Prazer ou Gozo

Mihaly Csikszentmihalyi, no livro “Fluir: A Psicologia da Felicidade” (London: Rider; 2017), afirma: ao considerar o tipo de experiência capaz de tornar a vida melhor, a maioria das pessoas pensa a felicidade consistir em sentir prazer: boa comida, bom sexo, todo o conforto que o dinheiro pode comprar. Imaginamos a satisfação de viajar para lugares exóticos ou possuir aparelhos interessantes e caros. Se não pudermos alcançar os objetivos publicitários, cujos comerciais e anúncios coloridos sempre nos lembram de buscar, então ficaremos felizes em nos contentar com uma noite tranquila em frente à televisão com um copo de álcool por perto.

O prazer é um sentimento de contentamento alcançado sempre quando a informação na consciência diz as expectativas estabelecidas pelos programas biológicos ou pelo condicionamento social terem sido atendidas. O sabor da comida quando estamos com fome é agradável porque reduz um desequilíbrio fisiológico. Descansar à noite, enquanto absorve passivamente informações da mídia, álcool ou drogas, para entorpecer a mente superexcitada pelas exigências do trabalho, é prazerosamente relaxante. Viajar para Acapulco é agradável porque a novidade estimulante restaura o nosso paladar cansado das rotinas repetitivas da vida cotidiana. E porque sabemos: assim as “pessoas bonitas” (“celebridades”) também passam o tempo ocioso.

O prazer é um componente importante da qualidade de vida, mas por si só não traz felicidade. O sono, o descanso, a alimentação e o sexo proporcionam experiências homeostáticas restauradoras, capazes de devolverem a consciência à ordem depois de as necessidades do corpo se intrometerem e fazerem a entropia psíquica ocorrer. Mas eles não produzem crescimento psicológico. Eles não adicionam complexidade ao eu. O prazer ajuda a manter a ordem, mas por si só não pode criar uma nova ordem na consciência.

Quando as pessoas refletem mais sobre o que torna suas vidas gratificantes, elas tendem a ir além de lembranças agradáveis ​​e começam a lembrar de outros eventos, outras experiências. Estas se sobrepõem aos momentos prazerosos, mas elas se enquadram em uma categoria merecedora de um nome separado: gozo.

Eventos orgásticos ​​ocorrem quando uma pessoa não apenas atendeu a alguma expectativa anterior ou satisfez uma necessidade ou um desejo, mas também foi além daquilo programado para fazer e alcançou algo inesperado, inimaginável antes.

O gozo é caracterizado por esse movimento para a frente: por uma sensação de novidade, de realização. Praticar um esporte amplia sua capacidade física e é orgástico, assim como ler um livro capaz de te revelar as coisas sob uma nova luz, assim como ter uma boa conversa pode nos levar a expressar ideias antes inconscientes, aliás, nem sabíamos tê-las. Concluir um negócio difícil, ou qualquer trabalho bem-feito, é orgástico.

Nenhuma dessas experiências pode ser particularmente prazerosa quando estão ocorrendo, mas depois pensamos sobre elas e dizemos: “aquilo foi realmente divertido” – e desejamos elas acontecerem novamente. Depois de um evento orgástico, sabemos nós termos mudado, o nosso eu ter crescido: em alguns aspectos, nos tornamos mais complexos como resultado disso. Passamos a ter mais componentes hábeis interativos.

Experiências prazerosas também podem dar gozo, mas as duas sensações são bem diferentes. Por exemplo, todo mundo tem prazer em comer. Para desfrutar um gozo com a comida, no entanto, é mais difícil. Um gourmet goza ao comer, assim como qualquer um capaz de prestar atenção suficiente a uma refeição, de modo a discriminar as várias sensações fornecidas por ela.

Como este exemplo sugere, podemos sentir prazer sem qualquer investimento de energia psíquica, ao passo que o gozo acontece apenas como resultado de invulgares investimentos de atenção. Uma pessoa pode sentir prazer sem qualquer esforço, se os centros apropriados em seu cérebro forem eletricamente estimulados, ou como resultado da estimulação química de drogas. Mas é impossível curtir um jogo de tênis, um livro ou uma conversa, sem nossa atenção estar totalmente concentrada na atividade.

Por essa razão, o prazer é tão evanescente a ponto do eu não crescer como consequência de experiências prazerosas. Complexidade exige investir energia psíquica em metas novas, relativamente desafiadoras.

É fácil ver esse processo nas crianças: durante os primeiros anos de vida, cada criança é uma pequena “máquina de aprendizado” experimentando novos movimentos, novas palavras diariamente. A concentração arrebatadora no rosto da criança, à medida que ela aprende cada nova habilidade, é uma boa indicação de o que é o prazer. E cada instância de aprendizado orgástico aumenta a complexidade do self em desenvolvimento da criança.

Infelizmente, essa conexão natural entre crescimento e gozo tende a desaparecer com o tempo. Talvez porque “aprender” se torne uma imposição externa quando a escolaridade começa, a excitação de dominar novas habilidades gradualmente se desgasta. Torna-se muito fácil estabelecer-se dentro dos limites estreitos do self desenvolvido na adolescência.

Se alguém for muito complacente e não sentir a energia psíquica investida em novas direções ser desperdiçada, exceto caso haja uma boa chance de colher recompensas extrínsecas, pode acabar não mais desfrutando da vida. Então, o prazer fortuito se torna a única fonte de experiência positiva.

Por outro lado, muitos indivíduos continuam a se esforçar para preservar o prazer em qualquer coisa a fazer. Sem gozo, a vida pode ser suportada e pode até ser agradável. Mas pode ser tão precária se depender só da sorte e da cooperação do ambiente externo! Para ganhar controle pessoal sobre a qualidade da experiência, no entanto, é preciso aprender a construir prazer naqueles acontecimentos do dia a dia.

Fernando Nogueira da Costa: o segredo de gozar a vida é enfrentar desafios criativos a cada dia… e ainda te pagarem para focar nisso!

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