Emissões de Títulos de Dívida Direta por 1.255 Empresas: Mercado de Capitais Raquítico

As emissões domésticas no mercado de capitais totalizaram R$ 223,7 bilhões em 2018, o que corresponde a um aumento de 3,2% em relação ao ano anterior. Os ativos de renda fixa elevaram a sua já expressiva participação no total emitido em relação à 2017 – 89% contra 77%, resultado decorrente da performance das debêntures (captação de R$ 140,0 bilhões no ano), cuja parcela avançou de 45% para 62% do total das emissões no período. As captações no mercado de renda variável representaram apenas 5% das emissões contra 18,5% registradas em 2017, enquanto os Fundos de Investimentos Imobiliários responderam por 6% das emissões domésticas.

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As emissões de debêntures em 2018 não se restringiram apenas ao aumento de volume como também em mudanças no seu perfil de colocação. A participação predominante dos investidores institucionais como subscritores das ofertas públicas se manteve, ainda que abaixo do registrado em 2017 (de 61,1% para 51,7%), indicando à disposição destes agentes em continuar alocando recursos em títulos corporativos.

O prazo médio de colocação elevou-se de 4,7 para 6,2 anos, com expressiva redução dos papéis de prazos de até três anos (44,6% em 2017 para 28,7% em 2018) e um correspondente aumento para as emissões de prazos mais longos.

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Estes números refletem a crescente parcela de debêntures emitidas através da Lei nº 12.431, que por serem direcionadas a projetos de infraestrutura e com isenção de IR para pessoas físicas, possuem maior prazo de vencimento e liquidez no mercado secundário. Em 2018, foram emitidos R$ 23,6 bilhões destes títulos contra R$ 9,1 bilhões em 2017, o que corresponde a um aumento de 160% no ano.

Na renda variável a performance em 2018 (emissões de R$ 11,3 bilhões entre IPOs e Follow ons) frustrou a recuperação sugerida em 2017 (R$ 40,1 bilhões) após o fraco resultado registrado em 2016 (R$ 10,7 bilhões). Foram apenas seis operações primárias e cinco de distribuição secundária. O crescimento econômico abaixo do esperado, o alto nível de alavancagem das empresas e as incertezas típicas de um ano eleitoral contribuíram para este resultado.

As captações externas totalizaram US$ 15,3 bilhões em 2018, sendo que 84% foram captados no primeiro semestre, indicando uma antecipação de recursos em função do calendário eleitoral. Esse resultado representa uma queda de mais de 50% do que foi emitido em 2017 (US$ 32,9 bilhões) e foi captado apenas através de ativos de renda fixa.

Com o custo de emissão mais baixo e a maior demanda por papéis de crédito privado vem crescendo o número de empresas que acessam o mercado de dívida local pela primeira vez. Os bancos, inclusive, têm ampliado as equipes sa área de mercado de capitais para atender empresas de menor porte, o que tem ajudado ampliar a quantidade de emissores.

O número de novas empresas que emitiram debêntures ou notas promissórias no período de 2016 para 2017 aumentou 49%, com 124 empresas recorrendo ao mercado de capitais pela primeira vez em 2017. Em 2018, até junho, mais 14 companhias estrearam nesse mercado, elevando o estoque de novas empresas que emitiram esses papéis desde 2005 para 1.255 companhias, segundo estudo do Centro de Estudos de Mercados de Capitais da Fipe (Cemec- Fipe).

A Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), junto com a B3, vem discutindo com o grupo de trabalho de mercado de capitais liderado pelo Ministério da Fazenda a possibilidade de que sociedades limitadas possam emitir debêntures, o que ampliaria ainda mais o universo de emissores. Esses papéis seriam destinados a investidores qualificados, que conseguem realizar melhor a avaliação dos riscos.

Hoje as sociedades anônimas de capital fechado já podem emitir debêntures e responderam por 62% das emissões realizadas em 2018. “Isso ajudaria as empresas de menor porte ter acesso ao mercado de capitais”, diz Carlos Antonio Rocca, diretor do Cemec-Fipe e autor do estudo.

Depois do recorde em emissões de debêntures em 2018, com R$ 147 bilhões, segundo levantamento da B3, o mercado espera outro ano aquecido para essas operações em 2019. A manutenção da taxa Selic em patamar baixo, a maior demanda dos investidores por crédito privado e a perspectiva de retomada dos investimentos com a aceleração da economia devem impulsionar as ofertas. Soma-se a essa combinação o custo mais atrativo do mercado doméstico em comparação ao externo.

O mercado de capitais deve ganhar maior relevância no financiamento das
empresas em um governo neoliberal, cuja política privatizante leva o crédito subsidiado a diminuir com o desmanche dos bancos públicos. Os ex-sócios/colegas da equipe econômica estão “comprados” a esperar o choque de demanda.

As emissões de debêntures de infraestrutura também foram recorde em 2018, chegando a R$ 21,970 bilhões até novembro – avanço de 142,5% em relação ao volume total de 2017, mas ainda uma parcela pequena do total captado nesse segmento. Os planos de concessão e privatização (revival da privataria dos anos 90) do novo governo devem impulsionar a emissão de debêntures de infraestrutura.

A mudança da política de atuação do BNDES, com a adoção da taxa de Longo Prazo (TLP) nos financiamentos concedidos pelo banco, tornou o mercado de capitais mais competitivo. Para o primeiro trimestre deste ano, a vantagem do mercado de capitais tende a continuar, com a TLP fixada em 7,03%, acima dos 6,5% da taxa Selic.

“Muitas empresas emitiram debêntures em 2018 para pagar antecipadamente empréstimos contratados com o BNDES”, afirma Carlos Antonio Rocca, diretor do Centro de Estudos de Mercado de Capitais da Fipe (Cemec-Fipe) e autor do estudo. Com o Joaquim Levy freando o BNDES, seus ex-colegas de O Mercado devem ver muitas operações de financiamento de projetos via mercado de capitais.

Com a queda da Selic, o custo médio das emissões de debêntures realizadas entre janeiro e novembro de 2018 recuou para 105,4% do CDI contra 105,7% do mesmo período do ano anterior. A taxa mais baixa levou ainda a um outro efeito: os investidores passaram a buscar papéis com prazos mais longos para garantir retornos maiores. O prazo médio das emissões de debêntures subiu de 4,7 anos para 6,3 anos. Já nas debêntures de infraestrutura, o prazo médio chega a 10,3 anos.

Diante da taxa básica de juros mais baixa, a demanda por papéis de crédito privado cresceu. A participação de debêntures em carteira dos fundos de investimentos (“crédito privado”), por exemplo, subiu de 2,88% para 3,6%.

O aumento do percentual de crédito privado também foi verificado no portfólio dos clientes do private banking. No Banco do Brasil, o total de recursos alocado em debêntures e Certificados de Recebíveis Imobiliário (CRI) e do Agronegócio (CRA) nas carteiras dos clientes de private banking cresceu 37% de setembro de 2017 a setembro de 2018 – acima da média do mercado.

Além de avançarmos em volume, aumentou a quantidade de clientes interessados neste tipo de papel. Em um ano, o número de novos clientes do BB Private que adquiriram esses títulos cresceu 20%.

De acordo com o estudo do Cemec-Fipe, a participação dos títulos de dívida emitidos nos mercados de capitais doméstico no financiamento das empresas cresceu de 28,9% em 2017 para 31,2% em setembro de 2018. Já o crédito com recursos livres passou de 37,9% para 38,4%, enquanto a contratação de crédito direcionado recuou de 33,20% para 30,4% no período.

Enquanto não houver choque cambial/choque de oferta-choque inflacionário-choque de juros… a Selic fica abaixo da TLP e o mercado de capitais faz festa!

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