Masculinidade Americana no Fim de uma Era

O livro “Angry white men : American masculinity at the end of an era” (NY: Nation Books; 2013) de autoria de Michael Kimmel, em seu Prefácio, esclarece seu propósito.

“Sempre quando as pessoas me perguntaram sobre o assunto do meu novo livro, eu mal consegui dizer-lhes as três palavras do título antes de me presentearem com histórias de raiva cega sendo dirigida a elas, incivilidade diária testemunhada ou experimentada. Elas se sentiram, ouviram ou expressaram indignação. Eu ouvi muitos gritos nos corredores do Congresso contra os caras falando na TV ou em entrevistas de rádio. Eles falaram em terem ficado furiosos com manifestações, confrontados por contra-argumentos de moderadores igualmente enfurecidos.

Já ouvi falar de pessoas se comportando de forma assassina em estradas, de meus amigos terem medo de se sentar nas arquibancadas nos jogos de hóquei dos filhos ou entrarem nos bastidores de suas partidas de futebol. E quase todos se queixam de trolls da Internet. Os escondidos em anonimato se escondem em comentários de sites de notícias e blogs prontos para atacar violentamente qualquer um com quem possam discordar.

As pessoas me disseram estarem mais irritadas como jamais estiveram. Alguns sujeitos estavam preocupados por eles estarem muito mais irritados, mesmo quando se lembram da irritação com seus pais. Outros tentaram manter um limite entre a raiva política e a fúria contra suas famílias, embora até mesmo a fronteira pareça, para alguns, indescritível. “A pressão sanguínea nacional está elevada”, disse meu amigo Dan, um médico dado a metáforas fisiológicas. “É assustadoramente alto. Os betabloqueadores culturais estão em ordem.”

Esse aumento na raiva americana foi amplamente divulgado – e com raiva! Os acusadores (e acusados de raiva doentia) colocam a culpa em corporações gananciosas, legislaturas impassíveis, governos locais e estaduais cruéis e furiosos, mudanças demográficas capazes de enfurecem os nativos norte-americanos, isto é, os descendentes dos WAPS responsáveis pelo genocídio dos nativos indígenas. Colocam também como bodes-expiatórios os grupos de interesse especial ao promoverem suas agendas de interesse especial, ou seja, de minorias. Principalmente, eles culpam “eles” – algum grupo, organização ou instituição capaz de agir tão notoriamente a ponto do ultrajado se sentir uma raiva justificada ou justa. Os grupos ou indivíduos mudam, porém, o sacrifício do bode expiatório tornou-se um passatempo nacional.

Eu admito também estar com raiva. Estou indignado com a arrogante santidade religiosa das igrejas protetoras dos padres ou bispos pedófilos. Eu fico impaciente esperando no telefone falar com outro “menu de opções” para registrar uma queixa e providenciar um conserto ou um cancelamento de assinaturas. Fico justamente indignado quando motoristas enlouquecidos passam por três faixas de tráfego à direita para ultrapassar um carro lento na faixa da esquerda. Tudo isso é agravado por impasse político e políticos estúpidos. Eu fico chateado quando recepcionistas em escritórios ou anfitriões em restaurantes suspiram alto com minha inocente solicitação para eles realmente fazerem o trabalho deles e ligarem para a pessoa à espera do meu encontro ou me encontrar em uma mesa reservada para comer. Geralmente, não sou uma pessoa mal-humorada, mas às vezes parece todas as outras pessoas serem presunçosas, arrogantes, irritantes, incompetentes ou politicamente insanas – às vezes, todas as opções acima.

Muitas vezes fico com raiva da política. Como eu não posso? Fico indignado com republicanos intransigentes e obstrucionistas no Congresso. Eles não admitem o mandato recebido pelo presidente Obama em sua fuga de elegerem a alternativa Mitt Romney. Fico irritado com uma maioria democrata impotente e sem fôlego. Ela parece não conseguir assumir esse mandato. Falo da influência desmedida de um bando de defensores armados altamente organizados sobre as políticas públicas, mesmo quando a opinião popular oscila para o outro lado.

Há outras emoções além da raiva, é claro. Fico angustiado quando leio sobre jovens negros assassinados pela polícia. Fico solidário com gays e lésbicas ainda alvos de violência por vizinhos odiosos por eles amarem quem amam. Fico dilacerado com histórias de mulheres estupradas, espancadas e assassinadas, muitas vezes pelos mesmos homens chorosos a dizerem as amarem. Fico horrorizado quando as pessoas são explodidas simplesmente por correr em uma corrida ou as crianças são massacradas simplesmente por estarem na escola.

Por outro lado, também estou ciente de, apesar de tudo, provavelmente nunca antes foi melhor ser uma pessoa de cor, uma mulher ou LGBT nos Estados Unidos. Sim, os velhos hábitos são difíceis de morrer e as suposições podem morrer mais duramente. Mas é um caso bem fácil de se afirmar, seja por raça, gênero ou sexualidade, a América nunca foi mais igual. Então, também estou muito feliz por ter vivido tempo suficiente para ver um homem negro na Casa Branca, mulheres liderando governos nacionais e grandes corporações, assim como lésbicas e gays. Homens estão proclamando seu amor pelo mundo visto hoje.

Deixe-me ser claro: não estou dizendo termos chegado a alguma utopia pós-feminista, pós-feminista e pós-civil; e menos ainda estou dizendo alguma mudança ter sido acionada e agora homens, pessoas brancas ou pessoas heterossexuais são as novas vítimas de uma “agenda” confusa. Estou simplesmente dizendo: as mulheres estão mais seguras hoje em lugar de qualquer outra época de nossa sociedade, os LGBT são mais aceitos e livres para amar quem amam e as minorias raciais e étnicas enfrentam menos obstáculos em seus esforços para se integrarem plenamente na sociedade americana.

Para ter certeza, sou temperamentalmente otimista. Como acadêmico e ativista, muitas vezes penso em otimismo como parte da descrição do meu trabalho. Como ativista, acredito, através de uma luta constante, nossa sociedade pode e será moldada em uma sociedade capaz de melhor atender sua promessa de liberdade e justiça para todos. E como acadêmico, se eu puder inspirar meus alunos a se engajarem mais criticamente com o mundo deles, e ajudá-los a desenvolver as ferramentas com as quais eles podem fazer isso, suas vidas, independentemente de como eles as desejarem, com orientações éticas obterão melhor resultado.

Certamente, o arco da história aponta para uma maior igualdade. Lentamente sim e intermitentemente. Mas definitivamente.

Esse comentário me leva a uma discussão não sobre o título do livro, mas sobre o subtítulo do livro. Se este é um livro sobre a masculinidade americana “no fim de uma Era”, qual Era, exatamente, está acabando? E por que isso está acabando? E está terminando uma coisa boa ou ruim?

De certo modo, estas perguntas são feitas tarde demais. Eu não estou narrando uma mudança a chegar. Estou descrevendo uma mudança, em muitos aspectos, já acontecida. É um negócio já feito. Acabou a Era do direito masculino inquestionável e incontestável. Este é um livro sobre aqueles homens ainda não cientes disso – ou sentem “a mudança no vento” e estão determinados a “conter a maré”.

O fim dessa Era deixa aqueles de nós beneficiários da dramática desigualdade social característica da sociedade americana por tantos anos – nós, homens brancos heterossexuais – com uma escolha a fazer.

Sabemos como será o futuro daqui a vinte anos:

  • o casamento entre pessoas do mesmo sexo será uma política nacional (e nem o casamento heterossexual nem a família nuclear tradicional terão evaporado),
  • pelo menos um quarto de todos os membros da Diretoria corporativa serão mulheres,
  • as universidades e até os militares terão descoberto como julgar a agressão sexual,
  • ex-imigrantes ilegais terão um caminho para a cidadania, e
  • todas as minorias raciais e étnicas (exceto talvez os muçulmanos, ainda, infelizmente, sujeitos a ódio vingativo) serão mais totalmente integradas.

Então, nossa escolha é simples: nós também podemos ser arrastados, chutando e gritando contra aquele futuro esperado de maior igualdade e, portanto, maior liberdade para todos, ou subir com a maré, descobrindo, ao longo do caminho, o futuro ser realmente mais brilhante para nós também. Os dados a respeito são abundantes para demonstrar quanto maior o nível de igualdade de gênero em uma sociedade, seja em um relacionamento, seja em um casamento, menores são as taxas de depressão e maiores as taxas de felicidade.

Este é um livro sobre aqueles homens a se recusarem ser arrastados, chutando e gritando contra aquele futuro inevitável. Eles são homens brancos nem um pouco felizes com a maneira como as marés se transformaram. Eles veem um pequeno conjunto de ondas como um gigantesco tsunami prestes a passar sobre eles.

É um livro sobre como a sensação de pressuposto direito por raça ou sexo distorce a visão de uma pessoa.

Os direitos raciais e de gênero não conhecem nenhum sistema de classe: os homens brancos da classe trabalhadora podem experimentar essa sensação de direito diferentemente dos homens brancos da classe alta, mas também existem muitos pontos em comum, muitos pontos de contato. Homens brancos de todas as classes se beneficiam de um sistema baseado na desigualdade racial e de gênero. Não importa se somos encanadores da classe trabalhadora ou financistas associados às grandes corporações, crescemos para esperar o mundo ser justo. Esse trabalho duro e honesto e a disciplina trarão prosperidade e estabilidade. É difícil para muitos nós perceber: realmente estamos nos beneficiando unilateralmente de uma desigualdade dramática.

Pense nisso como se você estivesse correndo em uma corrida. Você esperaria todos jogarem segundo as mesmas regras: começarem na linha de partida e correrem da melhor maneira possível, e o corredor mais rápido venceria a corrida. Você se irritaria se alguns grupos tivessem um ponto de partida diferente, permitissem entrar onde quisessem ou se pudessem amarrar os pés dos outros juntos – ou se algumas pessoas corressem em uma direção com o vento em suas costas, enquanto o resto de nós tenhamos e correr com um forte vento contrário.

Pode ser difícil para os homens brancos perceberem, independentemente de outros fatores, termos corrido com o vento em nossas costas todos esses anos. O que pensamos ser “justiça” para nós foi construído nas costas dos outros. Não abriguemos ilusões como “meritocracia” e “justiça”, se sabemos, desde o nascimento, o sistema estar contra “os outros”: mulheres, gays, lésbicas, negros, latinos, etc. O “campo de jogo nivelado” tem sido tudo menos mantido o mesmo nível para todos – e nós temos corrido ladeira abaixo, com o vento, em ambas as direções.

Esforços para nivelar o campo de jogo podem parecer a água estar subindo a colina, como se fosse uma discriminação reversa contra nós. Meritocracia é uma droga quando você é, de repente, um dos perdedores e não um dos vencedores. Na verdade, não parece uma meritocracia.

Nós não apenas herdamos o privilégio como um direito inato nunca examinado. É menos sobre o “ter”, ou “não ter”, e mais sobre uma postura, um relacionamento com a “sorte do berço”. Mesmo quando não nos considerávamos privilegiados, pensávamos em nós mesmos como tendo direito ao privilégio, com direito a ocupar as posições de liderança.

Só porque todos no poder eram brancos e masculinos, não significava todo homem branco e heterossexual se sentir poderoso. Isso é uma falácia lógica e também politicamente imprecisa. (A falácia composicional sustenta: se todos forem Bs, não é necessariamente o caso de todos os Bs serem As. Um exemplo: “todos os membros da máfia são italianos; nem todos os italianos são membros da máfia”). Homens brancos não se sentirem poderosos não torna menos verdade a comparação com outros grupos. Comparativamente, eles se beneficiam da desigualdade e são, de fato, privilegiados.

Essa Era está chegando ao fim, o “fim de uma Era” ao qual o subtítulo deste livro se refere. Não é o fim da Era dos “homens” – como no debate mal enquadrado recentemente sobre “o fim dos homens”. É o fim da Era do direito dos homens, a Era quando um jovem poderia assumir, sem dúvida, não ser apenas “um mundo de homens”, mas um mundo de homens brancos e heterossexuais.

É o fim do mundo exclusivo de homem branco da elite. Hoje, isso é verdade, esses homens brancos têm de compartilhar algum espaço com os outros. Mas não é mais um mundo de privilégios masculinos inquestionáveis. Os homens podem ainda estar “no poder”, e muitos homens podem não se sentir poderosos, mas é o senso de direito: a sensação de, embora eu não esteja no poder no momento, eu merecer estar, e, se eu não estiver, algo está definitivamente errado – isso está chegando ao fim. É um mundo de expectativas diminuídas para todos os homens brancos. Eles se beneficiaram de um sistema desigual por tanto tempo.

Ainda há muitos, na atual geração masculina, sentindo-se enganado pelo fim do direito. Eles ainda se sentem habilitados e, assim, identificam-se social e politicamente com aqueles acima deles, mesmo caso tenham se unido economicamente às fileiras daqueles historicamente abaixo deles.

Este é um livro sobre aqueles homens brancos irados, homens experimentando um senso do chamado aqui de “direito agravado”: aquele senso de direito não possível mais ser assumido e improvável ser cumprido. É sobre ações defensivas de amargura e raiva, sobre “dedos empurrados nos diques em ruínas”, tentando, futilmente, conter a crescente onda de maior igualdade e maior justiça.

Mas se este é o fim de uma Era, a Era do senso de inquestionável direito dos homens, é o começo de outro, o começo do fim do patriarcado, a suposição inquestionável sentida pelos homens para acessar posições de poder, para encurralar nos escritórios os corpos das mulheres. Essa suposição casual de todas as posições de poder, riqueza e influência estão reservadas para nós, homens. Logo, a presença das mulheres deve ser resistida, se possível, e apenas tolerada, se não for possível impedi-la.

Há uma saída para os homens brancos, creio eu, uma maneira de recusarmos baixar o volume e redirecionar nossa raiva para alvos mais apropriados. Neles encontraremos nosso caminho para vidas mais felizes e saudáveis. Os dados são convincentes: a maioria dos homens americanos, silenciosamente, e sem muita fanfarra ideológica, se acomodou a uma maior igualdade de gênero, tanto em suas relações pessoais, quanto em suas relações de trabalho, em situação melhor de qualquer geração anterior a eles. Quem o fez está realmente mais feliz com isso – mais feliz com suas vidas como pai, parceiro e amigo. A igualdade de gênero e racial não é boa apenas para pessoas de cor e mulheres, mas também é boa para pessoas brancas e homens – e, acima de tudo, para nossos filhos.

Talvez seja esse o sentimento do escritor de Greenwich Village, Floyd Dell, quando estava pensando em sua mesa na véspera de uma das grandes manifestações do sufrágio feminino na cidade de Nova York em 1916. Um conhecido escritor boêmio, Dell também foi um dos fundadores da revista “Liga dos Homens para o Sufrágio Feminino”. Ele marchou com as mulheres em apoio ao seu direito de voto. Em um artigo publicado, chamado “Feminismo para Homens”, ele apresentou uma linha capaz de captar meu argumento. “O feminismo, pela primeira vez, permitirá aos Homens serem livres”.

Talvez hoje possamos qualificá-lo um pouco e dizer “mais livre”, mas também adicionaremos mais felicidade e saúde… e menos raiva.

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