Raízes Morais dos Liberais e dos Conservadores

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Jonathan Haidt em Palestra TED realizada em 2008, The moral roots of liberals and conservatives, disse o seguinte em 18 minutos.

Todos temos os mesmos estereótipos políticos. É um fato liberais apresentarem muito mais se comparados aos conservadores um traço de personalidade chamado de abertura à experiência. Pessoas abertas à experiência apreciam a novidade, variedade, diversidade, novas ideias, viagens. Pessoas ao contrário gostam de coisas familiares, seguras e confiáveis.

Se você conhece este traço, você é capaz de entender vários quebra-cabeças sobre o comportamento humano. Você é capaz de entender porque artistas são tão diferentes de contadores. Você pode prever que tipo de livros eles vão ler, para que tipo de lugares gostam de viajar, e que tipo de comidas gostam de comer.

Este traço também nos diz muito sobre política. O principal pesquisador deste traço, Robert McCrae diz que, “Indivíduos abertos tem uma afinidade por pontos de vista liberais, progressistas, de esquerda” — eles gostam de uma sociedade que está aberta e mudando — “enquanto indivíduos fechados preferem pontos de vista conservadores, tradicionais, de direita.”

Este traço também nos diz muito sobre o tipo de grupos dos quais as pessoas participam. Então aqui está a descrição de um grupo achado na Web. Que tipo de gente participaria de uma comunidade global à qual são bem-vindas pessoas de todas as disciplinas e culturas, que buscam um maior entendimento do mundo, e que esperam transformar este entendimento num futuro melhor para todos nós? Isto é de um cara chamado TED. (Risadas).

Bom, vejamos agora, se a abertura prevê quem se torna liberal, e a abertura prevê quem se torna um participante do TED, poderíamos então prever que a maioria dos participantes do TED são liberais?

Isto é meio problemático. Porque se o nosso objetivo é entender o mundo, é buscar um maior entendimento do mundo, nossa falta de diversidade moral aqui vai tornar isso mais difícil. Porque quando todas as pessoas compartilham valores, quanto todas compartilham valores morais, elas se tornam um time, e uma vez que você ativa a psicologia de times, isso desliga o pensamento aberto.

Quando o time liberal perde, como ocorreu em 2004, e como quase ocorreu em 2000, nos nós confortamos. (Risadas) Tentamos explicar porque metade dos EUA votou no outro time. Pensamos que eles devem estar cegos pela religião, ou por simples estupidez. (Risadas) (Aplausos) Então, se você pensa que metade dos EUA votou nos Republicanos porque eles estão cegos dessa maneira, minha mensagem para você é que você está preso em sua matriz moral, em uma matriz moral particular. E por matriz, eu quero dizer literalmente a matriz como no filme “The Matrix”.

Mas eu estou aqui hoje para lhes dar uma escolha. Vocês podem tomar a pílula azul e continuar com suas ilusões confortantes, ou podem tomar a pílula vermelha, aprender alguma Psicologia Moral e sair da matriz moral. Vamos estudar um pouco de psicologia moral e ver aonde isso nos leva.

Vamos começar pelo começo. O que é moralidade e de onde ela vem? A pior ideia em toda a psicologia é a ideia de que a mente é uma folha de papel em branco ao nascermos. A psicologia do desenvolvimento mostrou que crianças vem ao mundo já sabendo muito sobre os mundos físico e social, e programadas para tornar realmente fácil aprenderem certas coisas e difícil aprenderem outras.

A melhor definição de inato que já vi — que deixa muitas coisas claras para mim — é do neurocientista Gary Marcus. Ele diz, “A organização inicial do cérebro não depende tanto assim da experiência. A natureza provê um primeiro rascunho, o qual a experiência então revisa. Embutido não significa não maleável; significa organizado antes da experiência”. OK, então o que está no primeiro rascunho da mente moral? Para descobrir, meu colega Craig Joseph e eu pesquisamos a literatura sobre antropologia, sobre variações culturais na moralidade e também sobre psicologia evolucionária, procurando por padrões. Quais são os tipos de coisas que as pessoas falam nas várias disciplinas, que você encontra em várias culturas e até em várias espécies?

Achamos cinco — cinco melhores padrões. Denominamos as cinco fundações da moralidade.

A primeira é cuidar do sofrimento. Somos todos mamíferos aqui, então temos muita programação neural e hormonal que faz com que nós realmente criemos laços com os outros, cuidemos dos outros, sintamos compaixão pelos outros, especialmente os fracos e vulneráveis. Nos dá sentimentos muito fortes sobre aqueles que causam sofrimento. Esta fundação moral está por trás de cerca de 70% das afirmações morais ouvidas aqui no TED.

A segunda fundação é reciprocidade justa. Há na verdade evidência ambígua sobre achar reciprocidade em outros animais, mas a evidência para pessoas não poderia esta mais clara. Esta segunda fundação está por trás de outros 30% das afirmações morais aqui no TED.

A terceira fundação é lealdade interna no grupo. Você encontra grupos no reino animal — você encontra grupos cooperativos — mas estes grupos são sempre muito pequenos ou eles são de irmãos. É apenas entre humanos que você encontra grupos muito grandes de pessoas que são capazes de cooperar, se reunir em grupos — mas neste caso, grupos que são unidos para lutar contra outros grupos. Isto provavelmente vem da nossa longa história de vida tribal, de psicologia tribal. E esta psicologia tribal é tão prazerosa que mesmo quando não temos tribos, nos as criamos só porque é divertido. (Risadas) O esporte está para a guerra como a pornografia está para o sexo. Nós temos a oportunidade de exercitarmos alguns impulsos muito antigos.

A quarta fundação é respeito à autoridade. Aqui você vê gestos de submissão de dois membros de espécies bem próximas — mas a autoridade em humanos não é tão baseada no poder e na brutalidade, como é nos outros primatas. É baseada em deferência mais voluntária, e até mesmo elementos de amor, às vezes.

A quinta fundação é a santidade da pureza. Pureza não se limita a suprimir a sexualidade feminina. Aplica-se a qualquer tipo de ideologia, qualquer tipo de ideia que lhe diz que você pode alcançar a virtude controlando o que você faz com seu corpo, controlando o que você põe em seu corpo. Enquanto a direita política está mais preocupada em moralizar o sexo, a esquerda política está fazendo mais ou menos o mesmo com a comida. A comida está se tornando extremamente moralizada nos dias de hoje, e muito disso são ideias sobre pureza, sobre o que você está disposto a tocar ou por em seu corpo.

Este são os cinco melhores candidatos para o que está escrito no primeiro rascunho da mente moral. Isso é o mínimo com que nós viemos, uma preparação para aprender todas essas coisas. Mas enquanto meu filho Max estuda numa faculdade liberal, como este seu primeiro rascunho será revisado? E como será diferente do de uma criança nascida 60 milhas ao sul de nós em Lynchburg, Virginia?

Para pensar em variação cultural, tentemos uma metáfora diferente. Se realmente há cinco sistemas trabalhando na mente — cinco fontes de intuições e emoções — então nós podemos pensar na mente moral como sendo um daqueles equalizadores de áudio que tem cinco canais, onde você pode ajustar uma configuração diferente em cada canal. E meus colegas, Brian Noseh e Jesse Graham e eu, fizemos um questionário, que colocamos na Web em http://www.YourMorals.org. E até agora, 30.000 pessoas fizeram este questionário, e você também pode.

Aqui estão os resultados. Aqui estão os resultados de cerca de 23.000 cidadãos americanos. Na esquerda fiz o gráfico das pontuações para os liberais, na direita para os conservadores, no meio para os moderados. A linha azul mostra a resposta das pessoas, na média em todas as questões de sofrimento.

Então, como vocês podem ver, as pessoas se preocupam com questões de sofrimento e cuidado. Elas dão alta aprovação para esse tipo de afirmação ao longo de todo o quadro, mas como vocês podem ver, liberais se importam um pouco mais do que conservadores, a reta cai. A mesma coisa para justiça. Mas olhe para as três outras retas, para liberais elas tem pontuações muito baixas. Liberais estão basicamente dizendo, “Não, isso não é moralidade. Lealdade grupal, autoridade, pureza — essas coisas não têm nada a ver com moralidade. Eu as rejeito”. Mas à medida que as pessoas ficam mais conservadoras, os valores crescem. Nós podemos dizer que liberais tem um — tipo de moralidade de dois-canais, ou duas-fundações. Conservadores tem mais uma moralidade de cinco-fundações, cinco-canais.

Achamos isso em todos os países que examinamos. Aqui estão os dados para 1.100 canadenses. Passarei rapidamente por alguns outros slides. O Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia, Europa Ocidental, Europa Oriental, América Latina, o Oriente Médio, a Ásia Oriental e Ásia Meridional. Perceba também que em todos estes gráficos, o crescimento é mais acentuado para lealdade ao grupo, autoridade e pureza. O que mostra que em qualquer país, a discordância não é sobre sofrimento e justiça. Todo mundo — quero dizer, nós debatemos sobre o que é justo — mas todo mundo concorda que sofrimento e justiça importam. Discussões morais dentro das culturas referem-se especialmente a questões de lealdade a membros do grupo, autoridade e pureza.

Este efeito é tão robusto que nós o encontramos independentemente de como fazemos a questão. Em um estudo recente, pedimos que as pessoas supusessem que estavam para adquirir um cachorro. Você escolheu uma raça específica, você descobriu algumas novas informações sobre essa raça. Suponha que você descobriu que essa raça tem um comportamento independente, e se relaciona com seu dono como um amigo, um igual?

Daí se você for um liberal vai dizer “Puxa, que bacana!” porque os liberais gostam de dizer “pega, por favor.” (Risos) Mas se você for conservador, isso não é tão atraente. Se você é conservador, e você descobre que um cachorro é extremamente leal à sua casa e sua família, e não estabelece rapidamente intimidade com estranhos, para conservadores — puxa, lealdade é bom — cachorros devem ser leais. Mas para um liberal, até parece que este cachorro está disputando a indicação como candidato dos Republicanos. (Risos)

Daí você pode dizer, tudo bem, existem mesmo essas diferenças entre liberais e conservadores, mas o que faz essas três outras fundações serem morais? Será que elas não passam das fundações da xenofobia e autoritarismo e Puritanismo? O que existe de moral nelas?

Uma primeira imagem é quando tudo está em ordem, tudo é bonito, todas as pessoas e animais estão fazendo o que se espera deles, onde se espera que eles estejam. Mas então, considerando a jeito como o mundo é, as coisas mudam. Encontramos cada pessoa fazendo o que bem entende, com todos os orifícios de todas as outras pessoas e de todos os animais. Alguns de vocês podem identificar isso com a década de 60. (Risos) Mas os anos 60, inevitavelmente, deram lugar aos anos 70, e daí isso virou um Inferno.

Então este trítico, estes três painéis, retratam a verdade atemporal de a ordem tender a deteriorar. A verdade da entropia social.

Quando as pessoas tomam conhecimento de uma punição estar acontecendo, a cooperação dispara e continua crescendo. Existe um grande volume de pesquisas demonstrando, para resolver problemas cooperativos, realmente ajuda uma ameaça de punição. Não basta apelar para a boa vontade das pessoas, realmente ajuda muito ter alguma espécie de punição. Mesmo sendo apenas vergonha, ou embaraço, ou fofoca, você precisa alguma espécie de punição para induzir as pessoas, quando elas estão em grupos grandes, a cooperarem.

Existem até algumas pesquisas recentes sugerindo a religião — colocando um Deus vigilante acima das pessoas, fazendo elas pensarem no sobrenatural — frequentemente, em algumas situações, estimula comportamentos mais cooperativos, mais pró-sociais.

Algumas pessoas acham a religião ser uma adaptação produzida simultaneamente pela evolução cultural e biológica para tornar os grupos coesos, em parte com o propósito de confiarem uns nos outros, e desse modo serem mais efetivos na competição com outros grupos. Isso provavelmente está certo, embora essa questão seja controversa.

Complicado de verdade é explicar pessoas vivendo em lugares inóspitos, cooperando umas com as outras, ou nas savanas da África, ou nas costas geladas do Alasca, e daí algumas dessas vilas cresceram e se tornaram as poderosas cidades. Como isto aconteceu? Isto sim é um milagre absoluto, muito mais difícil de explicar.

A resposta, estou convencido, é os animais humanos terem usaram cada uma das ferramentas da caixa mental. Foi necessária toda nossa psicologia moral para criar estes grupos cooperativos.

Sim, você precisa estar preocupado com o sofrimento, você precisa uma psicologia da justiça. Mas, para organizar um grupo, ajuda muito se você puder ter sub-grupos, e se esses sub-grupos tiverem alguma estrutura interna, e se você tiver alguma ideologia de modo a dizer às pessoas elas deverem suprimir seus desejos carnais, para perseguir propósitos mais altos, mais nobres.

E agora chegamos ao ponto crucial da disputa entre liberais e conservadores. Como os liberais rejeitam três dessas fundações. Eles dizem “Não, vamos celebrar a diversidade, não o fato de pertencermos a um mesmo grupo.” Eles dizem, “Vamos questionar a autoridade.” E dizem também, “Mantenha as leis longe do meu corpo.”

Os liberais têm motivos muito nobres para fazer isso. A autoridade tradicional, a moralidade tradicional, podem ser muito repressivas, e restritivas para aqueles que estão por baixo, para as mulheres, para os que não se ajustam ao sistema. De modo que os liberais falam em nome dos fracos e oprimidos. Eles querem mudança e justiça, mesmo ao risco do caos.

A camiseta de um homem de esquerda diz, “Pare de reclamar, comece uma revolução.” Se você tem muita abertura à experiência, revolução é uma coisa boa, é mudança, é divertido.

Conservadores, por outro lado, falam em nome das instituições e das tradições. Eles querem ordem, mesmo se isso tiver um custo para os que estão por baixo. O grande discernimento dos conservadores é a ordem ser realmente difícil de conseguir. Ela é realmente preciosa, e é muito fácil de perder.

Assim, como disse Edmund Burke: “As restrições sobre os homens, assim como suas liberdades, devem ser computadas entre seus direitos.” Isto foi após o caos da Revolução Francesa.

Então, se liberais e conservadores ambos possuírem algo para contribuir, eles formam um equilíbrio de mudança versus estabilidade. Daí o caminho está aberto para escapar da matriz moral.

Este é o grande discernimento atingido por todas as religiões asiáticas. Pensem em Yin e Yang. Yin e Yang não são inimigos. Yin e Yang não se odeiam mutuamente. Yin e Yang são ambos necessários, como noite e dia, para o funcionamento do mundo.

Vocês encontram o mesmo no Hinduísmo. Existem muitos grandes deuses no Hinduísmo. Dois deles são Vishnu, o preservador, e Shiva, o destruidor. Esta imagem realmente representa esses dois deuses compartilhando o mesmo corpo. Vocês encontram os sinais de Vishnu do lado esquerdo, de modo que podemos pensar em Vishnu como o deus conservador. E vocês vêem os sinais de Shiva do lado direito, Shiva é o deus liberal — e os dois trabalham em conjunto.

Vocês encontram a mesma coisa no Budismo. Duas estrofes contêm o mais profundo discernimento jamais atingido em termos de Psicologia Moral. Do mestre Zen Seng-ts’an: “Se você quer que a verdade se apresente claramente diante de você, nunca seja a favor nem contra, a luta entre a favor e contra é a pior das doenças da mente.”

Infelizmente, essa doença infectou muitos dos líderes mundiais. Mas antes de vocês começarem a sentir-se superiores a George Bush ou Donald Trump, antes de jogarem uma pedra, perguntem a si mesmos: Vocês aceitam isto? Vocês aceitam sair da batalha entre o bem e o mal? Vocês são capazes de não serem a favor nem contra qualquer coisa?

Então, qual é o ponto? O que vocês devem fazer? Bem, se vocês pegarem os mais importantes discernimentos das filosofias e religiões antigas da Ásia e os combinarem com as mais recentes pesquisas em Psicologia Moral, chegarão a estas conclusões: nossa consciência moral foi projetada pela evolução para nos unir em equipes, para nos dividir contra outras equipes e então para nos tornar cegos à verdade.

E daí, o que vocês devem fazer? Estou aconselhando vocês a não lutarem? Estou dizendo para vocês seguirem Seng-ts’an e parar, parar com esta batalha de a favor e contra? Não, absolutamente não. Não quero dizer isso. Este é um extraordinário grupo de pessoas fazendo muito ao empregar tanto seus talentos, seu brilhantismo, sua energia, seu dinheiro, para transformar o mundo em um lugar melhor, para lutar — para lutar contra os erros, para resolver problemas.

Mas vocês não podem simplesmente continuar atacando dizendo, “Você está errado e eu estou certo.” Porque, como acabamos de ouvir, todos pensam que estão certos.

Muitos dos problemas para resolver são problemas capazes de nos impelirem a mudar outras pessoas. E se vocês querem mudar outras pessoas, uma maneira muito melhor de fazê-lo é, antes de mais nada, entender quem somos nós — entender nossa Psicologia Moral, entender “todos nós pensamos estarmos certos” — e então sair fora — mesmo apenas por um momento, sair fora — fazer como Seng-ts’a e abstrair acima da matriz moral, apenas para vê-la como uma batalha se desenrolando na qual todas as pessoas estão convencidas de estarem corretas, e todos, pelo menos, possuem algumas razões — mesmo você discordando deles — todos têm algumas razões para o que estão fazendo.

Saiam fora. E se fizerem isso, esse é o passo essencial para cultivar a humildade moral, para sair fora desse farisaísmo, lamentavelmente, é a condição humana normal. Pensem no Dalai Lama. Pensem na enorme autoridade moral do Dalai Lama — e ela provem da humildade moral dele.

Meu objetivo nesta exposição — o objetivo do TED – é reunir um grupo apaixonadamente engajado na tarefa de mudar o mundo para melhor. Aqui as pessoas estão apaixonadamente envolvidas em tentar fazer do mundo um lugar melhor. Mas existe também um compromisso apaixonado com a verdade. Por isso a resposta é usar esse compromisso apaixonado com a verdade para tentar transformá-lo em um futuro melhor para todos nós.

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