Elizabeth White – Palestra TEDxVCU: Crise Financeira Pessoal = Crise na Aposentadoria

Fonte: site do IBGE. Com a crise das commodities, entre set 2011 e 2016, especialmente a queda da cotação do petróleo e a seca, provocando inflação de alimentos e reação com austeridade, Rússia (US$ 8.655 ) e Brasil (US$ 8.649) convergiram para renda per capita próximas; a China elevou a sua para US$ 7.993; a Índia manteve a sua relativamente estagnada em US$ 1.706. No mesmo período, os EUA tiveram a sua aumentada de US$ 51.559 em 2012 para US$ 57.808 em 2016, último ano do governo Obama. Mas não imagine todos os cidadãos estarem com bem-estar social lá nos EUA. Leia o depoimento pessoal abaixo deElizabeth White, dado em Palestra TEDxVCU.

“Você me conhece. Estou no seu círculo de amizades, escondida, mas à vista. Minhas roupas continuam impecáveis, compradas nos bons anos quando eu ainda ganhava dinheiro. De olhar para mim, você não saberia que cortaram minha eletricidade semana passada por falta de pagamento, ou que eu cheguei à elegibilidade pra receber cupons de alimentação. Mas se prestasse atenção, veria a tristeza nos meus olhos, ouviria um quê de medo na minha voz autoconfiante.

Ultimamente tenho comprado frascos de amostra de Tide de US$ 1,99 para conter as despesas. Aposto que não sabia que detergentes vinham nesse tamanho. Você me convida para os mesmos restaurantes caros que nós dois sempre curtimos, mas agora peço água mineral com um pouco de limão, não uma taça de “chardonnay” de US$ 12. Estou sendo econômica em minhas escolhas no menu. Meticulosa, conto cada centavo na minha cabeça. Me recuso a dividir uma comanda igualmente para cobrir sobremesas, cafés gourmet e dois ou três taças de vinho que não consumi.

Estou cansada de tentar manter as aparências. Um amigo me disse que estou falida, e não pobre, e há uma diferença. Vivo sem TV a cabo, sem plano de academia e sem hora marcada com manicure. Descobri que posso cuidar do meu cabelo. Não tenho poupança de aposentadoria, nem dinheiro economizado. Eu gastei tudo tempos atrás. Não há casa em condomínio caro para alugar e nem marido para me sustentar. Meses de pagamento atrasado e falta dele dizimaram meu crédito. Cobradores de contas ligam constantemente, lendo textos decorados antes de expressar simpatia pela minha difícil situação, em seguida exigem condições de pagamentos que eu jamais conseguiria cumprir. Amigos se perguntam em particular como alguém tão bem instruída pode estar numa crise financeira assim.

Continuo talentosa como sempre, e igualmente esperta, mas o trabalho está difícil, vez ou outra um pedido de consultoria. Aos 55 anos, aprendi a fingir estar alegre, mas já não há tantas oportunidades de trabalho. Não lembro exatamente quando parou, mas agora não posso negar ter entrado num mundo incerto do “antigamente” e “costumava ser”. Não sei mais onde eu pertenço. Só sei que dezenas de oportunidades on-line de emprego parecem ter desaparecido num buraco negro. Me pergunto o que será de mim. Até agora minha saúde têm se mantido, mas meu corpo sofre ou seria o meu espírito? Mulheres sem-teto costumavam ser invisíveis para mim; agora eu as vejo com olhos curiosos, e me pergunto se as histórias delas começaram como a minha.

Eu escrevi um artigo um ano atrás. É uma composição da minha história e de outras mulheres que conheço. Eu o escrevi porque estava cansada de fingir que estava tudo bem quando não estava. Estava cansada de fingir estar bem. Não estava me vendo na imprensa popular. Ninguém que eu conhecia estava viajando pelo mundo ou comprando uma casa em condomínio na Costa Rica. Poucos dos meus amigos reservaram os 15 ou 20% que os peritos nos dizem ser necessário pra manter um padrão de vida na aposentadoria. Meus amigos, muitos com 50 e 60 anos, enfrentavam mobilidade social descendente, uma proposta de trabalho vitalício, uma demissão, um diagnóstico médico ou um divórcio sem insolvência. Talvez não tenhamos atingido o fundo do poço, mas muitos de nós vimos uma sequência de eventos na qual o fundo do poço era possível pela primeira vez.

Mas, a verdade é não precisar de muito. Uma casa mediana nos EUA só tem economias suficientes para cobrir um mês de salário. Quarenta e sete por cento de nós não conseguimos US$ 400 para lidar com uma emergência. É quase a metade de nós. Um conserto grande no carro e já estamos perto do abismo.

Você não saberia se não olhasse ao seu redor, não sou a única nesta situação. Há pessoas nesta sala que estão no mesmo dilema, e se não é você, são os seus parentes, ou sua irmã, ou talvez seu melhor amigo. Ficamos bons em fingir que está tudo bem. A vergonha nos mantém quietos e isolados. Quando decidi que iria revelar a minha história, eu criei um website e um amigo meu percebeu que lá não havia fotos minhas; havia todo tipo de caricaturas como esta. Mesmo quando eu estava me revelando, ainda estava escondida.

Vivemos em um mundo em que o sucesso é definido pelo salário. Quando você diz que tem problemas com dinheiro, está anunciando basicamente que é um fracassado. Quando você é graduado pela Harvard Business School, como eu, você é um fracassado em dobro.

Nós “boomers” escutamos muito sobre como subfinanciamos nossa aposentadoria; como tudo é culpa nossa. Por que, em sã consciência, usaríamos o nosso plano de aposentadoria para cobrir as contas do asilo da nossa sogra ou para pagar a educação do nosso filho ou apenas para sobreviver?

Somos acusados de sermos maus planejadores e parasitas; todo o dinheiro que gastamos em café e água engarrafada. Envergonhar e culpar é tão tentador! Muitos de nós nem esperam que os outros façam isso, estamos muito ocupados fazendo isso nós mesmos.

Vamos todos assumir a nossa parte: nós todos poderíamos ter economizado mais. Eu sei que podia ter economizado mais, e se você revisse minha vida nos últimos 30 anos, veria mais do que uma bobagem que fiz financeiramente. Não posso mudar isso agora, nem você pode, mas não vamos misturar comportamento individual e isolado com fatores sistêmicos. Eles causaram US$ 7,7 trilhões de rombo na renda de aposentadoria.

Milhões de norte-americanos nascidos no pós-guerra não chegaram aqui por causa de muitas visitas ao Starbucks. Passamos as últimas três décadas lidando com salários baixos e decrescentes, pensões desaparecendo e custos absurdos de habitação, saúde e educação. Não costumava ser assim. Todos nos lembramos do tripé da renda da aposentadoria: tinha as economias, as pensões e o seguro social. Bom, esse tripé vacilou.

Considere as economias, quais economias?! Para muitas famílias, não havia nada para economizar depois de as contas terem sido pagas.

A perna do tripé da pensão também vacilou. Podemos nos lembrar de quando muitas pessoas tinham pensões. Hoje, só 13% dos norte-americanos são empregados por empresas que a oferecem.

O que temos no lugar disso? Temos quatro tipos de planos de aposentadoria e, do nada, a responsabilidade desses planos passou das empresas para nós. Assumimos as rédeas, mas também o risco, e ocorre que milhões de nós não são bons em investir voluntariamente por 40 anos. Milhões de nós não são bons em administrar risco de mercado.

Os números contam a história. Metade dos lares norte-americanos não tem uma poupança de aposentadoria sequer, ou seja, zero. Nenhum plano de aposentadoria, nem IRA nem um centavo. Entre as pessoas de 55 a 64 anos que têm uma poupança pra aposentadoria, o valor médio dessa poupança é de US$ 104 mil. Agora, US$ 104 mil soa melhor que zero, mas gera o saque de uma anuidade em torno de US$ 300 [na verdade, US$ 745 mensais por 240 meses ou 20 anos]. Não preciso dizer que não se consegue viver com isso.

Com as poupanças decaindo, pensões tornando-se uma relíquia do passado e planos de aposentadoria falhando com milhões de norte-americanos, muitos dos quase aposentados estão dependentes do seguro social como seu plano de aposentadoria. Mas eis o problema. Seguro social nunca deveria ser o plano de aposentadoria. Não é o suficiente, no máximo, ele substitui algo em torno de 40% do seu salário pré-aposentadoria.

As coisas mudaram bastante desde que o seguro social foi introduzido em 1935. Antes, um homem de 21 anos tinha 50% de chance de viver até os 65 anos. Então ele se aposentava aos 60 anos, fazia um pouco de pescaria, beijava seus netos, comprava seu relógio de ouro; ele estaria morto dentro de cinco anos após estar recebendo os benefícios. Não é o padrão de hoje. Se você estiver com quase 60 anos e com boa saúde, viverá facilmente mais 20 ou 25 anos. É um longo tempo para equilibrar o orçamento se você estiver falido.

Então, qual é a jogada se você chegou aqui e está entre 50, 55 ou 60 anos? Qual é a jogada se não quer chegar aqui e está entre 22 e 32 anos?

Eis o que aprendi com a minha experiência. A cavalaria não vai chegar. Não haverá um resgate, nenhum príncipe encantado, nenhuma grande ajuda em andamento. Para ter uma chance em algo sem se tornar velho e pobre nos EUA, teremos que salvar a nós mesmos e ao próximo.

Eu saí das sombras, para falar aqui, abertamente e convido vocês a fazerem o mesmo. Não preciso dizer que não será fácil. Eu me aventurei a contar a minha história porque pensei que ficaria mais fácil para que as pessoas contassem a delas.

Acredito que seja somente através da nossa força coletiva que poderemos começar a mudar o “blablablá” nacional que estamos tendo sobre esta crise na aposentadoria. Com tantos de nós em estado de choque e à deriva quanto ao que já nos aconteceu, teremos de construir, desde as bases, formando o que penso ser círculos de resiliência: pequenos grupos de pessoas se unindo para falar sobre o que aconteceu com elas, compartilhar recursos e informações e começar a pensar em um meio de seguir em frente. Desta base, nós podemos encontrar nossas vozes novamente e soar o alarme, começar a empurrar nossas instituições e legisladores para pegarem pesado nesta crise da aposentadoria com a urgência que merece.

Enquanto isso, e há um “enquanto isso”, nós teremos que adotar uma mentalidade de viver com o mínimo possível, cortando drasticamente nossas despesas. Não quero dizer viver apenas com o básico. Muitas pessoas já estão fazendo isso.

O que precisamos agora, de forma bem profunda, é nos perguntarmos o que realmente significa viver uma vida que não seja definida por bens materiais. Eu a chamo de “reduzir”. “Reduzir” é descobrir o que você realmente precisa para se sentir contente e firme. Tenho um amigo que dirige carros bem velhos, desgastados, mas ele conseguirá reduzir e economizar US$ 15 mil em algum momento para comprar uma flauta porque música é o que realmente importa para ele. Ele fez uma “redução”.

Eu também tive de abandonar um pensamento mágico, esta ideia de que se eu fosse paciente o suficiente e apertasse o cinto as coisas voltariam ao normal. Se eu mandasse mais um currículo ou me candidatasse a outro emprego on-line ou participasse de mais um evento de conexão, eu, com certeza, teria um trabalho que estava acostumada a ter. Com certeza as coisas voltariam ao normal.

A verdade é: não voltarei atrás e nem vocês voltarão. O “normal”, conhecido antes da crise, acabou. Neste novo lugar onde estamos, nos exigirão fazer coisas não desejadas a fazer. Seremos exigidos a aceitar tarefas que achamos estar abaixo de nossa posição, nosso talento ou nossa habilidade.

Eu tive que descer do meu trono. Ano passado, uma boa amiga minha me perguntou se eu iria ajudá-la com um trabalho de organização. Eu assumi que ela queria dizer organização comunitária, no mesmo sentido que o Presidente Obama fez em Chicago. Ela quis dizer organizar o armário de alguém. Eu disse, “Não farei isso”. Ela disse, “Desça do seu trono, dinheiro é verde”.

Não é fácil ser parte da equipe de avanço que está conduzindo a esta nova era de trabalho e condições de vida. Primeiro é sempre mais difícil. Primeiro, é antes de haver conexões, caminhos e modelos. É antes de haver políticas e caminhos de modo a nos mostrarem como seguir em frente.

Estamos no meio de uma mudança sísmica. Teremos de descobrir uma ponte para podermos atravessar. A “ponte” é o que fazemos no meio tempo. É o que fazemos enquanto estamos tentando descobrir o que vem depois. A “ponte” também está se liberando da ideia de nosso valor e nosso preço dependerem do nosso salário, nossos títulos e nossos trabalhos. A ponte pode parecer doida ou bacana, dependendo de como você estava indo quando sua crise financeira pessoal chegar.

Tenho amigos com doutorado trabalhando na Container Store ou dirigindo com Uber ou Lyft, e também tenho outros amigos se associando com outros boomers e fazendo empreendimentos empresariais bem legais. A “ponte” não significa que não queremos construir em cima de carreiras passadas, que não queremos trabalho significativo. Nós queremos. A “ponte” é o que temos no meio tempo, enquanto descobrimos o que fazer depois.

Também aprendi a pensar na estratégia e não no fracasso, quando estou processando todas as coisas que não quero fazer. Essa é uma abordagem que convido vocês a considerarem também.

Então, se você precisa ir morar com seu irmão para equilibrar o orçamento, ligue para ele. Se precisar receber um pensionista na sua casa pra ajudar a pagar a hipoteca ou a pagar seu aluguel, faça isto. Se precisa pegar os cupons de alimentação, aceite-os. AARP diz que só um terço dos idosos que são elegíveis os utilizam.

Faça o que for preciso para ir à outra rodada.

  1. Saiba: há milhões de nós.
  2. Saia das sombras.
  3. Faça cortes, reduza.
  4. Pense na estratégia, não no fracasso.
  5. Desça do seu trono e encontre a ponte para conseguir sua renda em tempos difíceis.

Como país, conseguimos a longevidade, investindo bilhões de dólares em diagnósticos, tratamento e controle de doenças. Não é o suficiente somente ter uma vida longa. Queremos viver bem. Não investimos o suficiente em infraestrutura física de modo a garantir isso acontecer. Precisamos agora de um novo raciocínio sobre o que significa ser velho nos Estados Unidos. Precisamos de orientação e ideias sobre como viver uma vida rica e estruturada com um salário bem mais modesto.

Estou apelando aos agentes de mudança e aos empreendedores sociais, artistas e idosos, e investidores de impacto. Estou apelando aos desenvolvedores e aos destruidores do status quo. Precisamos que vocês nos ajudem a imaginar como investir em serviços, produtos e infraestrutura. Eles apoiarão nossa dignidade, nossa independência e nosso bem-estar nestas várias décadas que ainda viveremos.

Minha jornada me levou de um lugar de medo e vergonha para um com humildade e compreensão. Estou preparada para conectar escudos com os outros, para lutar esta luta, e convido vocês a se juntarem a mim.”

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