Moldura Mental versus Fatos e Dados

Helio Gurovitz é jornalista e blogueiro do portal G. Resenhou um livro com conteúdo muito pertinente ao esclarecimento de como falsear e se contrapor aos idiotas divulgadores de “fake News“. Na verdade, quem tem a estrutura mental limitada pela ignorância, em razão de crenças infundadas e falta de estudos científicos, descarta todos os fatos e dados contrários ao seu arcabouço “intelectual”.

THE ALL NEW DON’T THINK OF AN ELEPHANT! The Essentials Guide for Progressives – George Lakoff, Chelsea Green Publishing; 2014 | 192 páginas | US$ 15

“O método é o mesmo. O presidente solta ou reverbera um tuíte de origem duvidosa. Sabe que, por ser presidente, o fato será tratado como notícia pela imprensa. Se for uma agressão à própria imprensa, com mentiras e distorções, melhor. Mais os acólitos aplaudirão, mais os adversários atacarão.

Criada a polêmica, terá polarizado a agenda do debate nacional nos próprios termos, para agradar a própria plateia. O tema pode ser a “pouca-vergonha do Carnaval”, o “Hino Nacional nas escolas”, a “mídia mentirosa” ou qualquer outro, mesmo irrelevante, desde que dê margem a controvérsia. É uma clássica manobra diversionista.

O que importa não são os fatos ou a verdade, mas o poder de despertar amor e ódio, de mobilizar cliques e curtidas, de trazer a política para o próprio terreno, ainda que (ou talvez mesmo porque) nada tenha de racional ou razoável. A estratégia de Donald Trump — tornar o país refém de seus tuítes — tem sido reproduzida por Jair Bolsonaro nas últimas semanas.

Lá como cá, a imprensa tem agido do modo como sabe agir: apontando as mentiras, os absurdos, as contradições, fazendo jornalismo enfim. Lá como cá, isso tem se mostrado insuficiente para resgatar a sanidade. Por quê?

A melhor resposta foi formulada pelo linguista americano George Lakoff e resumida em seu livro mais popular: Don’t think of an elephant! (Não pense num elefante!).

O título traduz sua ideia central. Se você diz a alguém que não pense num elefante, a primeira coisa que lhe vem à mente é o bicho levantando a tromba. Do mesmo modo, negar uma mentira apresentando a verdade é insuficiente para mudar crenças. Ao contrário, pode reforçá-las. “Se os fatos não se encaixam numa moldura, a moldura resiste, e os fatos são descartados”, escreveu Lakoff.

Moldura (em inglês, “frame”) é um conceito da ciência cognitiva. Ele se traduz como o cérebro reage a estímulos linguísticos. São ideias e valores inconscientes, não slogans, que determinam tal reação. “Mesmo quando você nega uma moldura, ativa essa moldura.”

Ainda que o jornalismo possa apresentar os fatos verdadeiros — é, afinal, sua missão —, isso é insuficiente para “reemoldurar” o debate em termos distintos dos ditados pelos tuítes presidenciais.

Fatos têm toda importância”, afirmou Lakoff. “São cruciais. Mas precisam ser emoldurados de modo adequado para que entrem no discurso público de modo eficaz.” Acreditar que apenas apresentá-los de maneira competente basta para que o cidadão “acorde” é uma ilusão.

Lakoff identificou dois tipos de arcabouço, associados simplificadamente a direita e esquerda.

  1. Nos conservadores, as crenças derivam da imagem da família com pai rigoroso.
  2. Nos progressistas, da família com pais carinhosos.

Daí, diz ele, decorrem visões distintas de segurança, economia, comportamento e outras questões polarizadoras. “Muitas das ideias que ultrajam os progressistas são o que os conservadores veem como verdade — apresentadas do ponto de vista deles.”

Para aqueles que, como Lakoff, se consideram progressistas, é inútil apenas demonstrar indignação ou espernear diante de conservadores como Trump ou Bolsonaro, se a moldura do debate continuar a mesma. “Eles não são estúpidos. Estão ganhando porque são inteligentes. Entendem como as pessoas pensam e falam.”

No último capítulo, escrito anos antes das redes sociais, Lakoff descreve alguns princípios úteis para dialogar com vozes discordantes. Resumidamente, é preciso:

  1. respeitá-las,
  2. ouvi-las,
  3. manter a calma e não entrar em gritaria,
  4. não adotar um tom de queixa,
  5. ser sincero e determinado nas próprias crenças,
  6. pensar e tratar não só de fatos, mas sobretudo dos valores — e
  7. evitar adotar a moldura do adversário ao rebater ataques.

“Não use a linguagem deles. A linguagem seleciona uma moldura — e não será a moldura que você quer.” Suas dicas se tornaram hoje importantes para os jornalistas, obrigados a lidar com presidentes que não se furtam a chamar a imprensa de “inimiga”.”

Download: Don’t Think of an Elephant! The Essentials Guide for Progressives

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