Vantagem Educacional Competitiva no Mercado de Trabalho: Carência do Talento Digital

Thais Carrança (Valor, 07/03/19) informa: trabalhadores com ensino superior ganham bem mais que aqueles com ensino médio tradicional ou técnico e, em situações de crise econômica, têm mais chances de se manter no mercado de trabalho, preservando seus rendimentos. Essas são algumas das razões pelas quais é necessário dar continuidade às políticas públicas de acesso ao ensino superior, afirmam especialistas.

Quem faz ensino superior no Brasil ganha em média o dobro de quem fez ensino médio técnico e 150% a mais do que quem completou apenas o ensino médio tradicional, mostra levantamento feito pelo Centro de Políticas Públicas (CPP) do Insper.

Para realizar o estudo, a equipe do CPP, coordenada pelo economista Naercio Menezes Filho, utilizou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua de 2014, que permite diferenciar os rendimentos daqueles com ensino médio tradicional e técnico. A modalidade de ensino técnico considerada é a subsequente, em que o aluno cursa a formação técnica depois de ter concluído o ensino médio tradicional.

Em 2014, o salário médio da população com 25 anos ou mais era de R$ 1.866 mensais. Quem fez o ensino médio tradicional, não técnico, tinha rendimento médio de R$ 1.671. Já quem tinha o ensino técnico completo ganhava em média R$ 2.065, ou seja, 24% ou R$ 394 a mais. A renda média de quem tinha ensino superior era de R$ 4.181, o dobro de quem tinha ensino técnico e 150% a mais do que aqueles com ensino médio tradicional.

Os retornos de renda do ensino superior são menores para quem é mais pobre e maiores para quem é mais rico. Comparando com quem tem apenas o ensino médio tradicional, os mais pobres com ensino superior têm renda 38% maior. Enquanto isso, os mais ricos chegam a ganhar 200% mais, já que costumam cursar as melhores universidades do país e ter acesso às carreiras com maiores salários, como medicina, direito e engenharia.

Ainda assim, o ensino superior é sempre mais vantajoso que o técnico. Controlando para fatores como gênero, raça, idade e se a pessoa mora em zona urbana ou rural, o estudo revela que o menor retorno obtido por quem tem ensino superior (R$ 703) ainda assim é superior ao maior retorno de quem tem o ensino médio técnico (R$ 599).

Parece valer mais a pena fazer ensino superior, mesmo que a pessoa não tenha um ‘background‘ familiar muito bom, que tenha passado por muitas dificuldades e falta de investimento na primeira infância. Depois da pessoa ter concluído o ensino médio tradicional, os dados mostram: é melhor fazer ensino superior do que o técnico subsequente.

Embora os dados da Pnad de 2014 sugiram uma clara vantagem do ensino superior em relação ao ensino médio tradicional e técnico em termos de retornos de rendimentos, o chamado prêmio salarial da educação variou bastante ao longo do tempo, lembra Rogério Barbosa, sociólogo e pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole (CEM) da Universidade de São Paulo (USP).

Isso fica evidente no comportamento recente dos retornos da educação para quem tem ensino superior, isto é, no quanto se ganha a mais de salário por se ter mais estudo. Após forte crescimento no “milagre econômico” durante a ditadura militar, desde a década de 1990, esses retornos estavam em queda, acompanhando os avanços educacionais do período. Com mais gente educada, o “prêmio” pago pelo mercado pela educação diminuiu: questão de oferta e demanda.

No entanto, a partir de 2014, com fim da Era Social-Desenvolvimentista, iniciada em 2003, esse processo de queda do retorno da educação estanca, sem que houvesse um aumento da demanda por mão de obra qualificada. A partir de 2015, com a volta da Velha Matriz Neoliberal, o país mergulhou na crise recessiva.

Os trabalhadores com ensino superior, empregos formais, profissionais liberais ou trabalhadores em grandes empresas e com redes de contatos capazes de facilitar na hora de procurar emprego, conseguem se proteger melhor em situações de recessão.

O efeito da educação tem a ver com esse networking embutido na formação, a qualidade das instituições protetoras dos trabalhadores de diferentes níveis no mercado de trabalho. Uma parte da piora recente da desigualdade e do aumento do retorno pela educação na crise tem a ver com o fato de que as pessoas de baixo nível educacional pioraram de situação, logo, a vantagem relativa dos que estão com melhor formação aumentou.

Assim, garantir mais formalização e segurança aos trabalhadores é fundamental, porque não é só a educação que justifica a diferença de produtividade entre os profissionais. É necessário dar continuidade às políticas de acesso ao ensino superior iniciadas nos regimes socialdemocratas.

É preciso continuar aumentando vagas. Já houve um grande aumento nos anos 1999-2014, e o diferencial de salário continuou elevado. Tem espaço ainda para aumentar bastante as matrículas no ensino superior. É necessário ainda a continuidade das políticas de ação afirmativa para minorias.

A discussão sobre políticas públicas para a educação de nível mais avançado não deve se resumir a uma oposição simples entre a opção por mais ensino superior ou técnico.

Países como Colômbia (28%) e Chile (30%), Portugal (34%), Estados Unidos (48%) e Coreia do Sul (70%) têm níveis de população entre 25 e 34 anos com educação superior muito acima do Brasil (17%). Em muitos desses países, os elevados percentuais refletem uma diversidade de modelos de ensino superior, para além do universitário. Este é mais caro, porque é baseado no tripé ensino, pesquisa e extensão.

Nesse sentido de criação de outras modalidades, o sistema de ensino superior brasileiro é muito deficiente. Por exemplo, cursos tecnológicos, mais curtos, o governo federal praticamente não oferece. Quase toda a oferta que se tem no Brasil hoje, que é pouca, é do setor privado. O governo poderia investir muito mais em oferecer alternativas de formação de nível superior mais práticas, mais curtas. Mas o imbecil dirigente do MEC, no governo do capitão, só pensa em formação ideológica anticomunista à la anos 50!

Ao contrário dessa direção retrógrada, Vívian Soares (Valor, 08/03/19) adverte: a chegada das redes 5G ao mercado — e todas as aplicações que elas permitirão aos negócios, incluindo projetos de inteligência artificial, robótica e internet das coisas — foi o centro das discussões de executivos durante o Mobile World Congress (MWC), maior evento de tecnologias móveis do mundo, com sede em Barcelona, na Espanha.

O 5G já venha sendo a estrela dos debates de executivos de todos os setores nas últimas edições do MWC. Em 2019, as lideranças se mostraram preocupadas com a falta de um item essencial para a implementação das inovações tão desejadas pelos negócios: o talento na área. Para tanto, é preciso intimidade com a tecnologia.

As redes 5G têm repercussão em todos os setores, especialmente em áreas como consultoria, serviços financeiros, indústria e, claro, tecnologia. Com redes mais velozes e maior volume de dados, tecnologias como carros, fábricas e máquinas agrícolas autônomas passam a ser realidade palpável para a indústria, assim como cirurgias complexas a distância e vendas via realidade virtual, por exemplo. Mas a ‘crise do talento digital‘ não se trata apenas da já conhecida falta de especialistas em áreas como desenvolvimento de softwares ou análise de dados, mas de uma grave escassez de competências que são essenciais para que as companhias empreendam a sua transformação digital.

Esse perfil desejado e escasso é o chamado ‘data-driven‘, ou orientado a dados. Independentemente do setor, essa habilidade hoje é indispensável. Principalmente quando se trata de posições executivas, o profissional deve saber como o acesso a mais dados, em uma velocidade maior, pode influenciar as decisões estratégicas da empresa – para, então, ser capaz de criar e inovar.

Enquanto no passado o foco estava na busca de perfis de liderança, hoje as empresas querem profissionais que:

  1. saibam lidar com a mudança constante e
  2. trabalhem em times diversos, com curiosidade intelectual e perfil empreendedor.

O empreendedor interno é a menina dos olhos das grandes corporações hoje, e uma das grandes apostas das escolas de negócios em seus programas de inovação corporativa. Hoje, 80% dos melhores alunos de MBA têm esse perfil, que une intimidade com as novas tecnologias e a visão ampla de negócios de um futuro CEO.

O perfil mais valorizado é quem consegue atuar como um ‘intérprete’ entre duas áreas:

  1. a das inovações tecnológicas como inteligência artificial e internet das coisas e
  2. a dos resultados palpáveis e lucros para os negócios.

Durante o 4YFN, evento paralelo do Mobile World Congress voltado a startups e protótipos que só irão ao mercado nos próximos quatro anos, a empresa de automóveis alemã Daimler exibiu vários projetos de empreendedores internos. Ele ganha ‘patrocínio interno’ para desenvolver sua startup, um programa de fidelidade que incentiva o transporte sustentável.

Quem tem formação em negócios e até então atua como gerente de produto deve ter sempre interesse em novas tecnologias. A motivação essencial para um empreendedor interno é ter apoio e segurança para poder errar ou até celebrar fracassos, desde que eles sirvam de aprendizado. Se a startup não der certo, poder voltar para a antiga posição. Não precisa ter medo de não ter mais emprego.

A ascensão desse perfil ‘tradutor’ é um sinal de que não é preciso mergulhar no mundo do 5G e dominar aspectos técnicos como um engenheiro de telecomunicações, mas conseguir visualizar todas as possibilidades que essa nova era traz para os negócios.

O acesso aos dados não traz valor para a companhia. É preciso discernimento para transformá-los em ações e decisões de negócios. De certa maneira, é preciso desenvolver uma lógica de software nas pessoas.

Para tanto, são necessários treinamentos em 5G, automação e dados. Cabe oferecer formações técnicas e empresariais para engenheiros, para atender o interesse por parte de altos executivos em entender os conceitos básicos e a aplicabilidade dessas novas tecnologias.

A transformação digital pode acontecer de cima para baixo, partindo de uma decisão da liderança em reinventar o negócio, mas as transformações realmente ‘disruptivas’ partem dos cargos mais operacionais, quando os funcionários passam a questionar atividades repetitivas e redundantes. Muitos já percebem que algumas de suas atividades poderiam ser automatizadas e realizadas por softwares, enquanto anseiam por se dedicar a funções mais estratégicas.

Boa parte deles, porém, ainda lida com o medo de ser substituído pela automação, o que pode prejudicar tanto negócios como carreiras. Na prática, o profissional quando teme a inovação está mais ameaçado de perder o seu posto.

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