10 Anos Depois: Inovações Tecnológicas em 2018

Ed Crooks (FT, 02/01/19) avalia os avanços tecnológicos de 2018. O crescimento da produção de petróleo nos EUA, os embates com a Opep, uso de carvão na China, o aumento da geração renovável e o desafio da armazenagem de energia foram destaques em 2018 e vão continuar nas agendas dos debates.

A seguir os cinco pontos na pauta desse avanço tecnológico.

  1. A produção de petróleo dos EUA disparou além das expectativas

Um ano atrás, a Administração de Informações sobre Energia do
Departamento de Energia dos EUA previu que a produção americana de petróleo bruto subiria pouco menos de 600 mil barris/dia em 2018, de dezembro a dezembro. Isso acabou se revelando uma tremenda subestimativa: o aumento real foi de cerca de 1,6 milhão de b/d, e estima-se que a produção corrente dos EUA tenha chegado a cerca de 11,6 milhões de b/d neste período de encerramento de 2018.

Esse índice é bem superior ao pico anterior, alcançado em 1970, e também está um pouco à frente do da Rússia, o segundo maior produtor mundial. Ela divulgou sua produção recorde de cerca de 11,4 milhões de b/d correspondente a outubro de 2018.

Com o fortalecimento da revolução do petróleo e gás de xisto nos EUA, suas consequências mundiais continuam a se impor. A pressão baixista que ela exerceu sobre os preços do petróleo exacerbou a crise na Venezuela e acentuou a necessidade de se realizarem reformas econômicas em outros países produtores, como a Arábia Saudita. Também obrigou os membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) a se alinhar mais estreitamente com a Rússia, apesar de sua rivalidade de longa da data, em vista da ameaça conjunta que enfrentam. Mais recentemente, a força da produção dos EUA também foi um fator que contribuiu para a queda vertical de 40% da produção de petróleo bruto ocorrida desde outubro, que a reduziu aos menores níveis dos últimos 15 meses.

A política climática internacional também foi profundamente influenciada pelo surto de crescimento do petróleo e gás de xisto. Em sessão de informes nas conversações climáticas da COP24 em Katowice, na Polônia, no mês passado, Wells Griffith, do governo dos Estados Unidos, festejou o “renascimento energético” que fez de seu país “o produtor número um de petróleo e gás somados do mundo”. As atitudes dos EUA para com a política energética certamente teriam sido muito diferentes se o país fosse atualmente um grande e cada vez maior importador de petróleo e gás, como parecia provável em meados da década de 2000.

2. Surgiram tensões na aliança entre EUA e Arábia Saudita

A amizade dos EUA com a Arábia Saudita é a aliança mais duradoura do Oriente Médio, e sobreviveu a muitas provas desde a sua formação, na década de 1940. Mas o ressurgimento dos EUA como o maior produtor mundial de petróleo mudou a natureza dessas relações, e houve sinais, neste ano, do aparecimento de novas tensões.

O presidente dos EUA, Donald Trump, fez questão de defender a aliança: na esteira do assassinato de Jamal Khashoggi, no consulado saudita em Istambul, o presidente americano insistiu reiteradamente na importância da produção de petróleo do reino. O governo americano vê o apoio saudita como decisivo para sua estratégia de restabelecer as sanções ao Irã. Nem todos em Washington, no entanto, se revelaram tão ansiosos por conservar as boas graças da Arábia Saudita. Destacados senadores republicanos disseram haver “zero” grau de dúvida de que o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, estava envolvido no assassinato, e o Senado aprovou por 56 votos a 41 a retirada de apoio militar americano da frente, de liderança saudita, que luta no Iêmen. A crise desencadeada pelo assassinato de Khashoggi ameaça agora minar os ousados planos do príncipe herdeiro Mohammed de atrair investidores estrangeiros a fim de modernizar a economia saudita.

Do lado saudita também houve disposição de pôr à prova a solidez dessas relações. Apesar dos apelos e ameaças veladas de Trump, que pretendiam convencer a Opep a manter a produção elevada, a Arábia Saudita desempenhou papel decisivo nas pressões em favor do corte aprovado em Viena no início de dezembro.

3. País do carvão, a China se tornou campo de batalha de prioridades de políticas públicas divergentes

A China responde por cerca de metade do consumo de carvão do mundo. Em vista disso, suas resoluções sobre o uso do combustível são decisivamente importantes para o mercado mundial e para as emissões de gases-estufa. A demanda por carvão do país asiático alcançou seu pico em 2013, e caiu cerca de 4% entre esse ano e 2016, diante das pressões do governo pela redução da poluição atmosférica da região.

Esse esforço demonstrou algum sucesso: o ar de Pequim se tornou o mais limpo dos últimos dez anos. No entanto, as desvantagens das restrições ao uso do carvão também ficaram cada vez mais claras. No cortante frio do inverno passado (de dezembro a março no Hemisfério Norte), as regulamentações sobre a queima de carvão tiveram de ser abrandadas, porque os volumes de gás fornecidos às regiões do norte do país foram insuficientes para atender à demanda por calefação, e o consumo de carvão da China subiu em 2017 pela primeira vez em quatro anos. A China tenta evitar vivenciar uma crise de gás semelhante neste ano, e tem sido ajudada por um clima mais ameno. A situação, neste inverno, tem sido descrita como “até agora, tudo bem”.

Mas está ficando cada vez mais claro que a ambição da China de melhorar a qualidade do ar é difícil de conciliar com sua necessidade de manter o crescimento dos postos de trabalho e da economia. Em um dos artigos mais importantes do ano, David Stanway e Joseph Campbell, da “Reuters”, escreveram sobre a cidade do carvão de Jincheng, onde a investida em favor da limpeza “reverberou ondas de choque por toda a economia municipal”. Trata-se de dinâmica política conhecida nos EUA e na Europa. Ao se desenrolar na China, o que está em jogo é ainda maior.

As preocupações com os efeitos de adotar medidas restritivas demais para o carvão e outras indústrias pesadas já parecem se fazer sentir na política ambiental da China. O mais recente plano trienal de poluição atmosférica, publicado em julho, parece menos exigente que os planos anteriores. Reitera as metas em vigor, fixadas em 2016, já alcançadas por dezenas de cidades. A qualidade do ar na área de Pequim, por seu lado, deu sinais de ter voltado a deteriorar. As cidades do norte da China ficaram cobertas por grandes extensões de ar contaminado em novembro.

4. Economias emergentes assumiram a dianteira em energia renovável

A maior parte dos investimentos mundiais em energia renovável desde 2015 ocorreu em economias emergentes, com a China na liderança. No ano passado, quando os dados de 2017 foram reunidos e analisados, ficou claro o quanto os países de mais baixa renda dominam hoje os acréscimos mundiais de capacidade com energia renovável.

Como diz a empresa de pesquisa Bloomberg NEF (BNEF) em seu relatório Climatescope divulgado em novembro de 2018: “Os países menos desenvolvidos estão agora, decididamente, impulsionando a transição energética”.

Em 2017 esses países aumentaram em cerca de 114 gigawatts a capacidade de geração de energia elétrica de baixo carbono, inclusive energia nuclear e hidrelétrica, bem como eólica e solar, quase o dobro dos 63 gigawatts acrescentados nos países- membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), segundo a BNEF.

Seria de se esperar que a capacidade de geração subiria mais rapidamente nos países em desenvolvimento do que nos desenvolvidos, porque as economias deles, de modo geral, estão crescendo de modo mais acelerado. O que é especialmente impressionante é que os investimentos das economias emergentes em capacidade de geração renovável ultrapassou agora seus investimentos em centrais movidas por combustíveis fósseis.

O fator decisivo para isso foi o processo de queda vertical do custo da energia renovável. O Relatório Renováveis 2018 da AIE, divulgado em outubro, disse que os preços das ofertas de compra de energia elétrica eólica e solar em leilões competitivos no mundo inteiro estavam caindo para US$ 20 a US$ 50 por megawatt/hora, o que os torna competitivos com investimentos em novas centrais a combustão de gás ou de carvão num número crescente de países.

Naturalmente, a variabilidade da geração eólica e solar permite concluir que pode-se esperar que os fatores ligados à capacidade sejam mais baixos que os de centrais movidas a combustíveis fósseis, o que significa que o menor volume de capacidade a carvão e gás tende, mesmo assim, a produzir mais energia elétrica do que nas novas geradoras de energia renováveis. Ainda assim, como destaca a BNEF, o apoio aos renováveis nas economias emergentes “constitui uma notável reviravolta em relação a dez anos atrás, quando os países mais ricos do mundo respondiam pelo grosso dos investimentos em renováveis e pela atividade de implantação”.

5. Armazenamento de energia se tornou o melhor novo investimento em tecnologia

Há muitos anos Bill Gates fala de seu interesse no problema do armazenamento de energia. As redes de eletricidade, que se tornam cada vez mais dependentes das energias eólica (que é inconstante) e solar, precisam encontrar meios para gerenciar essas flutuações e a armazenagem de energia via baterias e outras tecnologias deverá ser cada vez mais importante na manutenção de um abastecimento confiável.

A Breakthrough Energy Ventures, o fundo de US$ 1 bilhão para novas tecnologias energéticas que Gates lançou em 2016, refletiu seu interesse na questão em junho, com seus dois primeiros investimentos, ambos em empresas de armazenamento de energia. Houve outra companhia de armazenamento na lista de sete investimentos adicionais que a Breakthrough anunciou em outubro, que também incluiu uma “start-up” que desenvolve energia de fusão nuclear e outra que está trabalhando em “sistemas geotérmicos aperfeiçoados”.

Então, em dezembro, a Breakthrough liderou uma rodada de financiamento de US$ 26 milhões para outra companhia, a Malta, que está desenvolvendo uma ideia de armazenamento de energia usando o calor gerado pelo derretimento de sal a altas temperaturas e o frio das baixas temperaturas de líquidos anticongelantes, para gerar energia usando uma máquina térmica.

Há muitas outras ideias para formas inovadoras de armazenamento por aí, incluindo um sistema que reboca blocos de concreto para o topo de edifícios quando há eletricidade excedente disponível, e então usa a descida para gerar energia quando necessário. Ainda estamos esperando que essas ideias se tornem comercialmente viáveis, mas se isso não acontecer, não será por falta de tentativas.

Os custos das baterias de íons de lítio vêm caindo rapidamente e a produção em grande escala, especialmente na China, deverá continuar reduzindo os custos através de economias de escala e o aprendizado pela prática. Mas mesmo assim, elas provavelmente continuarão sendo soluções caras para armazenamento estacionário, pelo menos nos próximos anos; compensam quanto aos custos em alguns usos específicos, como amenizar picos de demanda para empresas, mas não são uma resposta em grande escala ao problema da disponibilidade de energia sempre que ela for necessária.

A necessidade que Gates identificou por tecnologias superiores de armazenamento cria uma oportunidade enorme e provavelmente haverá um interesse sustentado pela resolução desse desafio.

PS: o potencial de crescimento da fonte eólica no Brasil cria oportunidades para que as grandes geradoras diversifiquem e reduzam a exposição ao risco hidrológico.

Mesmo se o Brasil conseguir manter a taxa de crescimento exponencial de potência instalada da fonte eólica, de 45% ao ano, levará mais de 40 anos para que todo o potencial do país seja esgotado, sem contar empreendimentos offshore, de acordo com relatório do BTG Pactual obtido pelo Valor. Segundo os analistas do banco, isso oferece uma grande oportunidade para que as grandes geradoras elétricas do Brasil diversifiquem o portfólio, reduzindo exposição ao risco hidrológico.

Grande parte do crescimento global da potência instalada da fonte eólica nos próximos anos deve vir do Brasil. O país já tem registrado a
“impressionante” taxa anual média de 45% nos últimos 10 anos, saindo de menos de 400 megawatts (MW) em 2008 para 13.677 MW em 2018. A participação na matriz elétrica do país saiu de 0,3% para 9% ao fim do ano passado.

O crescimento é atribuído, em parte, à política de governo de expansão da matriz energética focada em renováveis, com incentivos na forma de subsídios. Também contribui a queda dos preços de energia eólica, reflexo de avanços tecnológicos.

“Apesar do desempenho notável da geração eólica no Brasil, nesse ritmo de crescimento, alguns investidores podem se preocupar se o país está próximo da capacidade máxima de exploração da fonte”, escreveram os analistas, respondendo a questão em seguida: mesmo se o Brasil continuar com a taxa de crescimento excepcional de 45% ao ano, em média, levaria mais de 40 anos para que a capacidade instalada máxima fosse atingida.

Segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), há cerca de 5 GW contratados de eólicas para entrarem em operação até 2026. Considerando as projeções da EPE para capacidade adicional que será contratada ainda por leilões no país, o BTG Pactual estima que há espaço para novos 30 GW de eólicas no Brasil até 2027.

A projeção considera apenas os projetos em terra. Além disso, o Brasil poderá ter, no futuro, um maior potencial de projetos de geração eólica “offshore, no litoral. Esta tecnologia está ganhando espaço na Europa, onde os espaços são mais limitados, mas ainda é muito cara para o Brasil em comparação com os ativos “onshore”.

O BTG Pactual apontou: grandes petroleiras, como Petrobras, Total e Equinor estão estudando os projetos no litoral, o que é explicado pela presença forte de ventos nas regiões em que as companhias têm exploração de óleo e gás.

A análise do perfil dos ventos no território brasileiro aponta para outras mudanças nos investimentos em geração eólica. Hoje, a maior parte dos projetos são instalados na região Nordeste, onde há um fator de capacidade mais elevado por conta da qualidade dos ventos. A partir do ano que vem, uma importante mudança deve entrar em vigor: os preços de energia do mercado à vista passarão a ser fixados por hora, e não mais por semana, como é hoje.

Regiões na qual o pico de ventos coincide com o pico de consumo de energia tendem a ser mais atrativas para novos parques eólicos, pois os preços tendem a ser maiores. Segundo a avaliação do BTG, isso inclui regiões já fortes em energia eólica, como nordeste da Bahia e sudeste do Piauí, e também novas localidades, como o norte de Roraima e o leste do Paraná.

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