Individualismo e Holismo Metodológico

Tem sido sugerido por muitos comentaristas da teoria econômica os representantes da nova Economia Institucionalista serem comprometidos com o individualismo metodológico, enquanto os membros da antiga categoria de economia institucionalista subscreveriam o holismo metodológico, de uma variedade ou outra, muitas vezes de um tipo funcionalista. Isso sugere a distinção entre institucionalismo individualista e institucionalismo holista. A alegação é extensiva para distinguir entre a nova economia institucionalista e a velha economia institucionalista.

O individualismo metodológico no contexto da Economia é pensado a partir da hipótese de as explicações dos fenômenos econômicos e das instituições serem formuladas em termos das propriedades dos indivíduos. O holismo metodológico não só nega isso, mas também prescreve tais explicações serem expressas em termos de entidades coletivas.

O funcionalismo é frequentemente mencionado como um exemplo de holismo. Antes de prosseguir sua argumentação, Uskali Mäki, autor do ensaio Economics With Institutions: Agenda for Methodological Enquiry, primeiro capítulo do livro Rationality, Institutions And Economic Methodology (Edited by Uskali Mäki, Bo Gustafsson & Christian Knudsen. London and New York: Routhledge; 1993), gostaria de afirmar essa questão ser uma das menos compreendidas na metodologia da Economia.

Ambos, “Individualismo” e “Holismo” aparecem na literatura em vários casos cujos significados não estão bem analisados e mesmo assim estudos de casos sofisticados ainda não estão disponíveis. Nenhuma boa análise existe, mas nenhuma será tentada nesse ensaio de Uskali Mäki. Algumas observações podem bastar para indicar ser necessário algum cuidado ao atribuir individualismo e holismo aos dois institucionalismos: o velho e o novo.

A tese da extensão das duas distinções – entre a nova Economia Institucionalista e da velha Economia Institucionalista, por um lado, e institucionalismo individualista e institucionalismo holista, por outro – pode ser questionada simplesmente apontando “cisnes negros”. Há membros inquestionáveis ​​da nova Economia institucionalista cujo trabalho não é consistente com o individualismo metodológico. Por exemplo, invocando mecanismos de seleção de grupos em sua Teoria da Evolução Cultural, Hayek [da Escola Austríaca] não conseguiu cumprir a sua metodologia individualista.

Além disso, se uma teoria é funcionalista, quando explica as características das estruturas de governança e seus efeitos funcionais, não é por causa de qualquer mecanismo detalhado de ação individual e interação. O funcionalismo deste tipo não é compatível com individualismo metodológico. Assim, outro autor representante da nova economia institucionalista apareceria como um não-individualista metodológico.

De passagem, vale assinalar uma ligação da presente questão com a falsificabilidade popperiana. Em defesa do alegado individualismo da nova economia institucionalista contra o alegado funcionalismo da teoria marxista, outros autores argumentam as explicações funcionalistas sofrerem “incapacidade de teste inerente”. Isso, eles parecem pensar, é um defeito fatal, porque “a maioria os economistas, afinal, adotam alguma variante da teoria popperiana do princípio de demarcação, segundo o qual apenas as teorias capazes de produzir proposições refutáveis ​​são consideradas científicas“.

Os problemas de falsificacionismo são também problemas deste julgamento. Para começar, não é de todo evidente o individualismo metodológico ser melhor para fornecer implicações não-problemáticas refutáveis. Além disso, o ponto também levanta questões sobre o caráter do apelo à noção de implicações refutáveis. Se o autor é um funcionalista e se os críticos estão corretos sobre a incapacidade do funcionalismo para produzir implicações refutáveis, então o funcionalista teria entrado em contradições. Evidentemente, esta questão exige maior clareza em várias frentes metodológicas.

Como sugerido acima, entre as principais noções necessitadas de esclarecimento estão a do individualismo e do holismo e a questão subjacente capaz de os dividir. A questão é por vezes formulada como a da relação adequada entre “o todo” e “as partes”, por vezes entre o “micro” e o “macro”, algumas outras vezes entre “agência” e “estrutura”. Às vezes a questão é interpretada como a do status ontológico das coisas sociais (como corporações, bancos, mercados, estados nacionais) ou propriedades sociais (como ser um gerente, tendo um direito de propriedade, tendo poder de compra) ou o que Durkheim chama de fatos sociais.

Às vezes é entendido como uma questão semântica concernente à redutibilidade ou tradução de expressões de tais itens sociais em expressões de indivíduos humanos. Às vezes é considerado um confronto entre as duas noções por prioridade explicativa.

Não é de admirar os próprios termos “individualismo” e “holismo” serem desesperadamente ambíguos. Por exemplo, alguns usos do “individualismo” parecem implicar o que é frequentemente chamado de “atomismo” ou a ideia de indivíduos desprovidos de atributos, ou a ideia de as propriedades dos indivíduos não serem influenciadas ambiente social. Este e outros usos tão estreitos não devem obscurecer o fato de existirem muitas outras formas, também não atomísticas, de individualismo.

Para adicionar mais um enigma, algumas dessas formas são formas de holismo em algumas outras dimensões. Por exemplo, um novo economista institucionalista, embora se identifique como um individualista, é muitas vezes um holista sobre as propriedades sociais. Além disso, compromissos ontológicos e metodológicos não sempre andam juntos. Por exemplo, um individualista metodológico de algum tipo pode ser um holístico ontológico de outro tipo sem se contradizer.

Para uma ilustração mais detalhada, considere os seguintes usos do termo “holismo”, também encontrado no discurso institucionalista. Primeiro, o “holismo” está sendo usado como um nome para a visão de entidades sociais (como grupos, organizações e instituições) ou propriedades sociais (aquelas envolvendo relações sociais) com existência independente (holismo ontológico) ou deve ser referido como a explanação fundamental nas explicações científicas sociais cuja metodologia é o holismo.

Em segundo lugar, o termo é usado para se referir a uma abordagem direcionada para grandes “todos” de modo a serem abrangentes. Tal abordagem evita concentrar-se em fragmentos estreitos da realidade económica, separados dos estruturas e processos sociais ou de toda a cultura circundante. Consequentemente, a insistência em estudar a economia em íntima relação com os interesses políticos, sociais e aspectos culturais e morais da sociedade se dá no sentido de as afirmações relativas a estes últimos aspectos podem e devem ser usados ​​como explanação quando explicamos fenômenos econômicos.

Para criar um contraste terminológico para o primeiro uso do “holismo”, essa segunda visão também pode ser chamada de “compreensivismo” ou “ponto de vista geral” – ou algo de dimensão similar.

Terceiro, de acordo com outro significado de “holismo”, o mundo é composto de totalidades integradas ou unidades orgânicas como organismos vivos. É a tarefa de investigar não separar os elementos de tal organismos uns dos outros, mas sim estudá-los como essencialmente interligados.

Os elementos de tais totalidades orgânicas são amarrados por relações internas entre eles: as propriedades essenciais dos elementos são dependentes de tais inter-relações. Este terceiro uso de “holismo” geralmente acompanha um dos (ou ambos) outros dois usos, mas é conceitualmente distinta deles. Às vezes é chamado “organicismo“.

Dada essa pluralidade de significados do termo, a variedade precisa do alegado ou autoproclamado “holismo” da velha economia institucionalista aparece não ser tão clara. Parece todas as três noções de holismo (e mais, devido à sua variação) têm sido defendidas por esses institucionalistas.

Seu “holismo” às vezes aparece como nada mais além do “compreensivismo”, um apelo à amplitude da abordagem geral na seleção de um dos fatores explicativos. Às vezes a tese é mais forte, o de obter entidades coletivas ou unidades orgânicas como objetos de estudo. A defesa da modelagem de padrões é um exemplo disso. Estas observações nos levam à ideia de “isolamento” na economia.

3 thoughts on “Individualismo e Holismo Metodológico

  1. Bom dia! Eu achei essa imagem muito interessante. Estou elaborando o meu curso de Reiki, e gostaria de colocá-la, com os devidos créditos. Me autoriza? Grata desde já.

  2. Prezado Fernando,

    o gráfico precisa ser corrigido pois não detectamos o que é chamado de espiritualidade, nem espiritual, assim como os termos que caíram em desuso: mente e mentalidade. No lugar da espiritualidade entra em cena: amplitude cognitiva ou extensões cognitivas de cada ser.

    O SI (sistema internacional de unidades), fez profundas correções que entraram em vigor este ano. Inclusive aquilo que é subjetivo foi substituído por subespacialidade.

    A razão de não existir mente e mentalidade está na descoberta do fluxo de redes neurais, é esse fluxo que corresponde à nossa consciência, é algo detectável, está no campo subespacial físico.

    O mesmo ocorre com as dobras e torções do espaço-tempo, chamadas de ondas gravitacionais, detectadas pelo experimento LIGO https://pt.wikipedia.org/wiki/LIGO (Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory – Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferômetro Laser). Em 2015 foram detectadas as primeiras ondas gravitacionais, provando mais uma vez que Einstein estava certo.

    Em 11 de fevereiro de 2016, o projeto LIGO anunciou a detecção de ondas gravitacionais a partir do sinal encontrado às 09h51 UTC de 14 de setembro de 2015, de dois buracos negros com cerca de 30 massas solares em processo de fusão, a 1,2 bilhão de anos-luz da Terra. Detecções feitas entre 30 de novembro de 2016 e 25 de agosto de 2017 registraram um número total de fusões de buracos negros em 10. Em particular, uma fusão identificada em 29 de julho de 2017 aconteceu a 9 bilhões de anos-luz da Terra, e envolveu buracos negros com 50 e 34 vezes a massa do sol.

    Em 3 de outubro de 2017, o Prêmio Nobel de Física foi atribuído a Rainer Weiss, Barry Barish e Kip Thorne “por contribuições decisivas para o detector LIGO e a observação de ondas gravitacionais”. Até o final de 2018, seus detectores, localizados em Washington, Louisiana e Itália, haviam captado 11 ondas gravitacionais no total. O LIGO também começou a construir outro observatório de ondas gravitacionais a cerca de 480 quilômetros a leste de Mumbai, na Índia, que deve entrar em operação em 2025.

    A precisão do LIGO é impressionante, equivalente ao raio de um próton dividido por 10.000. O raio aproximado do próton mede 0,84184 femtômetro (1 femtômetro é 1 quadrilionésimo de 1 metro). Abs.

    Assista na Netflix: NOVA Black Hole Apocalypse: https://www.netflix.com/br/title/81121172

    Astrofísicos mostram como os buracos negros podem conter as respostas sobre a evolução do universo, o surgimento da vida na Terra e o nascimento da humanidade.

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