Sabe com qual populismo você está falando?!

Luigi Zingales, no livro “Um capitalismo para o povo: recapturando o gênio perdido da prosperidade americana” (A capitalism for the people : recapturing the lost genius of American prosperity. Library of Congress Cataloging-in-Publication Data; 2012), afirma: fora dos Estados Unidos, o populismo é geralmente associado a dois extremos igualmente ruins.

Por um lado, há o populismo reacionário. Ele pode se desenvolver quando líderes maquiavélicos alimentam sentimentos primitivos – racismo, medo, intolerância religiosa – para construir apoio a um regime impopular. Um exemplo é o peronismo, o movimento iniciado na década de 1940 na Argentina por Juan Perón, na época secretário do trabalho. O peronismo explorou o nacionalismo argentino para promover uma forma de nacionalismo corporativo, obscurecendo as distinções entre corporações e governo. Os movimentos fascista e nazista eram formas mais assustadoras de populismo reacionário.

Por outro lado, existe o populismo de esquerda. Ele joga com a inveja e com a luta de classes, colocando malsucedidos contra bem-sucedidos, em um esforço para destruir a meritocracia e introduzir uma nova alocação política de recursos. A forma mais extrema de populismo de esquerda foi a louca Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung. Entre 1966 e 1976, exterminou a elite intelectual da China e custou milhões de vidas ao país.

A América também teve sua parcela de populismo de direita, incluindo o da Ku Klux Klan e do político segregacionista George Wallace. Mas há outra tendência, mais positiva na história americana, estendendo-se de volta à própria Revolução Americana, na qual a elite e os não-elites formaram uma aliança contra o poder colonial.

Longe dos próprios populistas, os Pais Fundadores dos Estados Unidos projetaram um sistema de freios e contrapesos para impedir uma degeneração da nova república conduzida pela multidão. Não obstante, havia elementos populistas na luta dos colonos contra a Coroa Britânica. Eles viam como um conflito. entre liberdade e poder, satanizando este com um preconceito evangélico manipulado.

Com a eleição de Thomas Jefferson como presidente em 1800 e o subsequente desaparecimento do Partido Federalista, as tendências populistas da Revolução Americana tornaram-se populares. Esses elementos populistas ressurgiram com a eleição de Andrew Jackson em 1828 e, mais tarde, com a criação do Partido do Povo (1891), com o qual o Partido Democrata fundiu-se, em 1896, nomeando William Jennings Bryan como seu candidato presidencial.

De fato, ao invés de exceção, o populismo tem sido a regra da política americana. As duas exceções foram períodos de crescimento, prosperidade e mobilidade social sem precedentes:

  1. a Era da Fronteira, com a conquista do Oeste e o massacre dos nativos e mexicanos, até 1890, e
  2. a Era de Ouro industrial entre 1945 e 1970.

Graças a essa tradição, os movimentos políticos populistas norte-americanos tendem a ser bem diferentes daqueles de outros lugares.

No entanto, apesar dessa tradição legítima, o termo populismo ainda tem uma conotação negativa para muitos americanos. Em parte, isso ocorre porque alguns dos movimentos populistas do país foram representados por personalidades defeituosas ou destrutivas – do governador da Louisiana, Huey Long, acusado de suborno e tendências ditatoriais, ao padre antissemita Padre Charles Edward Coughlin.

Outra razão é os movimentos populistas, sobretudo na América Latina, terem um histórico econômico terrível. Programas populistas com prioridade na redistribuição da renda, como muitos fora da América, podem ter um efeito positivo de curto prazo no consumo privado dos pobres. Naturalmente, eles tendem a consumir uma porcentagem maior de sua renda do que os ricos. Juntamente com os gastos maciços do governo, porém, os programas redistributivos criaram enormes déficits fiscais. Esses déficits eventualmente forçam o governo a cortar despesas e aumentar impostos.

Então, enquanto a economia se reverte do crescimento econômico para o desemprego, o eleitorado populista, constituído em sua maioria pelos próprios trabalhadores, se encontra em situação pior. A redistribuição de renda também reduz o incentivo das empresas para investir, o que, por sua vez, reduz a produtividade dos trabalhadores e seus salários reais. Esta é a típica interpretação neoliberal, inclusive a referente ao ocorrido no Brasil após 2015, quando um golpe semiparlamentarista tirou a Presidenta eleita do Poder Executivo.

Se é bem compreendido as políticas econômicas populistas terem desencadeado tais problemas, por que os líderes populistas não mudam as políticas? Um artigo recente levanta, em primeiro lugar, a hipótese dessas políticas serem necessárias para os líderes populistas serem eleitos.

Em sociedades divididas onde o poder da elite entrincheirada é grande, os políticos precisam sinalizar aos eleitores eles não estarem em conluio com essa oligarquia. Se não defenderem políticas beneficiárias, imediatamente, à classe mais baixa, mesmo com custos maiores, os líderes populistas não conseguirão se diferenciar da elite dominante. Em suma, as formas mais danosas de populismo se manifestam em sociedades onde uma elite fechada governa, separada do resto da população.

“Somente em um país com uma tradição populista confiável, os movimentos populistas podem evitar programas radicais e contraproducentes. É graças à tradição populista moderada dos Estados Unidos”, ressalva o imigrante italiano puxa-saco dos norte-americanos, “temos uma Declaração de Direitos. É graças a essa tradição que inventamos a lei antitruste antes que os economistas elaborassem plenamente as razões pelas quais era uma boa ideia. E é graças a essa tradição que os senadores não são mais indicados, mas eleitos, um processo que limita a corrupção”.

Luigi Zingales insiste: mesmo nos Estados Unidos, o populismo normalmente não tem sido pró-mercado. Em uma época quando os mercados não eram tão competitivos, a revolta populista contra o poder excessivo das grandes corporações trouxe a primeira agência governamental (a Comissão de Comércio Interestadual) e o primeiro regulamento a manter baixos os preços ferroviários. Espremidos pelos mercados globalizados, os agricultores buscavam proteção no governo. A percepção do público era de os interesses das pessoas comuns estarem melhor protegidos através do processo político em vez de serem através do mercado. Por essa razão, o populismo americano tendia a apoiar um governo ativista.

Hoje (Zingales escreveu este livro antes da eleição do Donald Trump, um bilionário populista de direita), a situação é bem diferente, abrindo a possibilidade de um populismo totalmente pró-mercado. A percepção dos americanos em relação aos mercados permanece positiva.

De acordo com uma pesquisa realizada como parte do Chicago Booth / Kellogg School Trust Index, 46% dos americanos concordam com a afirmação “o sistema de livre mercado é a melhor maneira de proteger os interesses dos americanos comuns”, enquanto 22% discordam. A confiança do público no governo, pelo contrário, é baixa. Mais de 50% dos americanos declaram confiar muito pouco no governo ou não o fazem. Esta falta de confiança é devida, pelo menos em parte, à percepção de o governo atuar no interesse de algumas grandes corporações ou interesses especiais e não no interesse do país como um todo.

Em dezembro de 2008, por exemplo, quando perguntaram aos americanos em cujo interesse eles pensaram o secretário do Tesouro, Henry Paulson, ter agido durante a crise financeira, 50% responderam: “no interesse da Goldman Sachs”. Em dezembro de 2009, 32% responderam “no interesse do setor financeiro” e 22%, “no interesse dos sindicatos”.

O apoio às grandes empresas é praticamente inexistente. Apenas 16% dos americanos confiam em grandes corporações (um número menor face à porcentagem de pessoas confiantes no governo) e 53% concordam com a afirmação: “as grandes empresas distorcem o funcionamento dos mercados em benefício próprio”.

É possível construir uma agenda política populista que reflita esse apoio aos mercados livres e a desconfiança do governo e das grandes empresas? É possível projetar políticas que restabeleçam o equilíbrio econômico em favor do cidadão comum sem uma intervenção massiva do governo, o que interferiria na liberdade econômica e suprimiria o crescimento? Em suma, é possível recuperar o gênio perdido da prosperidade americana?

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