Socialismo X Populismo

Alexandria Ocasio­Cortez, a linda latina ex-garçonete de bar do Bronx, de 29 anos, saiu do zero para ser identificada pela onipresente sigla AOC, o que diz muito sobre o apetite por mudanças nos EUA. Ela é hoje a figura mais influente na política dos EUA, depois de Donald Trump.

Bertrand Badie diz: “pela primeira vez na história do mundo, um fenômeno político atinge ao mesmo tempo países tão diferentes quanto Estados Unidos, os da Europa Ocidental, o Brasil, a Turquia, muitos países do Norte, do Sul, do Leste e Oeste. É uma coisa única, um fenômeno quase universal.

Estamos na quarta etapa do populismo: a história do mundo é ritmada por sequências populistas, a primeira no fim do século XIX, a segunda entre as duas guerras, a terceira em alguns países do Sul depois da Segunda Guerra Mundial [1939-1945], e agora estamos na quarta fase, ou seja, tem também um elemento histórico.

O populismo traz uma contradição extremamente forte com a globalização — populismo e globalização são como a água e o fogo, uma contradição que pode prejudicar a globalização e levar o populismo a um impasse, ou seja, a uma incapacidade de gerir a política.

Os populismos trazem junto o crescimento do nacionalismo e da extrema-­direita ao redor do mundo. A esquerda não soube oferecer uma perspectiva moderna sobre a globalização. Então, todo o debate foi levado entre uma direita globalizada e liberal versus uma direita nacionalista e hostil à globalização. A esquerda, quase em todos os lugares do mundo, ficou fora da corrida.

O populismo não descreve nem um regime nem uma doutrina, mas uma situação de crise, de falta de confiança entre o povo e suas instituições. Essa situação leva a métodos de mobilização idênticos, tem sempre:

  1. a personalização da liderança política,
  2. a mobilização da população e
  3. uma forte estratégia de comunicação de massa.

Mas, depois disso, as fórmulas são enormemente diferentes.

No mundo ocidental, vemos poucos populismos de esquerda, como por exemplo o France Insoumise e alguns partidos na Escandinávia. Mas a maioria deles é de direita, muito liberais, como o do presidente Jair Bolsonaro ou como o governo da Áustria, liderado por um partido populista que é ultraliberal. Ou Trump nos Estados Unidos.

Além disso, vemos populismos que aceitam o jogo democrático e outros extremamente autoritários, como Vladimir Putin, na Rússia, e Erdogan, na Turquia. Mas todos eles têm em comum o fato de exagerar o peso da nação no contexto da globalização.

O populismo é um risco para os valores democráticos incontestavelmente. A raiz do populismo é uma desconfiança em relação às instituições, o que se traduz em uma marginalização das instituições da democracia a favor do que chamamos de democracia direta, uma ligação direta entre o povo e o líder. Efetivamente isso se traduz, em todos os lugares, por um desprezo pelo parlamento, uma hostilidade contra as mídias, acusadas sempre de complô.

É só olhar os EUA, onde Trump está sempre em guerra com o Congresso e a CNN ou o “Washington Post”. Essa atitude contra as instituições cria prejuízos à democracia, já que ela só existe por meio do respeito às instituições. 

Muitos desses governos chegaram ao poder com eleições. Na Itália ninguém pode contestar o processo pelo qual [os vice- primeiros-ministros] Matteo Salvini e Luigi Di Maio chegaram ao poder, a partir de um respeito à democracia.

Mas é próprio dos populismos considerar o povo e a nação como bens superiores; a democracia é vista como um valor secundário. Os populistas não respeitam a gramática democrática, isso é verdade em todos os lugares, seja na Rússia de Putin, seja no Brasil atualmente. Mas é preciso diferenciar entre os que chegaram ao poder democraticamente e os que usaram a força e a pressão para isso.

Bolsonaro é um populista verdadeiro. Macron teve um pequeno lado populista quando criticou os partidos e disse que ia mandar embora a velha classe política, mas ele não tem um projeto populista como Bolsonaro. Macron é a favor da globalização, liberal, muito pouco nacionalista. E, em relação aos costumes, ele não é homofóbico, não é racista, não é machista. Felizmente. O equivalente de Bolsonaro na França é Marine Le Pen.

Edward Luce (Financial Times apud Valor, 15/02/19) escreveu um artigo bem reacionário sobre “o alvorecer do socialismo” nos Estados Unidos! Reproduzo-o abaixo para acompanhar o debate político nos EUA, crucial para o resto do mundo.

“Quem acredita que o momento populista dos EUA já passou, deveria pensar duas vezes. Donald Trump prometeu tornar os EUA grandes novamente. Metade do Partido Democrata agora promete tornar o país socialista pela primeira vez na história. Boa parte do que se acreditava sólido agora evapora no ar. Há poucos anos, a maioria dos democratas tinha medo de se dizer liberal, o termo para esquerdista no vocabulário político americano. Agora, abraça o socialismo com naturalidade.

Eles podem acabar às lágrimas. Uma derrota para Trump em 2020 seria um túmulo precoce para o amanhecer socialista dos EUA. Até lá, contudo, os eleitores americanos deverão continuar tendo vislumbres de algo raro – um debate ideológico genuíno. Seria precipitado prever qualquer desfecho.

A principal prova disso tudo é o “New Deal Verde“, de Alexandria Ocasio-Cortez. Sob qualquer ângulo, seu projeto é absurdamente extravagante. Segundo uma estimativa, as obras públicas e novos benefícios do governo previstos no plano custariam US$ 6,6 trilhões por ano, quase 70% a mais do que o orçamento federal dos EUA, que é de US$ 4 trilhões.

Nunca se viu nada parecido no país. Ocasio-Cortez parece ter pouca ideia de como fazer para pagar os custos da proposta. Alguns dizem que o projeto é autofinanciável, porque iria estimular a economia. Outros apostam no lançamento de títulos de dívida, livre de custos. De acordo com uma teoria monetária moderna, os governos podem simplesmente emitir dinheiro novo sem causar inflação.

Poucos democratas mostram preocupação com esses detalhes, por enquanto. Depois de terem visto Trump ganhar a Presidência com sua marca característica de pensamentos mágicos, eles agora seguem os mesmos passos. É tentador depreciar isso como sendo uma longa carta de suicídio do partido. Mas isso seria subestimar o grau de inquietação nos EUA.

Quase todos os nomes democratas com ambições presidenciais no Senado – incluindo Kamala Harris, Cory Booker, Elizabeth Warren e Kirsten Gillibrand – apoiam a proposta de Ocasio-Cortez. Ela se tornou uma espécie de teste definitivo das credenciais de um candidato. Há três motivos para levar tudo isso muito a sério.

O primeiro é que o New Deal Verde já entrou no imaginário popular. Da mesma forma que Ocasio-Cortez é chamada pelas iniciais AOC, seu projeto de lei também é conhecido pela sigla em inglês, GND. Poucos políticos ou projetos ganham essa distinção. Basta pensar em John F. Kennedy (JFK) ou Franklin Delano Roosevelt (FDR).

O fato de que em poucos meses essa ex-garçonete de bar do Bronx, de 29 anos, tenha saído do zero para ser identificada pela onipresente sigla AOC diz muito sobre o apetite por mudanças nos EUA. Ela é hoje a figura mais influente na política dos EUA, depois de Trump.

O segundo motivo é que a proposta de Ocasio-Cortez é mais de uma declaração arrojada de intenções do que de uma proposta legislativa séria. Assim como se dizia que os eleitores de Trump o viam seriamente, mas não o interpretavam literalmente, o mesmo pode ser aplicado ao New Deal Verde.

Os que ficam fazendo contas podem estar deixando de perceber o principal. O objetivo do projeto é sacudir o debate nos EUA. Nesse sentido, já foi bem-sucedido. O termo “verde” não é mais uma preferência de estilo de vida. É uma parte do cálculo econômico. Na mente popular, agora há um elo entre aquecimento global e investimento público.

Terceiro, os americanos parecem ansiar por opções de escolha. Houve tempos em que as eleições americanas podiam ser caricaturizadas como Coca-Cola contra Pepsi – o gradualismo político e social dos democratas contra o livre mercado dos republicanos. Por ora, essa timidez acabou. O exemplo de Trump rendeu imitações. A escolha agora parecer ser mais entre uma dose de vodca e um suco superverde. Quando a política é moldada de forma tão incisiva, há poucos lugares nos quais se esconder.

Trump vê esse socialismo verde como a sua chance de salvação eleitoral. Os democratas querem tirar de você seus carros, suas vacas, diz ele. Além disso, vão te obrigar a viajar de trem, o que nos EUA é o equivalente a ser enviado para um gulag — os antigos campos soviéticos de trabalhos forçados.

Se o instinto dele estiver certo, Ocasio-Cortez poderia se tornar a arma secreta de Trump. Obrigar os democratas a votar no projeto de lei dela é uma oportunidade que os republicanos não vão deixar passar. Votar contra o projeto poderia afetar as perspectivas de um senador democrata na base eleitoral do partido. Votar a favor poderia torná-los intragáveis para o eleitorado americano em geral.

A história indica que os republicanos têm a vantagem tática. Mas o passado não é necessariamente um guia válido. O passado nos dizia que Trump teria poucas chances de ganhar a indicação de seu partido. Especialistas cometeram o erro de interpretá-lo literalmente, mas não vê-lo seriamente.

Hoje, a maioria da geração Y nos EUA se descreve como socialista. Na prática, estão pensando na Escandinávia e não na Venezuela. Persuadi-los a participar das eleições em números maiores é o Santo Graal da política democrata. Se Ocasio- Cortes conseguir isso, ela mudará o clima na política americana.”

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