Complexidade e Regra da Minoria

Eu tive a paciência de folhear o chatíssimo livro de Nassim Nicholas Taleb, “Arriscando a própria pele: Assimetrias ocultas no cotidiano”. Em todas as leituras, a gente acha pelo menos uma ideia interessante, mesmo sendo o restante já demais conhecido por mim, um reles professor acadêmico.

A principal ideia por trás de sistemas complexos é o conjunto se comportar de maneiras não previstas por análise apenas de seus componentes. As interações importam mais em lugar da natureza das unidades. Estudar indivíduos quase nunca nos dará uma indicação clara de como funciona a colônia. Isso é chamado de propriedade “emergente” do todo, pela qual as partes e o todo diferem porque o que importa são as interações entre essas partes. As interações podem obedecer a regras muito simples.

A regra discutida por Taleb neste capítulo é a regra da minoria, “a mãe de todas as assimetrias”. Basta uma minoria intransigente — por exemplo, a extrema-esquerda ou a extrema-direita — capaz de maneira significante de arriscar a própria pele (ou, melhor, ser “dedicada de corpo e alma”), alcançando uma proporção pequena, digamos 3% ou 4% da população total, para a população inteira ter de se submeter a suas preferências.

“Ademais, uma ilusão de ótica vem a reboque com a dominação da minoria: um observador ingênuo (observador da média padrão) ficaria com a impressão de as escolhas e preferências serem as da maioria. Se parece absurdo, é porque nossas intuições científicas não estão calibradas para isso (deixa as intuições científicas e acadêmicas e os juízos precipitados pra lá; eles não funcionam, e sua intelectualização padrão é um fiasco com sistemas complexos, embora a sabedoria da sua avó não seja).”

A regra da minoria nos mostrará como “basta apenas um pequeno número de pessoas intolerantes e virtuosas que arriscam a própria pele, na forma de coragem, para que a sociedade funcione adequadamente.”

Uma ideia estranha ocorreu a Taleb. “A população kosher representa menos de três décimos de 1% dos residentes dos Estados Unidos. No entanto, parece quase todas as bebidas serem kosher. Por quê? Simplesmente porque aderir 100% ao kosher permite aos produtores, supermercados, mercearias e restaurantes não terem de fazer distinção entre kosher e não kosher para bebidas, com marcadores especiais, corredores separados, inventários separados, diferentes instalações de estocagem. A regra simples a alterar o todo é a seguinte: ‘O consumidor kosher nunca comerá alimentos não kosher, mas um comedor não kosher não é proibido de comer comida kosher’.”

Reformulado em outros domínios: “uma pessoa com deficiência não vai usar o banheiro regular, mas uma pessoa sem deficiência pode usar o banheiro para pessoas com deficiência”; “uma pessoa honesta jamais cometerá atos criminosos, mas um criminoso se envolverá em atos legais”; etc.

Chamemos tal minoria de grupo intransigente e a maioria de grupo flexível. O relacionamento entre ambos depende de uma assimetria nas escolhas.

A geografia do terreno, isto é, a estrutura espacial, importa um pouco; faz grande diferença se os intransigentes estarem em seu próprio distrito ou estarem misturados com o restante da população. Se as pessoas seguidoras da regra da minoria vivessem em guetos com uma pequena economia separada, então a regra da minoria não se aplicaria.

Mas quando uma população tem uma distribuição espacial uniforme, digamos, quando a proporção de tal minoria em um bairro é a mesma de todo o vilarejo, e a do vilarejo é a mesma em todo o município, a do município é a mesma em relação ao estado, a do estado é a mesma em todo o país, então, a maioria (flexível) se submete à regra da minoria (inflexível).

Além disso, a estrutura de custos é bastante importante. “Se a fabricação de comida vegano, por exemplo, custar dez vezes mais, então a regra da minoria não se aplicará, exceto talvez em alguns bairros muito ricos.”

“Nos Estados Unidos e na Europa, empresas de alimentos ‘orgânicos’ estão vendendo mais e mais produtos precisamente por causa da regra da minoria, e porque algumas pessoas podem considerar alimentos comuns e não rotulados conterem pesticidas, herbicidas e organismos transgênicos geneticamente modificados, com, segundo elas, riscos desconhecidos (o que chamamos de organismos geneticamente modificados neste contexto significa alimentos transgênicos, implicando a transferência de genes de um organismo estranho ou espécies que não teriam ocorrido na natureza). Ou poderia ser por alguma razão existencial, comportamento cauteloso ou conservadorismo burkeano [isto é, seguindo as ideias de precaução de Edmund Burke] — alguns podem não querer se aventurar e não correr o risco de se afastar demais do tipo de alimento de seus avós. Rotular algo como ‘orgânico’ é uma maneira de dizer: não contém nenhum OGM transgênico”.

“Ao promover alimentos geneticamente modificados por meio de todo tipo de lobby, compra de congressistas e ostensiva propaganda científica (com campanhas difamatórias contra pessoas discordantes), grandes empresas agrícolas acreditavam tolamente que tudo de que precisavam era ganhar a maioria. Não, seus idiotas. Seu apressado e precipitado julgamento ‘científico’ é ingênuo demais para esse tipo de decisão”.

Os consumidores de OGM s transgênicos comerão alimentos não OGM s, mas não o contrário. Assim, talvez baste haver uma porcentagem minúscula — digamos, não mais de 5% — de uma população uniformemente distribuída em termos espaciais de consumidores de alimentos não modificados geneticamente para toda a população ter de comer alimentos não OGM’s.

Outro exemplo: a propagação de carros com câmbio automático não foi necessariamente devida a uma preferência da maioria. Quem sabe dirigir veículos com câmbio manual consegue dirigir carros automáticos, mas o inverso não é verdadeiro.

O método de análise empregado por Taleb é chamado de “grupo de renormalização”, um poderoso aparato em Física Matemática capaz de nos permitir ver como as coisas aumentam (ou diminuem). Sem matemática significa a renormalização se dar através da aceitação progressiva dos gostos ou comportamentos da minoria intransigente por parte da maioria flexível não disposta a arriscar a própria pele.

A mesma ilusão existe nas discussões políticas, difundida por “cientistas” políticos: muitos acham porque algum partido de extrema direita ou esquerda tem, digamos, o apoio de 10% da população, o candidato desse partido receberá 10% dos votos. Não: esses eleitores da base do partido devem ser classificados como “inflexíveis” e sempre votarão em sua facção. Mas alguns dos eleitores flexíveis também podem votar nessa facção extremista, assim como pessoas não veganas podem comer veganos.

Com essas pessoas se deve tomar cuidado, pois elas [“a vanguarda” política] podem aumentar o número de votos para seu partido extremista. Esse modelo de análise da regra de minoria produziu um punhado de efeitos contraintuitivos na Ciência Política — e as previsões se mostraram bem mais próximas dos resultados reais em vez do consenso ingênuo.

No grupo de renormalização há o efeito de “veto”: uma pessoa em um grupo pode dirigir as escolhas. É uma estratégia de buscar o ideal, em solução pacificadora para evitar conflitos, entre opções não necessariamente formidáveis. Tolerância da maioria com a intolerância da minoria é a busca de conciliação. É típica no Brasil.

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