Capitalismo Meritocrático contra Capitalismo de Compadrio: agenda pró-mercado versus agenda pró-negócios

Sintetizo em uma série de posts as principais conclusões de Luigi Zingales, ao fim dos 16 capítulos do livro “Um capitalismo para o povo: recapturando o gênio perdido da prosperidade americana”.

Os benefícios conferidos pelo capitalismo meritocrático – em princípio, o norte-americano – não são nem tão grandes nem tão difundidos como antes. Essa mudança enfraquece o apoio político ao sistema de mercado. Mas o que mais prejudica o sistema de livre mercado é a percepção de as regras não se aplicarem igualmente a todos, porque o sistema é fraudulento.

Alguém com as instruções oficiais em mãos, protestaria contra sua inocência quanto a esse trapaceio. Diria: ele nunca inventou nenhuma regra. Mas o crítico também está certo: o acusado está envolvido em uma lembrança seletiva das regras, contando com a ignorância alheia e destacando apenas as regras a seu favor. O crítico popular sente falta de justiça e emprega a única resposta disponível: desistir da economia de mercado.

Essa frustração é semelhante ao sentido por muitas pessoas cada vez mais a respeito do sistema dos EUA como um todo: o jogo parece manipulado. A maioria das pessoas não entende como é manipulada, muito menos como consertar isso, e alguns críticos de esquerda acham a resposta ser “parar o capitalismo”. Eles não entendem, ao rejeitar todo o sistema, tornam mais difícil mudá-lo. A fim de restaurar a justiça ao sistema, eles – na verdade, todos nós – precisam entender o que deu errado, em primeiro lugar.

Na Introdução a este livro, Luigi Zingales mencionou 51% dos americanos concordarem com a afirmação “As grandes empresas distorcem o funcionamento dos mercados em benefício próprio”. Essa convicção é compartilhada não apenas por aqueles costumeiramente desconfiados do livre mercado, mas também por aqueles apoiadores dele, “porque o livre mercado é o melhor sistema para gerar riqueza”.

A distinção entre uma agenda pró-mercado e uma agenda pró-negócios não escapou à atenção da maioria dos americanos. Embora as duas agendas às vezes coincidam – como no caso da proteção dos direitos de propriedade, direito humano representativo da conquista republicana contra o monopólio da riqueza por parte da nobreza dinástica e do clero – elas geralmente estão em desacordo. Uma agenda probusiness visa maximizar os lucros das empresas existentes; uma agenda  promarket, ao contrário, visa incentivar as melhores condições de negócios para todos.

Adam Smith foi promarket em vez de probusiness, como deveriam ser todos os economistas crentes em seus princípios. Mercados livres e competitivos são os criadores da maior riqueza já vista na história da humanidade. Mas para os mercados regularem a economia com uma auto-organização emergente a partir de interações dinâmicas de múltiplos componentes, o campo de jogo deve ser mantido nivelado e aberto a novos participantes.

Quando essas condições fracassam, os mercados livres degeneram em monopólios ineficientes – e quando esses monopólios estendem seu poder à arena política, entramos no reino do capitalismo de compadrio. Infelizmente, como sugere o exemplo do Citibank, uma indústria na qual o capitalismo de compadrio ganhou uma tremenda influência na última década é o financeiro. Este merece uma análise separada. Resumirei em um próximo post a crítica de Luigi Zingales à regra “too big to fail”.

Em sua linguagem metafórica, Zingales ilustra seu ponto de vista com uma estória. No topo do Grand Canyon, há uma placa, em letras grandes: “Por favor, não alimente os animais selvagens”. Em um tipo menor, explica: alimentar os animais fará eles perderem sua capacidade de procurar por comida. próprios, comprometendo sua capacidade de sobreviver em estado selvagem. Os seres humanos colocam o sinal. Se a questão tivesse sido deixada para os animais, a maioria deles provavelmente não teria nenhum sinal: é melhor aproveitar a generosidade dos turistas, e eles não se importam o suficiente com a sobrevivência de suas espécies para comerem “almoços grátis”.

O mesmo vale para os negócios. Individualmente, as empresas estão em melhor situação com os almoços gratuitos oferecidos pelo governo. Por isso, elas gastam tanto dinheiro fazendo lobby em Washington. O sistema geral de livre mercado, no entanto, está em pior situação como resultado.

Assim como seria perigoso deixar os animais determinarem as regras dos parques nacionais, é perigoso permitir os empresários ditarem as regras de fazer negócios. Eles não consideram como os resgates enfraquecem o funcionamento do mercado.

Como alimentar animais selvagens, ajudar uma grande empresa ou um país a evitar dificuldades financeiras parece caridoso, mas a longo prazo prejudica o receptor. Um país ao proteger os animais selvagens da corrupção da comida livre deve também proteger as empresas da corrupção de subsídios.

Quando a divisão do trabalho aumenta a especialização, os interesses da elite especializada e tecnicamente competente divergem dos interesses do resto do povo. Como Zingales explica no livro “Um capitalismo para o povo: recapturando o gênio perdido da prosperidade americana”, as causas dessa divergência são várias, mas o resultado é sempre o mesmo: os interesses dos especialistas se alinham cada vez mais com os dos poderosos titulares (proprietários acionistas), ou pelo menos começam a divergir dos do resto da população.

Isso vale para todos os especialistas, inclusive economistas acadêmicos, especialmente os como Zingales, professor da Escola de Chicago com demanda potencial para atender consultorias empresariais. Assim, têm um incentivo para serem influenciados pelos próprios agentes de negócios – afinal, constituem seu “objeto de estudo”.

Essa divergência não apenas leva a uma má tomada de decisão, com os interesses dos negócios entrincheirados superando o apoio ao mercado livre. Também gera desconfiança pública em relação aos especialistas e sistemas baseados em mérito. E um senso de justiça e confiança é essencial para o capitalismo de livre-mercado prosperar.

Uma divisão entre a elite intelectual e o povo pode facilmente alimentar as formas mais perigosas de populismo, especialmente quando a percepção da corrupção e o consequente ressentimento contra Washington (ou Brasília) são crescentes. Se a elite intelectual não pode ser confiável, o anti-intelectualismo prevalece e a qualidade do debate político se deteriora. Essa deterioração, por sua vez, dá à elite intelectual outra razão para se sentir superior. Esse sentimento esnobe exacerba o pensamento de grupo e estimula reações ainda mais populistas.

A solução não é se livrar de especialistas; essa cura seria pior se comparada à doença. A solução é entender os possíveis vieses e criar um sistema de verificações e balanços. Somente com um alto grau de controle popular um sistema meritocrático evita a degeneração em uma oligarquia.

A solução também é os especialistas – especialmente aqueles, como Luigi Zingales (professor da Escola de Chicago), com extensas conexões com o mundo dos negócios – reconhecerem esses riscos e lutarem contra eles. O perigo da captura torna ainda mais importante os dados estarem prontamente disponíveis para todos. Desse modo, o debate intelectual entre as diversas opiniões de especialistas necessita ser explicado didaticamente para a opinião pública, por meio de uma mídia plural e não ideológica.

A concorrência típica da abstração construída com a ideia do livre-mercado necessita ser como ocorre na maioria das Universidades americanas. E não como ocorre com a falta de debate ou mesmo de diálogo entre economistas ortodoxos e heterodoxos da academia brasileira. Aqui, a mídia boicota a opinião divergente quanto aos seus interesses de favorecimento a certos financiadores.

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