O que é risco?

O conceito de risco, em mercado financeiro, diz respeito à volatilidade quanto aos rendimentos esperados, ou seja, uma renda variável ser menor em relação à esperada.

Benjamin Graham, “O Investidor Inteligente”, afirma: “você obterá respostas diferentes dependendo de quando e para quem você pergunte o que é risco”.

No boom dos anos 90, risco não significava perder dinheiro; significava sim ganhar menos dinheiro em relação aos outros: custo de oportunidade. Muitas pessoas temiam encontrar alguém em um churrasco se gabando de estar enriquecendo mais rapidamente ao fazer day trades (compra e venda em um dia) de ações ponto-com.

De repente, em 2003, o risco tinha passado a significar o mercado acionário poder continuar a cair até destruir quaisquer resquícios de riqueza caso você ainda a conservasse em ações.

Embora seu significado possa parecer quase tão volúvel e mutante quanto os próprios mercados financeiros, o risco possui alguns atributos profundos e permanentes. Quem faz as maiores apostas e obtém os maiores lucros em um mercado de alta é quase sempre quem mais perde no mercado de baixa. Esta, inevitavelmente, ocorre em seguida.

A sensação de estar “certo” faz os especuladores se tornarem ainda mais dispostos a correr riscos adicionais, porque a confiança deles se fortalece. Se você perder muito dinheiro, então vai precisar apostar mais ainda apenas para retornar ao lugar onde estava, como o apostador viciado em jogos de azar, quando desesperadamente dobra sua aposta após cada resultado negativo.

A menos que você tenha uma sorte fenomenal, essa é uma receita para o desastre. Não surpreende um renomado financista, ao ser solicitado a resumir tudo aprendido em sua longa carreira sobre como ficar rico, tenha respondido simplesmente: “Não tenha prejuízos!” Só.

Perder algum dinheiro é inerente ao investimento em ações. Não há nada a fazer para evitar isso. No entanto, para ser um investidor inteligente, você deve assumir a responsabilidade de garantir nunca perder a maioria de seu dinheiro ou todo ele.

Para o investidor inteligente, a “margem de segurança” de Graham desempenha a mesma função da fugaz deusa hindu da riqueza: ao se recusar a pagar demais por um investimento, você minimiza as chances de sua riqueza alguma vez desaparecer ou de repente ser destruída.

O risco existe em outra dimensão: dentro de você. Se você superestima seu grau de conhecimento sobre um investimento ou sua capacidade para lidar com uma queda temporária de preços, não importa o que você possui ou como o mercado funciona.

Em última instância, o risco financeiro reside não nos tipos de investimentos possuídos, mas no tipo de investidor com o qual você se identifica. Se você deseja saber o que é realmente risco, procure o espelho mais próximo. O que olha de volta para você é o risco.

Quando você encara a si mesmo no espelho, o que deve procurar? O psicólogo vencedor do Prêmio Nobel, Daniel Kahneman, explica dois fatores característicos de decisões boas:

  • confiança bem calibrada” (Entendo esse investimento tão bem quanto penso entender?)
  • arrependimento corretamente antecipado” (Como reagirei se minha análise estiver errada?)

Para descobrir se sua confiança está bem calibrada, olhe-se no espelho e se pergunte: “Qual a probabilidade de minha análise estar certa?” Pense com cuidado nas seguintes perguntas:

  • Quanta experiência eu tenho? Qual é o meu histórico com relação a decisões semelhantes no passado?
  • Quais foram os resultados típicos das outras pessoas que tentaram a mesma operação no passado?
  • Se estou comprando, alguém está vendendo. Qual é a probabilidade de eu saber algo que essa outra pessoa (ou companhia) não saiba?
  • Se estou vendendo, alguém está comprando. Qual é a probabilidade de eu saber algo que essa outra pessoa (ou companhia) não saiba?
  • Calculei quanto esse investimento precisa subir para que eu saia empatado após os impostos e custos de corretagem?

A seguir, olhe-se no espelho para descobrir se você é o tipo de pessoa capaz de antecipar corretamente o arrependimento. Comece perguntando: “Entendi completamente as consequências se minha análise estiver errada?” Responda a essa pergunta considerando os seguintes pontos:

  • Se eu estiver certo, posso ganhar muito dinheiro. E se eu estiver errado? Com base no desempenho histórico de investimentos semelhantes, quanto poderia perder?
  • Tenho outros investimentos que me socorrerão se essa decisão estiver errada? Já possuo ações, obrigações ou fundos com um histórico comprovado de alta quando o tipo de investimento que estou considerando estiver em queda? Será que estou colocando uma parcela grande demais do meu capital em risco com esse novo investimento?
  • Quando digo a mim mesmo “você tem uma alta tolerância ao risco”, como sei que isso é verdade? Alguma vez já perdi muito dinheiro em um investimento? Como me senti? Comprei mais ou saltei fora?
  • Estou confiando apenas na minha força de vontade para evitar entrar em pânico na hora errada? Ou será que controlei meu comportamento antecipadamente ao diversificar, assinar um contrato de investimento e fazer custo médio em dólares?

Você deve sempre se lembrar, o risco é formado de doses iguais de dois ingredientes: probabilidades e consequências. Antes de investir, você deve se certificar de ter avaliado, de forma realista, suas probabilidades de estar certo e como você reagirá às consequências de estar errado.

O filósofo de investimentos Peter Bernstein tem uma outra forma de resumir isso. Ele recupera Blaise Pascal, o grande matemático e teólogo francês (1623-1662). Ele criou uma experiência mental na qual um agnóstico deve apostar se Deus existe ou não.

Essa pessoa deve colocar em jogo sua conduta nesta vida mortal; a premiação da aposta é o destino de sua alma após a vida. Nessa aposta, Pascal afirma: “a razão não tem como decidir” a probabilidade da existência de Deus. Ou Deus existe ou Ele não existe, e apenas a fé, não a razão, pode responder a essa pergunta.

No entanto, embora as probabilidades da aposta de Pascal sejam desconhecidas, as consequências são perfeitamente claras e completamente certas. Como explica Bernstein:

“Suponhamos que você aja como se Deus existisse e leve uma vida virtuosa e abstêmia, quando na verdade Deus não existe. Você terá deixado de desfrutar alguns prazeres da vida, mas também haverá recompensas. Agora, suponha que você aja como se Deus não existisse e leve uma vida pecaminosa, egoísta e de luxúria, quando na verdade Deus existe. Você pode ter se divertido durante o tempo relativamente breve de sua vida, mas quando o dia do julgamento chegar você estará em apuros.”

Bernstein conclui: “Ao tomarmos decisões em condições de incerteza, as consequências devem dominar as probabilidades. Nunca sabemos como será o futuro.” É o caso de se perguntar: há vida em outro mundo após a morte?!

Logo, como Graham lembrou ao leitor em todos os capítulos deste livro, o investidor inteligente deve focar não apenas em fazer uma análise correta. Ele também deve se proteger contra perdas caso sua análise esteja errada, como até mesmo as melhores análises estarão, pelo menos, ocasionalmente.

A probabilidade de cometer pelo menos um erro em algum momento de sua vida de investimentos é quase de 100%, e essas probabilidades estão inteiramente fora de seu controle. No entanto, você tem controle sobre as consequências do erro.

Muitos “investidores” colocaram quase todo seu dinheiro em ações ponto-com em 1999. Ao ignorar a recomendação de Graham de estabelecer uma margem de segurança, essas pessoas escolheram o lado errado da aposta de Pascal. Certas de conhecerem as probabilidades de acerto, elas não fizeram nada para se proteger das consequências do erro.

Ao simplesmente manter sua carteira permanentemente diversificada e se recusar a despejar dinheiro nas últimas e mais loucas modas do Sr. Mercado, você pode garantir as consequências de seus erros nunca serem catastróficas. Não importa o que o Sr. Mercado apronte, você sempre será capaz de dizer com muita confiança: “Isso também passará”.

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