Algumas Lições sobre Democracia para o Século XXI

David Runciman, autor do livro “Como a democracia chega ao fim” (RUNCIMAN, David (1967-). Título original: How Democracy Ends. Tradução: Sergio Flaksman. São Paulo: Todavia, 1ª ed., 2018) conclui se lançando uma pergunta: “Qual é a minha solução?

A essa altura de qualquer livro sobre o mal-estar da democracia contemporânea, é comum os leitores esperarem que o autor sugira algumas correções. Não tenho nada a sugerir. Se o solucionismo é parte do problema, simplesmente propor soluções não será a maneira de corrigir nada.

Prefere, em vez disso, apresentar algumas lições para o século XXI. Não devem ser vistas como um guia para o futuro. São, na verdade, um modo de tentar entender o ponto em que nos encontramos no momento. Seja qual for o nosso futuro, precisamos saber de onde partimos.

  • A democracia ocidental madura está em declínio. Passou do seu apogeu. Precisamos reconhecer este fato: uma modalidade dinâmica e extremamente bem-sucedida de regime político, que gozou de um sucesso notável por cem anos, vem aos poucos chegando ao fim nos lugares onde seu sucesso foi maior. O que ainda deixa espaço para muitas escolhas significativas. Se a parte final dessa história ainda está por vir, muita coisa ainda pode acontecer. Os anos de declínio de qualquer um são às vezes os mais satisfatórios de sua vida. Mas isso só irá ocorrer se conseguirmos sair da confusão em que nos encontramos no momento, quando empregamos um tempo excessivo em esforços para recapturar a juventude perdida.

 

  • Ao mesmo tempo, não podemos nos permitir uma preocupação constante com a morte. A política democrática está sendo sufocada pelas intimações de mortalidade que aprendeu a identificar. Em muitos sentidos, é justo sentirmos medo: um acontecimento terminal pode estar à nossa espera depois da próxima esquina. Uma confiança inabalável no futuro seria ridícula a esta altura. Temos muito mais a temer do que o medo em si. Mas também precisamos reconhecer que, se ainda resta vida à democracia, ela precisa ser vivida. Se formos desperdiçar o período que ainda nos resta preocupados com o fim, o tempo simplesmente passará como um borrão.

 

  • A morte não é mais a mesma. O fim definitivo de uma vida se transformou em algo mais parecido a um processo gradual. Isso se aplica individualmente aos seres humanos, que podem ter algumas funções preservadas bem depois de outras características essenciais da vida terem deixado de existir. A demência pode despojar uma pessoa de sua identidade sem danificar sua integridade corpórea. Uma meia vida como essa pode durar muito tempo. Ao ritmo atual dos progressos tecnológicos, podemos esperar que certas meias vidas cheguem a durar mais que muitas vidas plenas. O mesmo se aplica aos nossos sistemas políticos. É quase certo que o fim da democracia será prolongado. Aperfeiçoamentos artificiais, adiamentos e remendos técnicos podem mantê-la quase indefinidamente num estado de animação suspensa. A força da democracia reside em sua capacidade de desmantelar os problemas de maneira a torná-los administráveis, o que significa que a democracia deverá ser capaz de desmantelar sua própria morte. E de poder adiá-la, peça por peça.

 

  • A democracia não somos nós. A extinção da democracia não é a nossa extinção. A analogia entre uma vida humana e a vida de um sistema político só vai até certo ponto. À medida que a democracia entra em declínio, corremos o perigo de um excesso compensatório em nossas tentativas de mantê-la funcionando. Podemos chegar a salvar a democracia e destruir o mundo. Não temos alternativas melhores no momento, mas isso não significa que nenhuma seja possível. Se continuarmos a insistir que a democracia é sacrossanta — em especial, se insistirmos em pensar que seguir em frente, eleição a eleição, irá fazê-la recobrar a centelha da vida —, acabaremos por perder de vista qualquer finalidade. Só estaremos repetindo gestos vazios.

 

  • A história da democracia não terá um ponto final singular, a menos que também seja o fim de toda a vida humana. Haverá casos em que seguirá bem-sucedida, especialmente nos lugares onde a democracia ainda conserva parte de sua promessa juvenil. Haverá também claros desastres — algumas democracias correm o risco de entrar em colapso, como já lhes aconteceu no passado. No momento em que escrevo, a democracia brasileira parece particularmente vulnerável. Cerca de metade dos brasileiros declarou, numa pesquisa recente, seu apoio a uma “intervenção militar temporária”4 para enfrentar a atual crise política e econômica do país. Golpes de Estado continuam a acontecer, embora tendam a se tornar mais raros, haja vista a quantidade de maneiras como a democracia pode ser usada para encobrir sua própria erosão gradual. Mas as democracias ocidentais maduras precisam parar de se mirar em outras nações para entender o que ocorrerá com elas: o Brasil não é a nova Grécia. Não podemos viver através dos outros, assim como não podemos morrer através dos outros. Precisamos atravessar tudo isso nós mesmos.

A democracia ocidental irá sobreviver à sua crise da meia-idade. Com sorte, sairá dela só um pouco “baqueada. Mas é improvável que saia dela revivida. Afinal, esse não é o fim da democracia. Mas é assim que a democracia chega ao fim.”

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