Sete Pecados da Língua

Em vez em quando gosto de ler a Dad Squarisi. Eu conheci suas dicas quando morei em Brasília e lia seus artigos no Correio Braziliense, onde é Editora de Opinião. Um aprendizado recente com livro dela foi eliminar o “queísmo”. Pode reparar, hoje fujo dos “que(s)” como o diabo da cruz! E o abuso deles em textos de outros autores, principalmente de jornalistas, me incomoda muito.

Desta feita fui ler seu livro “Sete pecados da língua” (SP: Editora Contexto; 2017). Saí de sua leitura um pouco desapontado pela carência de novidades. Para não deixar de registrar alguns conselhos, resumo seu último capítulo, denominado “A oitava maravilha da língua”. Na verdade, são dez mandamentos para a boa escrita.

1 Seja adequado

Confundir as vestes tem nome. É inadequação. O mesmo princípio orienta o texto. Horóscopo exige palavras genéricas. Reportagens, fatos e vocábulos concretos. Salas de bate-papo, abreviaturas inventadas, troca de letras, signos incompreensíveis a muitos mortais. Não se trata de certo ou errado. Mas do português adequado à ocasião.

2 Seja claro

Montaigne, há 400 anos, disse: o estilo tem três virtudes. A primeira: clareza. A segunda: clareza. A terceira: clareza. Graças a ela, o receptor entende a mensagem sem ambiguidades.

3 Seja preciso

A precisão tem íntima relação com as palavras. Buscar o vocábulo certo para o contexto é trabalho árduo. Exige atenção, paciência e pesquisa. Consultar dicionários, textos especializados e profissionais da área deve fazer parte da rotina de quem escreve.

Quem fala de Economia, por exemplo, tem de distinguir o significado de salário, vencimento, provento, pensão, subsídio ou verba de representação. Uma reportagem sobre política não pode dizer que os deputados vetaram um projeto: quem veta é o presidente da República. A Câmara rejeita.

4 Seja natural

Imagine o leitor estar à sua frente conversando com você. Sinta-se à vontade. Faça pausas e perguntas diretas. Dê ao texto um toque humano. Você se dirige a pessoas de carne e osso.

5 Seja fácil

No mundo de corre-corre, queremos textos curtos, precisos e prazerosos. Facilidade fisga. Para chegar lá, opte por palavras familiares. As longas e pomposas são pragas. Em épocas passadas, quando a língua era instrumento de exibição, gozavam de enorme prestígio. Falar difícil dava mostras de erudição. Impressionava.

Hoje a realidade mudou. E-mail, Twitter e WhatsApp exigem rapidez. Prefira a ordem direta. Evite intercalações. Vacine-se contra redundâncias, pedantismo e verborragia. Escreva frases curtas. “Uma frase longa”, escreveu Vinicius, “não é nada mais que duas curtas.”

6 Seja leve

Não canse. Respeite o tempo, os ouvidos e o bom gosto do leitor. Busque a frase elegante, capaz de veicular com clareza e simplicidade a mensagem que você quer transmitir.

7 Seja respeitoso

Boa parte das pessoas se indigna com palavrões, obscenidades e expressões chulas. Só os acolha em situações excepcionais.

8 Seja surpreendente

Surpresa chama a atenção e desperta a curiosidade. É o gosto pelo inusitado. Fuja dos modismos e chavões. Eles roubam a força e o frescor. Pontapé inicial, abrir com chave de ouro, chorar um rio de lágrimas, ver com os próprios olhos, cair como uma bomba e cia. foram surpreendentes algum dia. Hoje soam como coisa velha. Clichês transmitem a ideia de escritor preguiçoso, desatento ou malformado. Em suma: incapaz de surpreender.

9 Seja dinâmico

Só o movimento mantém viva a língua. Frases mornas e tediosas afugentam o leitor. Seja dinâmico. Vá logo ao ponto. Abuse de verbos e substantivos. Prefira a voz ativa. Evite palavras pomposas. Varie o vocabulário, as estruturas e o tamanho da frase.

10 Seja gentil

As palavras carregam carga ideológica. Algumas mais; outras menos. A sociedade está atenta aos vocábulos reforçadores de preconceitos. Fuja deles. Cor, idade, peso, altura, origem e preferências sexuais são as principais vítimas.

Gentileza não se restringe a palavras. Atinge períodos, parágrafos, chega ao texto completo. Ao se expressar, comece bem, de forma atraente, de modo a despertar o interesse e estimular a vontade de chegar ao fim. Aí, ofereça o prêmio cuidadosamente escolhido: um fecho tão forte quanto a introdução.

Só.

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