Arriscando a própria pele: Assimetrias ocultas no cotidiano

Nassim Nicholas Taleb é considerado um dos maiores especialistas em probabilidade e incerteza. Foi trader na bolsa de Chicago e lecionou na Universidade de Nova York durante sete anos. Seus livros, entre eles os best-sellers A lógica do Cisne Negro e Antifrágil, já foram publicados em mais de 35 idiomas. Dentro de sua prolixidade, encontram-se boas ideias nesses dois livros, porém, o último – Arriscando a própria pele: Assimetrias ocultas no cotidiano (Rio de Janeiro: Editora Objetiva; 2018) – soa à pura picaretagem para usufruir do prestígio angariado com aqueles outros.

Este livro, embora possa ser lido de forma independente, é uma continuação do projeto Incerto. Em sua arrogância pseudo engraçadinha, Taleb descreve seu projeto como uma combinação de:

  1. discussões práticas,
  2. relatos filosóficos, e
  3. comentários científicos e analíticos sobre os problemas da aleatoriedade e sobre como viver, comer, dormir, discutir, lutar, fazer amigos, trabalhar, divertir-se e tomar decisões sob o domínio da incerteza.

“Ainda que acessível a uma boa gama de leitores, não se deixe enganar: o Incerto é um ensaio, e não uma popularização de obras entediantes publicadas em outros lugares (deixando de lado o manual técnico do Incerto).”

Trata de quatro tópicos em um:

  1. incerteza e confiabilidade do conhecimento (tanto prático como científico, pressupondo que haja essa diferença), ou, em palavras menos refinadas, detecção de baboseira e papo furado,
  2. simetria em assuntos humanos, isto é, imparcialidade, justiça, responsabilidade e reciprocidade,
  3. compartilhamento de informações em transações e negociações, e
  4. racionalidade em sistemas complexos e no mundo real.

Esses quatro não podem ser trabalhados separadamente. Isso é algo óbvio quando uma pessoa… arrisca a própria pele. Taleb justifica: “Para entender por que na vida real não é possível separar facilmente ética, obrigações morais e habilidades individuais, leve em consideração o seguinte. Quando você diz a alguém em uma posição de responsabilidade (o seu contador, por exemplo): — “Eu confio em você”, você quer dizer:

1) você confia na ética dele (ele não desviará seu dinheiro para o Panamá),

2) você confia na eficiência do trabalho dele ou

3) ambos?

“A questão central deste livro é que, no mundo real, é difícil desvencilhar os dois aspectos e colocar de um lado a éticae, do outro, o conhecimento e a competência.”

Não é apenas o fato de se arriscarser necessário para promover a justiça, alcançar a eficiência comercial e um melhor gerenciamento de risco: dar a cara a tapa é essencial para entender o mundo.

Em primeiro lugar, afirma Taleb, “este livro é sobre a importância de identificar e filtrar a baboseira, o papo furado, isto é, a diferença entre teoria e prática, conhecimento verdadeiro e cosmético, entre o mundo acadêmico (no pior sentido da palavra) e o mundo real. Para expressar na forma de um reflexivo ensinamento típico de Yogi Berra: na academia não existe diferença entre o mundo acadêmico e o mundo real; no mundo real, existe”. Com esse pleonasmo, o autor demonstra apenas seu complexo de inferioridade em relação a acadêmicos camuflado com “ar de superioridade”.

Em segundo lugar, trata das distorções da simetria e da reciprocidade na vida: se você obtém as recompensas, deve também correr alguns riscos, e não permitir que outros paguem o preço pelos seus erros. Se você inflige riscos a outras pessoas, e elas são prejudicadas, você deve pagar um preço por isso. Assim como deve tratar as outras pessoas da maneira como gostaria de ser tratado, você gostaria de compartilhar, sem má-fé, parcialidade e desigualdade, a responsabilidade pelos eventos.

Se você dá uma opinião, e alguém a segue, você é moralmente obrigado a ser exposto às consequências do que falou. Caso esteja emitindo pontos de vista sobre economia: “Não me diga o que você ‘pensa’, apenas me diga o que está em seu portfólio”. Como trader de O Mercado divino, ele apenas precifica as pessoas por suas riquezas.

Em terceiro lugar, é sobre a quantidade de informação necessária para uma pessoa compartilhar em termos práticos com os outros. Por exemplo, o que um vendedor de carros usados deveria — ou não deveria — dizer sobre o veículo no qual você está prestes a gastar um pedaço substancial de suas economias.

Em quarto lugar, o livro gira em torno da racionalidadee do teste do tempo. No mundo real a racionalidade não tem a ver com o que faz sentido para o seu jornalista da revista New Yorkerou algum psicólogo usando modelos ingênuos de lógica de primeira ordem, mas algo muito mais profundo e estatístico, vinculado à sua própria sobrevivência.

Não confunda arriscar a própria pele — na definição dada neste livro e aqui usada — com um mero problema de incentivo, tendo apenas uma parcela dos benefícios. Este é um entendimento comum nas Finanças. Não. Trata-se de simetria, mais no sentido de arcar com parte do dano, pagando um preço se algo der errado.

“A mesma ideia estabelece o vínculo entre as noções de incentivos, compra de carros usados, ética, teoria do contrato, aprendizagem (vida real versus comunidade acadêmica), imperativo kantiano, poder municipal, ciência do risco, contato entre intelectuais e realidade, a responsabilidade dos burocratas, justiça social probabilística, teoria das opções, comportamento íntegro, vendedores e fornecedores papos-furados, teologia… Por enquanto, paro por aqui”. Chato ele, não?

Um título mais correto (embora mais canhestro) para o livro teria sido: Os aspectos menos óbvios de arriscar a própria pele: as assimetrias ocultas e suas consequências.

O “Doutor Sabe-Tudo”, de maneira autossuficiente, diz: “eu simplesmente não gosto de ler livros que me informem o óbvio. Gosto de me surpreender. Assim, de acordo com a reciprocidade do estilo-de-quem-arrisca-a-própria-pele, não vou conduzir o leitor através de uma jornada previsível tipo-palestra-de-faculdade, mas sim guiá-lo em meio ao tipo de aventura para a qual eu gostaria de ser levado”.

Para tanta pretensão, o livro está organizado da seguinte maneira: não demora mais que cerca de sessenta páginas para o leitor entender a importância, a preponderância e ubiquidade de arriscar a própria pele (ou seja, simetria) na maior parte de seus aspectos. “Mas nunca se prenda a explicações excessivamente detalhadas de por que algo importante é importante: justificar incessantemente um princípio é degradá-lo”. O que?! Não consegue ser didático e joga a responsabilidade no leitor exigir mais?!

A “rota não tediosa” acarreta enfatizar o segundo passo: as implicações surpreendentes— aquelas assimetrias ocultas impossíveis de vir de imediato à mente —, bem como as consequências menos óbvias, algumas das quais são bastante desconfortáveis, e muitas outras inesperadamente úteis. “Compreender os mecanismos de arriscar a própria pele nos permite compreender sérios enigmas subjacentes a uma matriz de realidade de granulação fina”. [?!]

Por exemplo:

Como é que as minorias tremendamente intolerantes mandam no mundo e nos impõem o seu gosto?

Como o universalismo destrói as próprias pessoas que pretende ajudar?

Por que a economia comportamental não tem nada a ver com o estudo do comportamento dos indivíduos — e Os Mercados [múltiplos deuses] têm pouco a ver com as propensões e predisposições dos participantes?

Como a racionalidade é sobrevivência e somente sobrevivência?

Qual é a lógica fundamental da administração de riscos?

Mas, para este autor, arriscar a própria pele diz respeito principalmente a justiça, honra e sacrifício, coisas fundamentais para a própria existência dos seres humanos.

Arriscar a própria pele, aplicado como regra, reduz os efeitos das seguintes divergências que se desenvolveram com a civilização:

  1. aquelas entre a ação e a conversa fiada (papo furado),
  2. a consequência e a intenção,
  3. a prática e a teoria,
  4. a honra e a reputação,
  5. a expertise e o charlatanismo,
  6. o concreto e o abstrato,
  7. o ético e o legal,
  8. o genuíno e o cosmético,
  9. o comerciante e o burocrata,
  10. o empreendedor e o executivo-chefe,
  11. a força e a exibição,
  12. o amor genuíno e o interesse,
  13. Coventry e Bruxelas,
  14. Omaha e Washington, DC,
  15. os seres humanos e os economistas,
  16. os autores e os editores,
  17. as bolsas de estudo e o mundo acadêmico,
  18. a democracia e a governança,
  19. a ciência e o cientificismo,
  20. a política e os políticos,
  21. o amor e o dinheiro,
  22. o espírito e a letra, Consumo
  23. Catão, o Velho e Barack Obama,
  24. a qualidade e a publicidade,
  25. o comprometimento e a sinalização e,
  26. de modo decisivo, o coletivo e o individual.

“Vamos primeiro ligar alguns pontos dos itens na lista acima com duas vinhetas, apenas para dar um gostinho de como a ideia transcende categorias.”

Depois de ler esse amontoado de ideias mal ordenadas e confusas, na Introdução do último livro de Nassim Nicholas Taleb, “Arriscando a própria pele: Assimetrias ocultas no cotidiano”, algum leitor lúcido tem vontade de ler o restante de sua prosa?

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