Neurocognição: mudança de antigos conceitos das Ciências Humanas

Existem vários conceitos tradicionais redefinidos pela Neuroeconomia, da escolha intertemporal à utilidade indireta do dinheiro, tomada de decisão em estado de risco e incerteza, inclusive os comportamentos típicos citados na Teoria dos Jogos.

As mais fortes críticas à Neuroeconomia foram endereçadas por Gul e Pesendorfer (Gul, F., & Pesendorfer, W. (2005). The case for mindless economics. In A. Caplin & A. Schotter (Eds.), Handbook of economic methodology. Oxford: Oxford University Press). Eles a acusam de não fornecer um exemplo exato de aplicação em pesquisa empírica, ou seja, não ser possível “um parâmetro de escolha – como o coeficiente de aversão ao risco ou o fator de desconto – ser observado ao se visualizar atividade cerebral”.

Camerer (Camerer, C., Loewenstein, G., & Prelec, D. (2005). Neuroeconomics: How neuroscience can inform economics. Journal of Economic Literature, XLIII(1), 9–64. & Camerer, C. (2007). The case for a ‘mindful’ economics. In A. Caplin & A. Schotter (Eds.), Handbook of economic methodology. Oxford: Oxford University Press.) responde isso não ser verdade. Ele se refere à série de experimentos ligando parâmetros de escolha a processos neurais. Isso foi obtido para o grau de aversão à ambiguidade, aversão à perda, a taxa de desconto e muitos outros meios de escolha econômica.

Outra tentativa de salvar a Teoria da Racionalidade tradicional é a insidiosa tentativa de tentar demonstrar a incorporação no comportamento do cérebro dos princípios de racionalidade econômica. Por exemplo, tem sido dito existirem neurônios capazes de codificar a gratificação esperada ou o sistema nervoso usar modelos de probabilística bayesiana durante a aprendizagem sensorial motora. Se isso puder até ser justificado para tarefas elementares, comuns às outras atividades da vida, não é verdade para os mais importantes aspectos do comportamento econômico. Estes contemplam cálculos complexos e interação com um ambiente pouco previsível.

Para concluir essa resenha sobre Neurocognição em Economia, a pesquisa neuroeconômica está mudando a forma como a pesquisa econômica é realizada. Antes de tudo, é uma ajuda poderosa para a pesquisa cognitiva e experimental testar empiricamente os modelos de tomada de decisão ou ação econômica. Em segundo lugar, apresenta novos problemas e questões, como os da prevalência de processos afetivos automáticos. Isso mudará profundamente os mesmos conceitos econômicos.

Um exemplo da força avassaladora da Neurociência, particularmente intrigante, é a redefinição do conceito de livre-arbítrio à luz de alguns dados obtido de gravações EEG da atividade cerebral. Como sabemos, o livre arbítrio é uma expressão teológica, introduzida por Santo Agostinho no quinto século e fruto de suas amargas disputas com Pelágio. Posteriormente, enfrentou os violentos confrontos entre Lutero e Erasmo nos séculos XVI e XVII. Basicamente, representa a liberdade de escolha e a vontade humana.

Existem muito bem articulados argumentos filosóficos. Eles desenvolvem e definem o conceito. Um deles é o argumento determinista. Parte do pressuposto de todo evento na natureza ser determinado por seus precedentes causais e, portanto, ser impossível para o ser humano, em cada escolha, não seguir uma mesma regra costumeira. Essa visão negativa é questionada não apenas por grandes filósofos como Kant, mas também pela nossa experiência psicológica comum.

No momento da escolha, temos a sensação de nada a priori ter sido levado em conta para nossa escolha. Parece existir um momento infinitesimal, quando é gerada a decisão, mas ela é causada por nada. A Neurociência parece explicar essa sensação hoje com base em uma característica estrutural do cérebro humano, a inacessibilidade de grande parte de sua atividade cognitiva. O cérebro sempre trabalha e produz atividade psíquica – e nós não percebemos isso, inclusive durante nosso sono.

Por exemplo, através de pesquisa com EEG, tem demonstrado (Libet, B. (1985). Unconscious cerebral initiative and the role of conscious will in voluntary action. Behavior and Brain Sciences, 8, 529–566) o momento quando temos a sensação de estarmos prestes a tomar uma decisão é precedida por 300 milissegundos pela onda atividade de cérebro associada a essa decisão. Depois de outros 200 milissegundos antes do momento quando sentimos estarmos prestes a decidir, a resposta comportamental se manifesta. Então, o cérebro já começou a agir antes de termos a sensação de querermos agir.

Porque esta atividade cerebral não é acessível para nós, em um nível cognitivo, temos a sensação de decidirmos livremente. Nenhuma causa teria precedido nossa decisão, supostamente, mas não é esse o caso demonstrado pela pesquisa empírica do cérebro. Além disso, essa sensação de livre arbítrio é reforçada pela consciência de a nossa decisão anterior ter produzido o nosso comportamento subsequente.

A questão é complexa e pode haver muitas objeções, por exemplo, o livre arbítrio antecipa a primeira onda de atividade cerebral. Esta não é a hora e nem aqui é o local para abordar esse problema em detalhes. O que Riccardo Vale queria sublinhar é o impacto dos estudos neurocientíficos sobre problemas aparentemente exigentes de um longo caminho até atingir seus objetivos científicos.

A abertura gradual da “caixa preta” do cérebro proporcionará mais surpresas. Isso ajudará a mudar os antigos conceitos das Ciências Humanas, entre as quais, os da Ciência Econômica.

2 thoughts on “Neurocognição: mudança de antigos conceitos das Ciências Humanas

  1. Prezado Fernando,

    tenho a plena convicção de que não existe o que chamamos de Livre Arbítrio, por dois motivos:

    1 – A pré-posicionalidade do cérebro, toma as decisões primeiro
    2 – Nós consequentemente somos pós-posicionados quando temos a noção existencial consciente

    A pré-posicionalidade é uma malha cognitiva que realiza o pré-processamento, antecipando aquilo que posteriormente recebemos e que se transformará em impulsos focados na compreensão do que iremos fazer (nossas decisões).

    A pós-posicionalidade é o primeiro vislumbre de que existimos e o que podemos fazer.

    Podemos representar matematicamente a pós-posicionalidade da seguinte forma:

    Prep = SMN (soma da malha neural) somente nosso cérebro tem acesso à subespacialidade cognitiva, não somos informados sobre esse processo.
    Pp = {.} é aqui que começa a nossa consciência.

    O fato mais impressionante é que nós somente vamos tomar alguma decisão após a existência de nossa presença, isto é, após sabermos que estamos vivos e podemos inferir a esse respeito. Isso significa que se pp = { }, ainda não estamos aqui para decidir.

    Podemos estender essa conclusão para a inexistência do livre arbítrio:

    Livre Arbítrio = { }

    Segue uma dica: “o Pré é importante, mas o Pós é decisivo.”

    Abs. 😊

    • Prezado Reinaldo,
      nas últimas décadas a pesquisa em áreas como a Neurociência e a Economia Comportamental permitiu que cientistas hackeassem humanos e adquirissem uma compreensão muito melhor de como os humanos tomam decisões.

      Constatou-se todas as nossas escolhas, desde comida até parceiros sexuais, resultarem não de algum misterioso livre-arbítrio, e sim de bilhões de neurônios calculadores das probabilidades em uma fração de segundo. A tão propalada “intuição humana” é na realidade a capacidade de reconhecer padrões.

      Porém, o condicionamento causal pessoal apriorístico impede o livre-arbítrio? Ou a decisão a ser tomada por nós, no presente, está limitada por nosso arbítrio já decidido a priori no passado? Isso nos tira a imaginada liberdade de julgamento?

      Se o ser humano se julgar tolhido, em seu arbítrio, ele não pode mudar seu comportamento habitual? Inovar?
      abs

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