A Teoria Monetária Moderna [MMT] é insana ou essencial?

The Economist (Finance and Economics) – 14 de março de 2019

“Moderna Teoria Monetária” (Modern Monetary Theory: MMT) soa como o assunto de uma palestra destinada a colocar alunos de graduação para dormir. Mas entre macroeconomistas está longe de ser soporífico.

Stephanie Kelton, uma das principais estudiosas da MMT, na Stony Brook University, aconselhou Bernie Sanders, senador e candidato à presidência. A congressista Alexandria Ocasio-Cortez, uma jovem porta-bandeira da esquerda americana, cita a MMT quando perguntada sobre como ela planeja pagar por um Green New Deal.

Como o estoque político de MMT aumentou, a temperatura do debate também aumentou. Paul Krugman, um ganhador do prêmio Nobel e colunista de jornal, recentemente reclamou seus devotos se envolvem em “Calvinball”. Este é um jogo da história em quadrinhos “Calvin and Hobbes”, no qual os jogadores podem mudar as regras por capricho.

Larry Summers, ex-secretário do Tesouro da Universidade de Harvard, recentemente chamou a atenção para a nova “economia vodu”, um insulto anteriormente reservado à noção de que os cortes de impostos pagam por si mesmos.

Esses argumentos são de “alto coturno”, espalhados e difíceis de pesar. Eles também falam muito sobre Macroeconomia.

[Fernando Nogueira da Costa: muitos neste debate são maus argumentos ad hominem (ao homem), isto é, desqualificação do interlocutor
por por ele não ser especialista ou 
por um apriorístico juízo negativo de suas intenções. Ataca a pessoa, em vez da 
opinião dela, com a intenção de 
desviar a discussão e desacreditar a proposta desse oponente “por ele pensar fora do mainstream”. Que “debate” dogmático e sectário é este?!]

A MMT tem suas raízes em profundas fissuras doutrinárias. Nas décadas após a Depressão, os economistas argumentaram, às vezes com amargura, sobre como se basear nas ideias de John Maynard Keynes, o intelecto fundador da macroeconomia.

No fim uma linhagem norte-americana do keynesianismo, matematizada, tornou-se dominante, enquanto outras variantes foram agrupadas na categoria de “pós-keynesianismo”: uma mistura eclética de ideias enviadas à orla heterodoxa. Na década de 1990, um número de pensadores significativo passou a pensar da mesma maneira baseada em ideias pós-keynesianas, consubstanciando a perspectiva encarnada da verdade.

[Fernando Nogueira da Costa: ironia ridícula ao se considerar o relativismo em Ciência; falsear velhas teorias equivocadas colabora para se aproximar da verdade. Se esta é absoluta, ela é o Todo. Mas como nenhuma abstração abarca o Todo, ela é inalcançável.]

Essa perspectiva [“encarnada da verdade’] nem sempre é clara, porque não há modelo canônico de MMT. Mas existem algumas ideias centrais.

Um governo ao imprimir e emprestar em sua própria moeda não pode ser forçado a inadimplir, porque pode sempre criar dinheiro para pagar credores. O dinheiro novo também pode pagar pelos gastos do governo. Logo, as receitas fiscais são desnecessárias.

Os governos, além dessa política fiscal, devem usar seus orçamentos para administrar a demanda agregada e manter o pleno emprego: tarefas agora atribuídas à política monetária, estabelecidas pelos bancos centrais.

A principal restrição aos gastos do governo não é o clima do mercado de títulos, mas a disponibilidade de recursos subutilizados, como os trabalhadores desempregados. Aumentar os gastos quando a economia já está em plena utilização da capacidade produtiva pode levar a uma inflação rápida.

O objetivo dos impostos, então, é manter a inflação sob controle. Se gastar é o acelerador, tributar são os freios. Os déficits fiscais são irrelevantes, caso o desemprego seja baixo e os preços estejam estáveis.

Para aqueles versados ​​em ortodoxia – cujo dogma é os governos sempre pagar por seus gastos através de impostos – essas ideias soam bizarras. Essa estranheza é, em parte, resultado do idioma pouco convencional dos acadêmicos.

Falar com os adeptos da MMT é, por vezes, como assistir a um jogo de futebol com amigos quando eles insistem na visão da bola permanecer estacionária enquanto todos os outros elementos do jogo, incluindo o campo e as balizas, se moverem em torno dela.

A comunicação é ainda mais dificultada pelo uso escasso de modelos matemáticos por parte de MMTers. Para os economistas ortodoxos, cujo apelo à Matemática pesada é uma marca simbólica de seriedade, tal relutância em usar equações é evidência de inferioridade intelectual ou uma maneira de evitar o escrutínio.

[Fernando Nogueira da Costa: percebe-se o uso excessivo de modelos matemáticos ser a maneira tradicional de os economistas incapazes de divulgarem algum pensamento original através de linguagem escrita ou escamotearem sua incompetência verbal ou oral atrás de equações].

Pode, em vez disso, refletir o fato de a MMT ser menos uma teoria rival em lugar de uma crítica qualitativa. Sim, os bancos centrais podem usar as taxas de juros para atingir o pleno emprego, se as taxas não forem muito próximas de zero. Mas os especialistas acham os governos estarem melhor equipados com política fiscal.

A política monetária funciona via bancos e mercados financeiros, mas quando os mercados entram em pânico, esse mecanismo é enfraquecido. Os cortes nas taxas de juros estimulam a economia incentivando as empresas e as famílias a tomar emprestado, mas isso pode gerar níveis arriscados de dívida do setor privado. Os gastos do governo evitam esses problemas.

Da mesma forma, os aumentos das taxas de juros podem desacelerar a inflação. Mas eles, frequentemente, operam induzindo desemprego involuntário indiscriminado. Em vez disso, o Estado poderia domar um boom descontrolado, argumentam os críticos de mercados não competitivos, ao desmantelar os monopólios. Afrouxa, assim, as restrições de oferta. Outra alternativa visa penalizar com aumentos de impostos as empresas com uso excessivo de combustíveis fósseis.

Os economistas reconhecem seus modelos terem deficiências e a política monetária não ser onipotente. Mas a maioria dos economistas neoliberais defende, há tempos, a política macroeconômica estabilizar a economia com a menor intervenção governamental possível, para permitir os mercados alocarem livremente os recursos escassos.

Outros meios podem então ser usados ​​para lidar com empréstimos imprudentes, falhas de mercado ou desigualdade social. Os defensores de MMT questionam isso – e acreditam a história econômica recente reforçar o caso de heterodoxia apresentado por eles.

Você pode supor a disputa poder ser resolvida testando as alegações rivais. Infelizmente, a Macroeconomia raramente funciona dessa maneira. Macroeconomistas não podem executar experimentos como cientistas de laboratório. A análise estatística do mundo é turvada pelo vasto número de variáveis, muitas das quais estão correlacionadas com a coisa cujo efeito o economista está tentando isolar.

Argumentos macroeconômicos tendem a não produzir vencedores e perdedores: apenas aqueles debatedores com mais influência midiática e aqueles com menos acesso à formação da opinião especializada.

As ideias pós-keynesianas nunca foram provadas como falsas, ao contrário do modelo ptolemaico do sistema solar. Em vez disso, elas declinaram em status à medida que o keynesianismo dominante aumentava sua influência.

O keynesianismo predominante foi manchado, por sua vez, em meio à estagflação dos anos 1970, cuja famigerada econometria da Curva de Phillips – trade-off entre salário ou preço e desemprego – não explicava. O monetarismo então ganhou fôlego até fracassar uma década depois, quando os bancos centrais, ao controlarem estritamente o crescimento da oferta monetária, descobriram a ligação entre suas programações monetárias e cada meta de inflação ter desaparecido.

Os keynesianos reagruparam e construíram modelos “novos-keynesianos”. Eles se tornaram os alvos da batalha entre muitas análises recentes. Eles também desapontaram.

Em 2016, Olivier Blanchard, ex-economista-chefe da FMI, descreveu-os como “seriamente falhos”, “baseados em premissas desagradáveis” e produzindo implicações que “não são convincentes”. Paul Romer, ganhador do Nobel no ano passado, escreveu em 2016: “por mais de três décadas, a Macroeconomia retrocedeu”.

MMT não é obviamente um passo à frente. Mas se ganhar apoio político e influenciar a política apenas para fracassar logo adiante, dificilmente será vodu. Será apenas Macroeconomia como de costume.”

Obs.: Este artigo bobo e preconceituoso apareceu na seção Finance and economics da edição impressa da revista The Economist sob o título “Magic or logic?” Eu o traduzi porque foi citado no debate tupinquim exposto no próximo post.

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