Desmanche dos Bancos Públicos para Bons Negócios dos Endinheirados

Alex Ribeiro e Isabel Versiani (Valor, 30/01/19) informam: depois de sofrer uma forte queda durante a recessão, o crédito bancário deu sinais de retomada em 2018, mostram estatísticas divulgadas pelo Banco Central:​ Clique para acessar as Estatísticas Monetárias e de Crédito com os dados atualizados até dezembro de 2018. Mas o ritmo de recuperação ainda é bastante contido, e o crédito segue distante de assumir o papel de motor do crescimento econômico que desempenhou até 2014.

O estoque de crédito cresceu 5,5% no ano passado, chegando a R$ 3,260 trilhões, interrompendo dois anos de queda nominal (em 2017, havia caído 0,5% e em 2016, 3,5%). O crescimento real do crédito ficou em 1,7% no ano passado, o que significa que se expandiu acima da inflação pela primeira vez desde 2014. Em dezembro, apenas, o crédito registrou alta de 1,8%.

“O ano de 2018 marcou a recuperação do crédito no país, depois de dois anos de retração”, afirmou o chefe do Departamento de Estatísticas do Banco Central, Fernando Rocha. Ele destacou, em particular, o avanço de dois dígitos no crédito livre para empresas (alta de 11,2%) e para pessoas físicas (11,3%).

Apesar de vários sinais de recuperação, o crédito ficou praticamente estagnado na sua proporção com o Produto Interno Bruto (PIB). Oscilou de 47,2% do PIB para 47,4% do PIB entre 2017 e 2018. Normalmente, nos ciclos de expansão da economia o crédito costuma crescer claramente acima do PIB e, nas recessões, em um ritmo mais fraco.

A principal alavanca para a recuperação do crédito são os cortes de juros pelo Banco Central feitos a partir de fins de 2016, de um pico de 14,25% ao ano para a mínima histórica atual de 6,5% ao ano. O afrouxamento monetário se transmitiu para as taxas bancárias. No ano passado, os juros médios cobrados pelas instituições financeiras caíram 1,3 ponto percentual, para 23,3% ao ano, depois de uma queda de 6,6 pontos percentuais em 2017.

Mas os dados do Banco Central mostram duas travas no crédito bancário:

  1. a redução dos empréstimos direcionados e
  2. a retração dos bancos públicos.

A participação do crédito direcionado na economia teve uma retração de 1,2 ponto percentual do PIB no ano passado, para 21,8% do PIB. Essa queda é resultado de medidas do governo para reduzir a presença do crédito direcionado, como o pagamento antecipado de empréstimos feitos pelo Tesouro ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Também pesou a menor demanda das empresas por financiamentos para investimentos, em um ambiente de incertezas sobre o futuro da economia durante as eleições e de alta capacidade ociosa dos fatores de produção. Além disso, parte das empresas procurou reduzir os níveis de alavancagem, depois de tomarem volumes excessivos de empréstimos no ciclo anterior de crédito.

Por outro lado, os bancos seguiram com certa cautela na oferta de crédito para empresas – sobretudo as menores – em boa parte do ano de 2018, segundo indicam os resultados da Pesquisa Trimestral de Condições de Crédito divulgados pelo Banco Central ao longo do ano.

A carteira de crédito dos bancos públicos sofreu forte retração no ano passado, de 1,3 ponto percentual do PIB, fechando em 24,2% do PIB. Em parte, essa queda se deve ao fato de que os bancos públicos, sobretudo o BNDES, operam de forma mais intensiva nas linhas de crédito direcionado, que encolheu.

Além disso, os bancos públicos seguraram a expansão de crédito para cumprir as regras prudenciais que determinam volumes mínimos de capital em relação a suas operações. Os bancos públicos estavam com baixos níveis de capital depois que, nos governos Lula e Dilma, colocaram em prática uma estratégia de corte de juros e expansão das carteiras – e foram obrigados a distribuir altos volumes de dividendos para o Tesouro cumprir as metas fiscais.

A carteira dos bancos públicos comerciais, excluindo o BNDES, encolheu 0,3 ponto percentual do PIB em 2018, para 17% do PIB. Uma parte dessa queda está ligada ao corte de linhas de financiamento, sobretudo a grandes empresas. Essa queda foi pequena, mas os bancos públicos deveriam ter crescido, num contexto de estímulo monetário.

Os bancos privados responderam aos estímulos e aumentaram as suas carteiras em 1,6 ponto percentual do PIB, para 23,2% do PIB. Mas, pelo menos por enquanto, o avanço do setor privado tem sido suficiente penas para substituir os financiamentos cortados no crédito direcionado e pelos bancos públicos, mas não para sustentar um crescimento mais robusto do crédito em relação ao PIB.

Se as projeções do BC estiverem corretas, o crédito como proporção do PIB seguirá estagnado em 2019. Seu prognóstico é uma expansão de 6% do crédito, ante uma inflação projetada de cerca de 4% e uma expansão real da economia de 2,4%.

O Banco Central tem argumentado uma parte do crédito bancário estar sendo substituída por financiamentos no mercado de capitais e no exterior. Um box publicado no Relatório de Inflação de dezembro de 2018 aponta que 90% dos R$ 12,1 bilhões em operações de crédito liquidadas antecipadamente no BNDES no período de 12 meses até setembro de 2018 foram feitas por empresas que haviam captado recursos no exterior ou no mercado de capitais.

Rafael Rosas e Alessandra Saraiva (Valor, 30/01/19) informam: as consultas ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no ano passado somaram R$ 98,8 bilhões, estáveis ante 2017. Apesar dessa estabilidade no indicador considerado o principal termômetro sobre a demanda do mercado pelos recursos da instituição, o banco de fomento segue otimista sobre um desempenho melhor neste ano.

Para Maurício Neves, superintendente da área de planejamento do BNDES, “a expectativa para 2019 é positiva, a partir da perspectiva de recuperação mais forte da economia”.

O banco divulgou o desempenho de 2018. Os desembolsos somaram R$ 69,3 bilhões, uma queda de 2% ante 2017, mas a principal fonte do otimismo demonstrado por Neves estava nas aprovações, que subiram 27% em 2018, para R$ 94,8 bilhões.

“Olhando as aprovações, o viés para 2019 é de crescimento”, diz Neves, lembrando que a maior parte desse crescimento nas aprovações veio da área de infraestrutura, que tem projetos de maturação mais longa, o que garante um ritmo de desembolsos mais longo durante o ano. “Não será um desembolso ‘no dia seguinte’. Parte das aprovações vai se fazer como tendência positiva ao longo do ano”, acrescentou.

O setor de infraestrutura teve volume de aprovações de R$ 47,6 bilhões no ano passado, 60% a mais que em 2017 e cerca de 50% do total aprovado em 2018.

Mas um desempenho mais robusto em 2019 não deverá ser um obstáculo para a instituição. As tabelas deflacionadas divulgadas pelo BNDES mostram que, a valores constantes, o desembolso no ano passado foi de R$ 70,118 bilhões, o menor patamar para qualquer ano desde os R$ 59,821 bilhões de 1999. Nas consultas, os R$ 100,25 bilhões a valores constantes representam o valor anual mais baixo desde os R$ 87,74 bilhões de 1996.

Neves manteve o otimismo em relação às expectativas para este ano mesmo ao ser questionado sobre o fraco desempenho das consultas na ponta. Em dezembro, as consultas de empréstimo junto à instituição atingiram R$ 6,375 bilhões. O montante é 4,37% inferior ao observado em novembro do ano passado (R$ 6,667 bilhões) e 45,3% menor do registrado em dezembro de 2017 (R$ 11,655 bilhões). Em valores constantes, o resultado de dezembro do ano passado representou o pior nível de consultas para um mês de dezembro desde o início da série histórica, em 1995. Para Neves, o resultado de um mês separado não significa uma tendência e pode ser fruto de um comportamento pontual.

“Às vezes ocorre uma volatilidade por um motivo que não perdura. Não há clareza do que aconteceu com as consultas”, frisa Neves.

Comportamento oposto foi observado em dezembro nos desembolsos. Tradicionalmente, o último mês do ano é um período em que ocorre uma aceleração nas liberações do banco de fomento. Mas em dezembro do ano passado os desembolsos do BNDES, a preços constantes, somaram R$ 13,787 bilhões, montante 112,8% superior ao observado em novembro do ano passado (R$ 6,476 bilhões) e 36,9% maior que o registrado em dezembro de 2017 (R$ 10,069 bilhões).

Pela mesma série histórica, é possível perceber que, ao se comparar todos os meses na série iniciada em 1995, o patamar de desembolsos de dezembro de 2018 foi o maior em três anos, desde dezembro de 2015 (R$ 21,712 bilhões). Mais uma vez, o destaque foi a infraestrutura, com R$ 9,337 bilhões em dezembro, 296,9% acima de novembro do ano passado (R$ 2,352 bilhões) e 85,1% a mais que em dezembro de 2017 (R$ 5,043 bilhões).

Neves afirmou que os desembolsos de dezembro foram puxados por operações nas áreas de energia, na transmissão e distribuição, e na logística, tanto rodoviária quanto em aeroportos.

Questionado sobre a possibilidade de um desempenho melhor neste ano interferir no cronograma de devolução dos recursos ao Tesouro Nacional pelo banco de fomento, Neves afirmou que ainda é cedo para prever um patamar de desembolsos ou de crescimento nas liberações da instituição ao longo do ano. “A perspectiva positiva não inclui números. A discussão sobre a devolução ainda vai ocorrer”, diz Neves.

Nathália Larghi e Talita Moreira (Valor, 30/01/19) informam: o objetivo do governo Bolsonaro é privatizar a maior parte das estatais e preservar apenas Petrobras, Banco do Brasil e Caixa – e mesmo assim, deixá-las mais inoperantes, disse o secretário especial de desestatização e desenvolvimento do Ministério da Economia, Salim Mattar.

Em evento promovido pelo Credit Suisse para investidores, Mattar disse que o objetivo é “vender todas as estatais e não competir com o mercado”. Segundo ele, o governo pode arrecadar entre R$ 700 bilhões e R$ 800 bilhões com privatizações, que seriam usados para abater a dívida pública.

O secretário disse ainda estar nos planos acabar com a BNDESPar, braço de participações do BNDES, vendendo todos os ativos ao longo dos próximos quatro anos. A Petrobras, por sua vez, deve se desfazer de “praticamente todas as suas subsidiárias” até o fim do ano, pelas projeções de Mattar.

No caso do BB, o secretário defendeu a venda da BB DTVM, braço de gestão de recursos. O idiota disse não haver motivos para a instituição ter uma área de banco de investimentos. Mattar ponderou que a decisão final cabe ao presidente da República, mas “ao que consta, ele deseja enxugar os bancos, vender seguradora, corretora”.

Mais tarde, no mesmo evento, o vice-presidente de finanças do BB, Carlos Hamilton Araújo, voltou ao tema. O executivo afirmou que a instituição estuda fazer parcerias estratégicas em algumas áreas, como gestão de recursos e banco de investimentos, e acrescentou à lista a unidade de recuperação de créditos – na qual o BB atua por meio da Ativos, uma subsidiária.

“O banco vai fazer parcerias nos próximos anos com foco em melhoria de eficiência e da lucratividade”, disse Hamilton.

Segundo o vice-presidente do BB, há dois caminhos para isso. Um deles é fazer um IPO (oferta inicial de ações) dessas áreas e, num passo seguinte, estabelecer parcerias estratégicas. O outro é o inverso: fazer parceria e apenas depois o IPO.

A escolha entre um e outro caminho, disse Hamilton, será definida pelo objetivo de gerar mais valor para os acionistas do banco. Porém, em condições similares, a preferência será por um modelo que comece com o IPO e depois evolua para uma parceria estratégica. “A oferta de ações tem o benefício da transparência”, afirmou.

De acordo com Hamilton, melhorar a rentabilidade do banco e entregar 11% de capital principal no início de 2022 ainda são objetivos do Banco do Brasil.

O executivo disse ainda que, neste ano, a instituição financeira vai continuar estreitando a diferença em relação ao retorno sobre o patrimônio líquido apresentado pelos concorrentes privados. No crédito, o banco deve crescer em linha com o mercado em 2019, acrescentou.

Lucro e margem financeira também aumentarão, segundo Hamilton, e a receita com prestação de serviços deve crescer acima da inflação neste ano. Já as despesas administrativas devem aumentar, em termos reais, no mesmo ritmo visto em 2018.

O vice-presidente do BB disse ainda que o banco tem um estoque de R$ 8,1 bilhões em instrumentos híbridos de capital e dívida (IHCD). Caso o governo estabeleça a devolução desses recursos de forma “suavizada” ao longo dos anos, afirmou Hamilton, o banco conseguirá manter suas metas de capital.

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