Crônica da Crise da Dívida Anunciada

Assis Moreira (Valor, 21/01/19) informa: com a dívida global perto de US$ 250 trilhões, o mundo nunca esteve tão endividado. A discussão atual é como os tomadores de empréstimos e os mercados emergentes “irão desarmar suas bombas-relógio”.

A dívida global é agora três vezes maior que o tamanho da economia mundial. Cresceu mais de 12% (US$ 27 trilhões) desde 2016, alcançando US$ 244 trilhões no terceiro trimestre de 2018. É equivalente a 318% do PIB, ligeiramente inferior ao pico de 320% no terceiro trimestre de 2016, conforme o Instituto Internacional de Finanças (IIF), entidade que representa as instituições financeiras.

O endividamento de governos e companhias chegou a níveis recordes relativo ao PIB, atraindo a atenção dos bancos centrais ao redor do mundo. Os dois segmentos representam mais de 75% do aumento da dívida global desde 2008.

A dívida total dos governos passou de US$ 65 trilhões em 2018, de US$ 37 trilhões há uma década, concentrado sobretudo entre países desenvolvidos. No mesmo período, a fatura a pagar das companhias não financeiras passou de US$ 27 trilhões a US$ 72 trilhões, sendo 92% do PIB, sobretudo nos mercados emergentes.

A elevação da dívida em outros setores tem sido menor: o crédito para as famílias cresceu mais de 30% para US$ 46 trilhões, e do setor financeiro aumentou 10% para US$ 60 trilhões.

Segundo o IIF, desde 2016 o endividamento cresceu mais rapidamente nas famílias nos mercados emergentes, totalizando US$ 12 trilhões. A China é responsável por 45% ou US$ 6,8 trilhões em termos normais. O crédito também explodiu para famílias na Índia, México, Coreia, Malásia e República Tcheca, além de países desenvolvidos como a França, Bélgica e Finlândia.

De acordo com o IIF, no caso da Brasil a dívida das famílias equivale a 27,2% do PIB, das empresas não financeiras fica em 40,6%, do governo chega a 87,3% e do setor financeiro é de 35,1% do PIB. O grosso dessas dívidas é em real. No caso específico das corporações não financeiras, 16,8% da dívida é em moeda estrangeira.

Uma discussão atual é sobre o risco potencial do crescente nível de dívida das empresas para a estabilidade econômica e financeira global. Cerca de US$ 6,5 trilhões da dívida desse segmento vence em cinco anos.

Nos emergentes especificamente, a necessidade de refinanciamento será alta. Cerca de US$ 3,9 bilhões de títulos de dívida e empréstimos sindicalizados vão vencer até o fim de 2020. Uma parte da dívida, US$ 800 bilhões, é de governos e US$ 1,9 trilhões do setor privado não financeiro, por exemplo.

As necessidades de refinanciamento em dólar são elevadas para a Colômbia, Egito, Nigéria, Líbano, Chile e Argentina.

Para o banco UBS, com os melhores níveis de capitalização dos bancos e requisitos de serviço da dívida gerenciáveis de hoje, não parece haver uma ameaça iminente da dívida para os mercados globais. Mas diz que a situação pode se deteriorar fortemente no caso de uma recessão. Nesse caso, o endividamento aumentaria ainda mais rapidamente, bancos centrais seriam obrigados a retomar a compra de ativos e aumentaria a pressão para os bancos comerciais elevarem seu capital próprio.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) publicou estudo de dois economistas sobre os passos para se evitar uma crise da dívida. Eles constataram que o peso da dívida pública é um problema crescente em todo o mundo, chegando a níveis não vistos desde a Segunda Guerra Mundial.

Martin Muhleisen e Mark Flanagan propõem três políticas prioritárias:

  1. primeiro, são necessários mais esforços para garantir que o endividamento soberano seja financeiramente sustentável.
  2. segundo, é preciso assegurar que todos os países divulguem informações completas e transparentes sobre sua dívida pública.
  3. terceiro, é preciso promover colaboração entre credores oficiais para que se preparem para casos de reestruturação da dívida envolvendo credores não tradicionais.

Insistem ser preciso se antecipar aos riscos inerentes ao acúmulo de dívidas. Leia mais abaixo.

Três passos para evitar uma crise da dívida

18 de janeiro de 2019

A sustentabilidade da dívida de alguns países de alto risco tem sido objeto de muita discussão. Contudo, o peso da dívida pública é um problema crescente em todo o mundo.

A dívida pública dos países avançados situa-se em níveis não vistos desde a II Guerra Mundial, embora tenha caído mais recentemente. A dívida pública dos países de mercados emergentes alcançou patamares registrados pela última vez durante a crise da dívida dos anos 1980. E em 40% dos países de baixa renda — isto é, 24 de um grupo de 60 países — é alto o risco de superendividamento, ou seja, a incapacidade de honrar o serviço da dívida pública, o que poderia causar perturbações significativas na atividade econômica e no emprego. Portanto, não surpreende que, como presidente do G-20, o Japão tenha decidido tratar a sustentabilidade da dívida como uma questão prioritária na agenda do G-20 .

Níveis de dívida elevados e sem precedentes não são necessariamente um problema quando as taxas de juros reais são muito baixas, como é o caso hoje em muitas economias avançadas. No entanto, a dívida elevada pode deixar os governos muito mais vulneráveis a um aperto nas condições financeiras mundiais e ao aumento dos gastos com juros. Isso poderia contribuir para correções do mercado, movimentos bruscos da taxa de câmbio e um enfraquecimento ainda maior dos fluxos de capital.

Naturalmente, nem toda dívida é ruim. Na verdade, contrair empréstimos pode destravar recursos vitais para investir em infraestrutura, saúde, educação e outros bens públicos. Quando feito da maneira correta, o investimento na capacidade produtiva eleva a renda, o que pode compensar o custo do serviço da dívida. E parte do aumento da dívida, sobretudo nas economias avançadas, ajudou a apoiar o crescimento no rescaldo da crise financeira mundial e a evitar um desfecho pior.

Os problemas surgem quando a dívida já é alta e os recursos dos novos empréstimos não são empregados de forma judiciosa (seja por corrupção, falhas institucionais ou outros motivos) ou quando um país é atingido por desastres naturais ou choques econômicos, como reversões súbitas dos fluxos de capital, que prejudicam a capacidade de saldar a dívida. Alguns países de mercados emergentes estão enfrentando a segunda situação.

Mas normalmente são os países de baixa renda que enfrentam os maiores desafios em termos de dívida e, em geral, estão menos preparados para lidar com o problema.

Muitos desses países têm grande necessidade de gerar mais recursos para o desenvolvimento e acabam recorrendo mais e mais a financiamento externo, seja por meio da emissão de títulos soberanos, empréstimos de novos credores oficiais ou o recurso a credores comerciais estrangeiros. Os títulos soberanos e créditos comerciais muitas vezes têm taxas de juros mais altas e prazos de vencimento mais curtos, o que aumenta o custo do serviço da dívida e dificulta sua gestão.

E embora a diversificação das fontes de financiamento traga benefícios, ela também impõe novos desafios na gestão da dívida e, se necessário, na sua reestruturação, pois não se dispõe de mecanismos estabelecidos para a coordenação de credores que abranjam novos credores.

O que os credores e tomadores podem fazer? Três políticas prioritárias podem ajudar a fazer a diferença.

Primeiro, são necessários mais esforços para garantir que o endividamento soberano seja financeiramente sustentável. Os tomadores devem definir cuidadosamente seus planos de gastos e déficits fiscais, para manter a dívida pública em uma trajetória sustentável. Além disso, antes de contrair novas dívidas, devem avaliar detidamente o retorno em potencial de seus projetos e sua capacidade de saldar suas dívidas por meio do aumento das receitas tributárias. Os credores precisam avaliar o impacto de novos empréstimos sobre a situação da dívida do tomador antes de conceder novos créditos. Isso protegerá tomadores e credores do risco de firmar contratos que causarão dificuldades financeiras a ambos no futuro.

Segundo, precisamos assegurar que todos os países divulguem informações completas e transparentes sobre sua dívida pública. Em muitos países em desenvolvimento, há espaço para fortalecer consideravelmente as instituições responsáveis pelo registro, acompanhamento e prestação de contas da dívida. Por exemplo, um terço dos países de baixa renda não informa as garantias concedidas pelo setor público, enquanto menos de um em cada dez informa a dívida das empresas públicas. Os credores têm flexibilidade para permitir uma divulgação completa dos termos e condições de seus empréstimos. Mais transparência com relação às obrigações da dívida pública pode ajudar a evitar o acúmulo de grandes passivos “ocultos” que acabam por se transformar em dívida explícita do governo.

Terceiro, precisamos promover a colaboração entre os credores oficiais para que se preparem para casos de reestruturação da dívida envolvendo credores não tradicionais. Dado o alto nível de dívida detida por novos credores, precisamos pensar no que fazer para que a coordenação entre os credores oficiais funcione, pois ela costuma ser crucial para a resolução de crises da dívida.

Quanto ao FMI, em conjunto com nossas instituições parceiras, estamos trabalhando em estreita colaboração com os países membros para reforçar sua capacidade tanto para registrar e gerir a dívida como para assegurar sua transparência. Estamos fortalecendo nossas metodologias de avaliação da sustentabilidade da dívida e capacitando as autoridades dos países para empregá-las. E estamos também buscando uma maior aproximação com novos credores para, entre outras coisas, assegurar que estejam em condições de participar de reestruturações de dívidas multilaterais, caso isso seja necessário.

Nas décadas de 1980 e 1990, a resolução das crises da dívida na América Latina e nos países pobres muito endividados exigiu anos de duras negociações. Além disso, estudos e eventos já destacaram como o superendividamento afeta a recuperação econômica nas economias avançadas. Precisamos nos antecipar aos riscos inerentes ao atual acúmulo de dívidas e tomar as medidas corretas para atenuá-los.

* * * * *

Martin Mühleisen é Diretor do Departamento de Estratégia, Políticas e Avaliação (SPR) do FMI. Nessa função, lidera o trabalho sobre o direcionamento estratégico do FMI e a formulação, implementação e avaliação das políticas do Fundo. Além disso, supervisiona as interações do FMI com organismos internacionais, como o G-20 e as Nações Unidas.

Mark Flanagan é Diretor Adjunto do Departamento de Estratégia, Políticas e Avaliação (SPR) do FMI. Desde que ingressou no FMI em 1998, trabalhou em países da África, Sul da Ásia e Europa, onde foi chefe da missão para a Islândia e subchefe das missões para a Ucrânia e a Grécia. Desde 2015, é o Chefe da Divisão de Política da Dívida do SPR, na qual comanda o trabalho sobre questões relacionadas à análise e à transparência da dívida e supervisiona a reforma dos quadros de sustentabilidade da dívida do FMI.

Daniela Meibak (Valor, 30/01/19) informa: a redução da posição do investidor estrangeiro no financiamento da dívida pública brasileira e as perspectivas positivas do país diante das promessas de reforma indicam potencial grande de alocação de recursos globais no Brasil. O cenário ilusório já colocou o país na frente dos pares emergentes nas preferências, mas para o fluxo de capitais comece a entrar aqui a exigência de O Mercado é alta: a reforma da Previdência precisa ser aprovada.

A participação dos investidores internacionais na dívida pública mobiliária federal interna ficou em 11,22% em dezembro, totalizando R$ 418,41 bilhões, de acordo com o Tesouro Nacional. Dados compilados pelo Valor Data indicam que o Brasil tem um dos menores financiamentos externos na comparação com países emergentes de porte semelhante. A África do Sul tem 38,3% da sua dívida financiada por esse investidor, seguido pela Rússia com 26%, México com 25,5% e Turquia com 14,8%. Apenas a Índia fica atrás, com 4,4% da dívida nas mãos de não-residentes.

Parte desse capital alocado em emergentes deve ser retirado e direcionado para o Brasil, uma vez resolvido o problema fiscal do país. É o que explica Alberto Ramos, economista-chefe para a América Latina do Goldman Sachs. Segundo ele, a aprovação das reformas deve levar o Brasil para uma trajetória de aceleração do crescimento e aumento da produtividade, com isso o investidor vai tirar recursos de todos os lados para colocar no país. “Se conseguir resolver o fiscal e acelerar o crescimento, está muito bem posicionado para desfrutar de um período longo de prosperidade”, afirma.

O cenário benigno é traçado porque a casa está arrumada e o país tem as condições para avançar no cenário de aprovação das reformas, conforme explica o especialista. A inflação está controlada, a taxa de juros em nível historicamente baixo, a situação da conta corrente é bastante favorável e as empresas reduziram alavancagem nos últimos anos. O que falta agora é resolver o problema fiscal, condição imprescindível para que o estrangeiro volte a colocar seus recursos por aqui.

Uma vez encaminhada essa questão, o Brasil sai na frente dos pares, onde o volume alocado já é maior e as questões internas não devem ser suficientes para levar a uma forte melhora macroeconômica, deixando-os assim dependentes de fatores globais para a movimentação dos ativos. “O Brasil pode ser um dos poucos mercados emergentes com história cíclica positiva e não correlacionada ao que está ocorrendo com o resto do mundo. Podemos ter uma história só nossa e diferente dos demais”, afirma Tony Volpon, economista-chefe do UBS no Brasil.

A primeira relação traçada pelos gestores globais é com o México. O vizinho latino-americano é uma opção menos arriscada dado o grau de investimento pelas agências de rating e se destaca por ter uma taxa básica de juros maior do que a brasileira, em 8,25% ao ano. Os riscos vistos pelo mercado, no entanto, estão ligados à possibilidade de uma guinada à esquerda pelo presidente Andrés Manuel López Obrador. “O problema do México é a situação fiscal de longo prazo caso o presidente foque no crescimento pelo governo. Tivemos essa experiência com o PT e existe o risco de não dar certo para eles”, afirma Gustavo Rangel, economista-chefe para América Latina do ING.

“Sendo os dois maiores mercados da América Latina, pode ter a substituição de um pelo outro na alocação de recursos. Já vimos esse movimento no passado. Mas espero que cresça a alocação em Brasil em detrimento de países emergentes como um todo”, completa o especialista, analisando as possibilidades de mudança no caso da aprovação da Previdência. “Brasil é um dos mercados mais interessantes por tem um gatilho local muito importante.”

page1image3750638848page1image3750639120

Os profissionais apontam que os demais pares do Brasil possuem histórias complexas. A África do Sul passa pelas incertezas de um ano eleitoral e com a economia respondendo pouco à gestão do novo presidente, depois que o anterior caiu por acusações de corrupção. Índia também está em ano eleitoral, o que pode desacelerar o ritmo de reformas do país. A Rússia continua no centro de disputas geopolíticas e é alvo de sanções por parte dos EUA e a Turquia foi o destaque negativo em 2018 em decorrência da postura do presidente Recep Tayyip Erdogan.

O ambiente global levou o investidor não-residente de mercados emergentes a registrar grandes perdas ao longo de 2018. No Brasil, o cenário mais difícil deixou esse agente conservador e, ao levar em consideração a política local e as necessidades de reformas, a postura do estrangeiro tem sido manter baixa alocação de recursos desde o ano passado. Reflexo dessa decisão pode ser vista nos dados divulgados pelo Banco Central na nota do setor externo. Os investimentos estrangeiros em carteira apresentam saída líquida de US$ 8,4 bilhões em 2018, ante uma saída de US$ 1,67 bilhão em 2017. Apenas na renda fixa, saíram liquidamente US$ 2,77 bilhões no ano passado.

“A capacidade do estrangeiro de entender a dinâmica política local é menor que a do investidor local, então ele cria menos expectativa e cobra mais entrega. Para ele começar a preencher o cheque, é preciso que fique claro qual a proposta de reforma do governo e qual a capacidade dele de aprovar as propostas no Congresso”, explica Tony Volpon, economista- chefe do UBS.

Ramos, do Goldman, vai ainda mais longe e afirma que muitas promessas não foram entregues no passado e que agora o investidor está cético. “Quatro anos atrás, quando Dilma Rousseff foi reeleita, ela trouxe Joaquim Levy para fazer o ajuste fiscal e o saneamento do setor público, mas nada aconteceu. Depois do impeachment, veio [Henrique] Meirelles, Mansueto [Almeida], [Eduardo] Guardia, um time muito competente que entregou pouco. Não foi pela falta de governantes comprometidos que a agenda fiscal não avançou”, diz. Os fatos levam a crer, em sua opinião, que a política impede que os governantes avancem nessa pauta. “O gringo está pagando pouco para ver”, completa.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s