aponta fatores culturais, nas redes sociais, nas universidades, na literatura e na política, mas também o predomínio da sabedoria das massas sobre o conhecimento científico, como uma tragédia da contemporaneidade. Conclusão: estamos cada vez mais receptivos a aceitar qualquer ideia absurda, desde que ela valide nossas ânsias e desejos.

  1. Fascismo: um alerta, Madeleine Albright (HarperCollins)

Ex-secretária de Estado dos EUA, Madeleine Albright alerta: longe de ter sido superado após o final da Segunda Guerra, o fascismo é hoje a maior ameaça à paz internacional. Isso porque as crises econômicas e políticas do mundo têm enfraquecido as democracias e aberto caminho para forças extremistas à direita e à esquerda. Ajudados por uma conjuntura cultural e tecnológica favorável, esses grupos estão dissolvendo valores democráticos através do ódio. Segundo a autora, que considera Donald Trump o presidente mais antidemocrático da história moderna, há um grande perigo em achar que dividir a sociedade, através do ataque às minorias e do tribalismo, pode trazer soluções aos problemas contemporâneos.

  1. O progressista de ontem e de amanhã, Mark Lilla (Companhia das Letras)

A intensificação das políticas identitárias de proteção às minorias dissolveu a coesão social, formada por defensores do livre mercado e do bem-estar social. Essa é a teoria de Mark Lilla. O professor de humanidades da Universidade Columbia acredita que os progressistas atuais perderam conexão com as massas e as pessoas comuns. E convoca um retorno urgente aos fundamentos institucionais da cidadania para evitar a ascensão do populismo.

6. Angry white men: american masculinity at the end of an era (Homens brancos irados: a masculinidade americana no fim de uma era)

O sociólogo Michael Kimmel é um dos principais estudiosos do fenômeno. Como diretor do Centro de Estudo dos Homens e das Masculinidades da Universidade Stony Brook, ele é a voz de maior destaque nos estudos sobre masculinidade. Suas pesquisas mais recentes incluem as relações entre extremismo político e masculinidade. Nesta entrevista, Kimmel aborda a eleição de Trump, o terrorismo doméstico nos Estados Unidos, o movimento de direitos masculinos e a extrema-direita.

Seu novo livro, Healing from hate (Cura do ódio) é,  baseado em entrevistas com quatro grupos diferentes. Um deles é uma organização na Suécia que ajuda jovens neonazistas e skinheads a abandonar seus grupos. Outros são o Saída, na Alemanha, que faz a mesma coisa com neonazistas e supremacistas brancos, e o Vida após o Ódio, um grupo criado por ex-integrantes do far-right, o movimento de extrema-direita. O quarto grupo, chamado Quilliam, é uma fundação com sede em Londres que ajuda ex-jihadistas a sair do movimento.

O livro é sobre como homens entram nesses movimentos e como eles saem — e o papel da masculinidade nisso. Eles são caras que realmente pensam que já não importam no mundo e que foram deixados de lado. Compensam a carência de autoestima com ódio direitista à esquerda.

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