Complexidade e Crescimento do Self

O estado oposto da condição de entropia psíquica é a melhor experiência. Quando certa informação continua entrando em nossa consciência – e é congruente com nossos objetivos –, a energia psíquica flui sem esforço. Não há necessidade de se preocupar, não há razão para questionar a adequação. Nessa situação, quando alguém para e passa a pensar em si mesmo, a evidência é encorajadora: “Você está indo bem”. O feedback positivo fortalece o self [eu] e mais atenção é liberada para lidar com o ambiente externo e interno.

O que queremos dizer com experiência ótima? São situações quando a atenção pode ser investida livremente para alcançar os objetivos de uma pessoa, porque não há desordem para endireitar, nenhuma ameaça para o indivíduo se defender.

Mihaly Csikszentmihalyi, no livro “Flow: A Psicologia da Felicidade” (London: Rider; 2017),  chama esse estado de experiência de fluidez, porque esse é o termo usado por muitas das pessoas entrevistadas por ele, em suas descrições de como se sentia em sua melhor forma: “Era como flutuar”, “eu era levado pelo fluxo [flow]”. É o oposto da entropia psíquica – na verdade, algumas vezes é chamada de negativopia. Quem a alcança desenvolve um eu mais forte e confiante, porque mais de sua energia psíquica foi investida com sucesso em objetivos escolhidos por eles próprios a seguir.

Quando uma pessoa é capaz de organizar sua consciência de modo a experimentar o fluxo (ou a fluidez) com a maior frequência possível, a qualidade de vida vai inevitavelmente melhorar, porque até mesmo as rotinas geralmente entediantes do trabalho tornam-se propositais e agradáveis. No fluxo (ou na fluidez), estamos no controle de nossa energia psíquica, e tudo o que fazemos adiciona ordem à consciência.

Nossa “batalha” não é realmente contra o ego, mas contra a entropia provocadora de desordem à consciência. É realmente uma batalha para o ego: é uma luta para estabelecer controle sobre a atenção. A luta não precisa necessariamente ser física, como no caso de um alpinista. Mas quem experimentou o fluxo (ou a fluidez) sabe o profundo prazer proporcionado por ele(a) requer um grau igual de concentração disciplinada.

Mihaly Csikszentmihalyi afirma: após uma experiência de fluidez [flow], a organização do self [eu] é mais complexa do que antes. Tornando-se cada vez mais complexo, o self cresce.

A complexidade é o resultado de dois processos psicológicos amplos: diferenciação e integração.

  1. Diferenciação implica um movimento em direção à singularidade, em direção a separar-se dos outros.
  2. Integração se refere ao seu oposto: uma união com outras pessoas, com ideias e entidades além do eu.

Um eu complexo é aquele capaz de combinar essas tendências opostas.

O eu torna-se mais diferenciado como resultado da fluidez, porque a superação de um desafio deixa inevitavelmente uma pessoa se sentindo mais capaz, mais qualificada. Como o alpinista disse: “Você olha para trás com admiração para si mesmo, para o que você fez, e aí explode sua mente!” Depois de cada episódio de fluidez, uma pessoa se torna mais individual, menos previsível, possuidora de raras habilidades.

Acredita-se a complexidade ter um significado negativo, sinônimo de dificuldade e confusão. Isso pode ser verdade, mas apenas se a equipararmos apenas à diferenciação. No entanto, a complexidade também envolve uma segunda dimensão – a integração de partes autônomas em interações.

Um mecanismo complexo, por exemplo, não só tem muitos componentes separados, cada um executando uma função diferente, mas também demonstra uma alta sensibilidade, porque cada um dos componentes está em contato com todos os outros. Sem integração, um sistema diferenciado seria uma bagunça confusa – seria complicado e não um sistema complexo.

A fluidez ajuda a integrar o eu porque, nesse estado de concentração profund, a consciência é extraordinariamente bem ordenada. Pensamentos, intenções, sentimentos e todos os sentidos estão focados no mesmo objetivo. A experiência está em harmonia. E quando o episódio de fluxo acaba, a pessoa se sente mais “junta” em relação a seus sentimentos dispersos anteriores, não apenas internamente, mas também em relação a outras pessoas e ao mundo em geral.

Nas palavras do alpinista: “Não há lugar mais atraente para o melhor dos seres humanos surgir, senão em uma situação de montanhismo. Ninguém incomoda ao você colocar sua mente e corpo sob um tremendo estresse para chegar ao topo. Seus companheiros estão lá, mas todos sentem o mesmo, de qualquer maneira, estão juntos nessa meta. Em quem você pode confiar mais no século XX do que nessas pessoas? Pessoas com a mesma autodisciplina como você, seguindo o compromisso mais profundo. Um vínculo como esse com outras pessoas é em si mesmo um êxtase”.

Um eu apenas diferenciado – e não integrado – pode alcançar grandes realizações individuais, mas corre o risco de estar atolado no egoísmo autocentrado. Da mesma forma, uma pessoa cujo eu [self] é baseado exclusivamente na integração estará conectada e segura, mas falta individualidade autônoma. Somente quando uma pessoa investe quantidades iguais de energia psíquica nesses dois processos e evita tanto o egoísmo quanto a conformidade, é provável o self refletir a complexidade.

O eu torna-se complexo como resultado da experiência da fluidez. Paradoxalmente, é quando agimos livremente, pelo bem da ação em si e não por segundas intenções, o momento quando aprendemos a nos tornar mais do que éramos antes. Quando escolhemos uma meta e nos investimos nela até os limites de nossa concentração, o que fizermos será agradável. E uma vez quando provamos esta alegria, redobraremos nossos esforços para prová-la novamente. Assim o eu cresce.

Foi assim o modo como um operário conseguiu extrair tanto de seu trabalho aparentemente chato na linha de montagem, ou um poeta de sua poesia. É a maneira de outro indivíduo superar sua doença para se tornar um estudioso influente e um executivo poderoso.

Fluidez é importante porque:

  1. torna o presente um instante mais agradável, e
  2. constrói a autoconfiança capaz de nos permitir desenvolver habilidades e fazer contribuições significativas para a humanidade.

O restante deste livro de Mihaly Csikszentmihalyi, “Flow: A Psicologia da Felicidade”, explorará mais detalhadamente o que ele sabe sobre experiências ótimas: como elas se sentem e sob quais condições elas ocorrem. Mesmo não havendo um atalho fácil para fluir, é possível, se entendermos como funciona, de modo a transformar a vida para criar mais harmonia e liberar a energia psíquica. Senão, de outra forma, seria desperdiçada em tédio ou preocupação.

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