Yuval Noah Harari: Nacionalismo versus Globalismo – Nova Divisão Política

Obs.: Legenda em português (BR) nas configurações à direita.

Chris Anderson, curador das Palestras TED, entrevista Yuval Noah Harari nos chamados Diálogos TED. É o primeiro de uma série a ser feita em resposta à agitação política atual. É motivo de muita preocupação a crescente divisão neste país e no mundo. Ninguém está ouvindo o outro, não é? Não estão.

Precisamos de um tipo diferente de conversa, baseada na razão, na escuta e na compreensão em um contexto mais amplo. Isso é o objetivo destes Diálogos TED.

Não poderíamos ter ninguém melhor hoje para esse início senão o autor do livro “Sapiens“. Ele conta a história da humanidade através de grandes ideias de modo a fazer você pensar de forma diferente. A continuação é o livro “Homo Deus“. Esta é a história dos próximos 100 anos. É extremamente dramática e muito alarmante para algumas pessoas. É uma leitura obrigatória.

Honestamente, não poderíamos ter ninguém melhor para ajudar a esclarecer o que está acontecendo no mundo agora.

Yuval, estamos em New York City, 2017, há um novo presidente no poder, e ondas de choque agitando o mundo todo. O que está acontecendo?

YNH: Basicamente, o que aconteceu é termos perdido a nossa história. Os seres humanos pensam em histórias, e tentamos entender o mundo, contando histórias. E nas últimas décadas, tivemos uma história muito simples e atraente sobre o que está acontecendo no mundo.

Essa história disse: o que está acontecendo é a economia estar sendo globalizada, a política estar sendo liberalizada, e a combinação dos dois criaria o paraíso na Terra! Só precisamos continuar globalizando a economia e a liberalizando o sistema político, e tudo seria maravilhoso.

Então, em 2016, um segmento muito grande, inclusive do mundo ocidental, deixou de acreditar nessa história. Por boas ou más razões, não importa. As pessoas pararam de acreditar na história. Quando você não tem uma história, não entende o que está acontecendo.

Essa história era muito eficaz até certo ponto. De acordo com alguns dados, estamos agora na melhor época já vivenciada pela a humanidade. Hoje, pela primeira vez na história, mais pessoas morrem por comer demais do que por comer de menos, o que é uma conquista incrível. (Risos) Além disso, pela primeira vez, mais pessoas morrem de velhice do que de doenças infecciosas, e a violência também reduziu. Pela primeira vez na história, mais pessoas cometem suicídio do que são mortos por crime, terrorismo e guerra juntos.

Estatisticamente, você é seu pior inimigo. Pelo menos, de todas as pessoas no mundo, é mais provável você ser morto por si próprio, (Risos) o que é, novamente, uma ótima notícia (Risos) em comparação ao nível de violência que vimos em eras anteriores.

Mas esse processo de conectar o mundo acabou com um grande grupo de pessoas se sentindo excluído. Elas reagiram. E por isso temos essa divisão política com discursos de ódios mútuos rapidamente ruindo todo o sistema de debate civilizado.

A velha forma de se pensar sobre política, a divisão esquerda-direita, foi explodida e substituída. Como devemos pensar sobre isso? Sim, o modelo político do século 20 de esquerda versus direita agora é bem irrelevante.

A verdadeira divisão hoje é entre global e nacional, global ou local. Novamente, em todo o mundo, esta é agora a principal luta: “nacionalismo tacanho” versus “marxismo cultural globalista” nos termos de cada lado para designar seus adversários. Provavelmente precisamos de novos modelos políticos e novas formas de pensar sobre política.

Em essência, agora temos ecologia global, temos uma economia global, mas temos políticas nacionais, e isso não funciona junto. Isso torna o sistema político ineficaz, porque não há controle sobre as forças moldadoras de nossa vida.

Há basicamente duas soluções para este desequilíbrio:

  1. “desglobalizar” a economia e voltar ao protecionismo para as economias nacionais,
  2. ou globalizar o sistema político.

CA: Muitos liberais norte-americanos de esquerda veem Trump e seu governo como algo irremediavelmente ruim, simplesmente horrível em todos os sentidos. Você vê alguma narrativa oculta ou filosofia política ali que vale a pena entender? Como você articula essa filosofia? É apenas a filosofia do nacionalismo?

YNH: O sentimento ou ideia subjacente é haver algo falho no sistema político. Ele não representa mais a pessoa comum. Ele não se importa mais com a pessoa comum. Esse diagnóstico da doença política está correto. Quanto às respostas, estou muito menos certo.

Estamos vendo uma reação humana imediata: se algo não funcionar, voltamos para o antigo. Você vê isso em todo o mundo: as pessoas, quase ninguém no sistema político de hoje, têm uma visão voltada no futuro para o qual a humanidade caminha. Em quase em todos os lugares, vemos uma visão retrógrada:

  • “Vamos tornar os EUA um grande país novamente” como foi grande, nos anos 50 ou 80, em algum momento, vamos voltar para lá.
  • E você vai para a Rússia, 100 anos após Lenin, a visão de Putin para o futuro é basicamente: “Vamos voltar ao Império Czarista”.
  • Em Israel, de onde eu venho, a visão política mais polêmica do momento é: “Vamos construir o templo novamente”. Então vamos retroceder 2 mil anos! (Risos)

Então as pessoas estão pensando em um passado perdido, e, por vezes neste passado, é como se você estivesse perdido na cidade, e dissesse: “Vamos voltar ao ponto no qual eu me sentia seguro e começar de novo”. Não acho que isso funcione, mas esse é o instinto de muita gente.

CA: Mas por que não funcionaria? “Os EUA em primeiro lugar” é um slogan atraente em muitas maneiras. O patriotismo é, em muitos aspectos, algo muito nobre. Tem desempenhado um papel na promoção da cooperação entre um grande número de pessoas. Por que não poderíamos ter um mundo organizado em países, colocando seus interesses em primeiro lugar?

YNH: Por muitos séculos, até mesmo milhares de anos, o patriotismo funcionou muito bem. É claro, levou a guerras e assim por diante, mas não devemos nos concentrar muito no lado ruim. Há também muitas coisas positivas sobre o patriotismo, a capacidade de ter um grande número de pessoas que se preocupam umas com as outras, solidárias umas com as outras, e que se reúnem para ações coletivas.

Se você voltar para as primeiras nações, milhares de anos atrás, as pessoas que viviam ao longo do Rio Amarelo, na China, eram muitas tribos diferentes e todas elas dependiam do rio para sobrevivência e prosperidade, mas todas também sofriam com inundações e secas periódicas. E nenhuma tribo podia fazer algo a respeito disso, porque cada uma delas controlava apenas uma seção pequena do rio. E então, em um processo longo e complicado, as tribos se uniram para formar a nação chinesa, que controlava todo o Rio Amarelo e tinha a capacidade de trazer milhares de pessoas juntas para construir represas e canais para regular o rio e evitar as piores inundações e secas e elevar o nível de prosperidade para todos. E isso funcionou em muitos lugares ao redor do mundo.

Mas, no século 21, a tecnologia está mudando tudo isso de uma maneira fundamental. Todas as pessoas no mundo estão vivendo ao lado do mesmo rio cibernético, e nenhuma nação pode regular esse rio por si só. Estamos todos vivendo juntos em um único planeta, que está ameaçado por nossas próprias ações. Se você não tiver algum tipo de cooperação global, o nacionalismo não é a resposta para resolver os problemas, sejam mudanças climáticas ou rupturas tecnológicas.

CA: Então foi uma bela ideia em um mundo onde a maioria das questões, ocorreram em escala nacional, mas seu argumento é as questões mais importantes hoje não acontecerem em uma escala nacional, mas sim em uma escala global.

YNH: Exatamente. Todos os grandes problemas do mundo hoje são essencialmente globais, e não podem ser resolvidos a não ser através de algum tipo de cooperação global. Não apenas a mudança climática, o exemplo mais óbvio.

Eu penso mais em termos de ruptura tecnológica. Se você pensar, por exemplo, em inteligência artificial, ao longo dos próximos 20, 30 anos, excluindo centenas de milhões de pessoas do mercado de trabalho, esse é um problema em escala global. Ele vai afetar a economia de todos os países.

Igualmente, se você pensar sobre bioengenharia e as pessoas terem medo de conduzir pesquisa de engenharia genética em seres humanos, não vai ajudar se apenas um único país, como os EUA, banir todas as experiências genéticas em seres humanos, mas a China ou a Coreia do Norte continuarem a fazê-lo. Assim, os EUA não podem resolver a questão sozinhos, e logo a pressão sobre os EUA para fazerem o mesmo será imensa porque estamos falando de tecnologias de alto risco e de alto ganho. Se alguém está fazendo isso, não posso me permitir ficar para trás.

A única maneira de ter regulamentos eficazes, em coisas como a engenharia genética, é ter regulamentos globais. Se você só tiver regulamentos nacionais, ninguém gostaria de ficar para trás.

Então, isso é realmente interessante. Esta pode ser uma forma de provocar, pelo menos, uma conversa construtiva entre os diferentes lados, aqui, porque todos podemos concordar a respeito do ponto de partida de grande parte da raiva de “desqualificados brancos”, grande responsável por ter nos levados para o mal-estar onde estamos, é a preocupação legítima sobre a perda do emprego. O trabalho acabou, um modo de vida tradicional acabou. Não é de admirar as pessoas estarem furiosas com isso: descenso social em relação à geração de seus pais por causa de desemprego.

Em geral, elas culpam o globalismo, as elites globais, por causarem isso a elas sem a sua permissão. Parece ser uma reclamação legítima. Mas, contra o que os odientos estão dizendo, uma pergunta-chave seria: qual é a verdadeira causa da perda de emprego, tanto hoje como no futuro?

Se a direita culpa o globalismo, então a resposta certa, para ela, é sim fechar as fronteiras e manter as pessoas fora e alterar os acordos de comércio e assim por diante. Mas a esquerda lúcida percebe a maior causa da perda de emprego não será nada disso. A causa terá origem em questões tecnológicas. Não temos chances de resolver isso a menos se trabalharmos como um mundo conectado.

YNH: Olhando para o futuro, não serão os mexicanos ou chineses que ficarão com as vagas das pessoas na Pensilvânia, serão os robôs e os algoritmos. Assim, a menos que você planeje construir um grande muro na fronteira da Califórnia, (Risos) o muro na fronteira com o México vai ser muito ineficaz!

Nos debates antes da eleição, Trump sequer tentou assustar as pessoas dizendo “os robôs tomarão seus empregos”. Mesmo não sendo verdade, não importa para ele. Poderia ter sido uma forma bastante eficaz de assustar e instigar as pessoas: “Os robôs tomarão seus empregos!”. Ninguém disse isso em campanhas políticas recentes. É mais oportunista acusar os adversários.

Independentemente do que acontecerá em universidades e laboratórios a respeito do desemprego tecnológico, no sistema político dominante e entre o público em geral, pessoas não percebem o risco de haver uma ruptura tecnológica imensa, não em 200 anos, mas em 10, 20, 30 anos!

Temos de fazer algo sobre isso agora, em parte porque muito do ensinado às crianças hoje na escola ou na faculdade será completamente irrelevante para o mercado de trabalho de 2040, 2050. Portanto, não é algo que teremos que pensar em 2040. Precisamos pensar hoje no que ensinar aos jovens.

CA: Yuval, você tem escrito muitas vezes sobre momentos da história nos quais a humanidade tem ingressado em uma nova era, sem intenção. As decisões foram tomadas, tecnologias foram desenvolvidas, e de repente o mundo mudou, possivelmente, de uma forma que é pior para todos. Então, um dos seus exemplos em “Sapiens” é exatamente toda a revolução agrícola, a qual, para uma pessoa real que cultiva os campos, significou um dia de trabalho árduo de 12 horas em vez de seis horas na selva e um estilo de vida bem mais interessante. (Risos) Então, estamos em outro possível momento de mudança aqui, como sonâmbulos em direção a um futuro sem nenhum de nós realmente o querer?

YNH: Sim, muito provavelmente. Durante a revolução agrícola, uma imensa revolução tecnológica e econômica deu poderes ao coletivo humano, mas quando você olha para as vidas individuais reais, a vida de uma pequena elite tornou-se muito melhor, e as vidas da maioria das pessoas tornou-se consideravelmente pior.

Isso pode acontecer novamente no século 21. Sem dúvida as novas tecnologias irão dar poderes ao coletivo humano. Mas podemos acabar novamente com uma pequena elite colhendo todos os benefícios e frutos. A grande parte da população ficará em uma situação pior em relação a antes, certamente muito pior se comparada a esta pequena elite.

CA: Essas elites podem até não ser elites humanas. Elas podem ser ciborgues ou…

YNH: Sim, elas podem ser super-humanas aprimoradas. Elas podem ser ciborgues, elites completamente não-orgânicos, e até algoritmos não-conscientes. Vemos agora no mundo a autoridade migrando de humanos para algoritmos. Mais e mais decisões, sobre vida pessoal, questões econômicas, políticas, estão na verdade sendo tomadas por algoritmos. Se você pedir um empréstimo ao banco, há chances do seu destino ser decidido por um algoritmo, e não por um ser humano.

A impressão geral é talvez o Homo sapiens simplesmente terem perdido o controle. O mundo é tão complicado, há tantos dados, as coisas estão mudando tão rapidamente, de modo o animal humano, evoluído na savana africana dezenas de milhares de anos atrás, para lidar com um determinado ambiente, um determinado volume de informações e dados, simplesmente não pode lidar com as realidades do século 21. A única coisa capaz de lidar com isso é algoritmos para grandes dados. Assim, não surpreende transferirmos mais e mais autoridade aos algoritmos.

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