Estupidez consiste em querer concluir

O capitão concluirá algum pensamento inteligente? Concluirá o mandato?!

O capitão não possui sequer ideia sobre o verdadeiro papel das Forças Armadas!

Art. 142. As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem. A ordem é democrática!

Dois dias depois de divulgar um vídeo pornográfico pelo Twitter, com ato obsceno realizado durante o Carnaval, o capitão defendeu, perante a uma plateia de militares, a ideia estapafúrdia: “a democracia só existe pela vontade das Forças Armadas”.

“A missão será cumprida ao lado das pessoas de bem do nosso Brasil, daqueles que amam a pátria, daqueles que respeitam a família, que querem aproximação com países que têm ideologia semelhante à nossa, que amam a democracia e a liberdade. E isso, democracia e liberdade, só existe quando as suas respectivas Forças Armadas assim o querem“, afirmou, em um estúpido e rápido pronunciamento de quatro minutos, em cerimônia comemorativa os 211 anos do Corpo de Fuzileiros Navais, no 1o Distrito Naval da Marinha, no Rio.

A casta dos guerreiros-militares deve se sentir envergonhada com seu representante perante à opinião pública nacional e internacional mais lúcida. Os brasileiros inteligentes se envergonham.

O ex-ministro e ex-prefeito Fernando Haddad (PT) ironizou a curta duração da fala de Bolsonaro no evento militar. “Num longo discurso de quatro minutos, Bolsonaro diz a militares que democracia só existe se as Forças Armadas quiserem. Infelizmente, o presidente não atendeu a imprensa para explicar o raciocínio”, afirmou Haddad.

Guilherme Boulos (Psol), que também disputou as eleições presidenciais em 2018, classificou a fala como uma “tragédia”. “Quando uma mente doentia se junta ao autoritarismo político, o resultado é a tragédia que estamos vivendo.”

Deputados federais da oposição endossaram as críticas. O líder do Psol na Câmara, Ivan Valente, acusou o presidente de cometer crime de responsabilidade e atentar contra a dignidade do cargo. “A Constituição diz que ‘todo poder emana do povo’. [Bolsonaro] constrange os militares a assumirem o autoritarismo“, afirmou Valente.

A presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, disse que a democracia foi “conquistada pela sociedade brasileira”. “A democracia não é objeto de tutela ou permissão”, afirmou Gleisi.

Líder da oposição na Câmara, Alessandro Molon (PSB) afirmou que, apesar de ter jurado a Constituição ao ser empossado presidente, Bolsonaro “ou não conhece ou finge não conhecer” a Carta.

O capitão, sujeitando-se a ser uma marionete, senão do Trump, na cena mundial, do ministro do Gabinete da Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, na cena nacional. Pediu para ele explicar “sua tese”, não aprendida quando cursou a AMAN. Ele entendeu a democracia só existir quando as Forças Armadas querem. Assim, “o Brasil deve às Forças Armadas a liberdade e a democracia”.

O general então o explicou: “As Forças Armadas são, por determinação constitucional e legal, os detentores do emprego legal da violência. Pode chocar alguns, mas é o que está escrito e as Forças Armadas são responsáveis por essa manutenção”, afirmou, completando: “no caso do Brasil, é claro que as Forças Armadas são o pilar da democracia e da liberdade.”

O capitão tem de ser traduzido por um general para uma linguagem mais civilizada!

Quem melhor escreveu sobre mais este episódio vergonhoso foi Cristian Klein (Valor, 08/03/19):

“Ex-parlamentar do baixo clero, Jair Bolsonaro alcançou o cargo máximo da República tanto pelo antipetismo quanto, ou mais, pelo sentimento de rejeição da população a elites, quaisquer que sejam elas. Por um momento, assim que tomou posse, ensaiou um discurso digno dos presidentes com racionalidade, que apelam à conciliação nacional e buscam, ainda que apenas retoricamente, governar para todos. Não se sentiu à vontade no figurino.

Passados dois meses, sua estratégia dominante é cada vez mais clara: o sectarismo. Agarra-se aos apoiadores que respondem aos apelos emocionais, ouriçados por uma guerra cultural e ainda eleitoral.

A disputa não acabou porque Bolsonaro não começou a governar ou mal sabe fazê-lo. Os pronunciamentos do ex-candidato que venceu sem debater com o adversário do segundo turno são curtíssimos.

Na posse, falou ao Congresso por menos de dez minutos, o mais rápido da democratização, com um quarto do tempo médio utilizado por Collor, FHC, Lula e Dilma, que foi de 37 minutos e meio. No Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, o presidente tinha à disposição 45 minutos, e falou apenas seis (13%). Ontem, foram apenas quatro minutos na solenidade de comemoração dos 211 anos do Corpo de Fuzileiros Navais, no Rio, para uma plateia de militares à qual está acostumado.

Em vez de alargar sua cadeira, Bolsonaro a encolhe. Apequena a Presidência para caber no cargo. Mas não é apenas o quanto, mas o que Bolsonaro fala que causa espanto.

O pendor para polêmicas estéreis é inversamente proporcional às respostas que precisa dar aos problemas da nação. O candidato que fez campanha contra a ideologização e o aparelhamento estatal é o governante que dá corda para o grupo de apoiadores mais radicais, encabeçados pelos filhos políticos Carlos e o caçula Eduardo Bolsonaro, inflamados pela cruzada de extrema-direita do filósofo e guru Olavo de Carvalho.

Como bom presidente, Bolsonaro poderia escolher o caminho de ser um árbitro, um sábio, a dirimir as disputas e divergências internas. No entanto, ele mesmo incendeia o circo, num festival de tuítes desastrados como o vídeo de conteúdo obsceno postado no carnaval ou a sequência de mensagens que levou à queda do ministro palaciano Gustavo Bebianno [ex-presidente do PSL, ofertante de sua legenda].

Falta liturgia do cargo e na comunicação – algo fundamental num regime presidencialista. Bolsonaro cria um carnaval de polêmicas, crises, recuos, numa incontinência desnecessária que atrapalha e deixa de lado as respostas para os assuntos importantes.

As soluções são sempre simplistas:

  • na segurança, ampliação da posse de armas;
  • na educação, cantar nas escolas o Hino Nacional;
  • nas relações exteriores, alinhamento automático com os Estados Unidos contra o globalismo supostamente esquerdizante.

A doutrina de Olavo banha e faz a cabeça de Bolsonaro.”

— Achavam, depois do golpe, não poder piorar ainda mais o País?

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