Recessão contra Inflação de Serviços: Brasil com Maior Desemprego da América Latina

Bruno Villas Bôas e Hugo Passarelli (Valor, 15/02/19) informam: após três anos de retração, o setor de serviços terminou 2018 apenas reduzindo as perdas registradas durante a recessão. A exemplo do ocorrido desde meados de 2017, o segmento segue atrás da recuperação econômica, enquanto a indústria e o varejo, por exemplo, já mostram crescimento, ainda que modesto. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o volume de serviços prestados caiu 0,1% no acumulado do ano passado, segundo a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS).

Economia começa 2019 em expansão, mas ritmo é moderado
Para 2019, é esperada uma reação, também comedida devido à alta ociosidade do mercado de trabalho, o que inibe uma elevação mais forte do consumo e, por consequência, também retrai a demanda das empresas por serviços terceirizados.

Os dados do IBGE dão a dimensão da dificuldade do setor em engatar um ritmo mais forte. No ano passado, o volume de serviços caiu em 58,4% dos 166 tipos de atividades pesquisados.

Dos cinco grupos de atividades de serviços acompanhados pelo IBGE, os serviços profissionais e administrativos puxaram a queda do setor em 2018, ao recuar 1,9%. Esse agrupamento envolve desde serviços técnicos qualificados, como de empresas de engenharia, até serviços de vigilância.

A demanda por esses serviços mais qualificados recuou 1,2% no ano passado. Empresas de engenharia, por exemplo, perderam contratos em razão da crise de petróleo. A construção também mostrou perdas consistentes nos últimos anos.

Os serviços administrativos e complementares, considerados os mais básicos, tiveram queda de 2,1% no ano passado. São atividades que parecem não sair da crise e mostram a dificuldade das empresas que prestam serviços para outras empresas. São atividades algumas vezes não consideradas essenciais e que acabam cortadas.

Na outra ponta, o segmento de transportes registrou alta de 1,2% no ano. O resultado mostra que, apesar da greve dos caminhoneiros, a demanda pelo transporte de cargas por indústrias e agronegócio permaneceu em recuperação no ano passado, após subir 2,3% em 2017.

O transporte terrestre, que inclui o transporte rodoviário de carga, caiu 15% em maio, quando ocorreu a paralisação, com bloqueio das estradas. Mas no mês seguinte essa queda já foi recuperada.

Também houve altas no acumulado de 2018 nos serviços prestados às famílias (+0,2%) e na categoria de outros serviços (+1,9%). Como os dois segmentos representam pouco do setor – juntos, são cerca de 15% dos serviços -, não houve fôlego para trazer a taxa para o positivo.

Esse movimento desigual entre os sub-setores está relacionado com a lenta recuperação do mercado de trabalho, que limita a recuperação do consumo. Os serviços devem seguir o restante da economia e mostrar aceleração mais significativa só a partir de 2020.

O saldo final do desempenho no ano passado foi o de um setor que reduziu o estrago causado pela recessão, mas sem sair do lugar. Nas comparações mais longas, ainda há muito terreno a ser percorrido. Pelo volume, os serviços acumulam uma baixa de 11,1% nos últimos quatro anos.

Pela receita, há um buraco de 11,4% desde o pico, o equivalente a perdas de R$ 9,7 bilhões, a preços de dezembro de 2018, calcula a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). A entidade prevê alta de 2% dos serviços em 2019.

O processo de retomada dos investimentos será fundamental para as atividades envolvidas na PMS apresentarem o primeiro avanço anual de volume de serviços desde 2014 (+2,5%).

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