Combate ao Lado Maléfico da Internet para Avanços Tecnológicos Positivos

João Luiz Rosa e Gustavo Brigatto (Valor, 02/01/19) avaliam: as empresas de tecnologia, em especial de internet, se acostumaram a ser vistas como forças positivas que beneficiam o consumidor, dão voz aos indivíduos e, em última análise, fortalecem a democracia. Nos últimos tempos, porém, parece ter emergido o lado sombrio da força.

Sucessivos vazamentos de dados e denúncias de manipulação das informações dos usuários levaram companhias como Facebook, Google e Twitter a despertar a desconfiança do público, das autoridades e dos investidores. De rebeldes corporativos em busca de uma ordem mundial mais justa, essas empresas se tornaram, para muitos, as facetas de um império dissimulado e autocentrado.

Reflexo dessa mudança, quase todas as FAANGS – o grupo de empresas formado por Facebook, Amazon, Apple, Netflix e Alphabet (holding que controla o Google) – terminaram 2018 no pantanoso território do “bear market“. Isto ocorre quando uma ação chega perto de se desvalorizar 20% em relação a seu pico mais recente.

A imagem negativa das gigantes de internet dá o tom das 10 tendências tecnológicas do Valor para 2019.

A lista anual, em sua nona edição, destaca problemas como o vazamento de dados e as notícias falsas. Elas tendem a se agravar nos próximos meses.

A relação também inclui a aprovação de leis específicas de controle dos dados pessoais, uma tentativa de muitos países para reduzir o impacto do uso indevido das informações on-line.

Completam a lista de tendências para 2019 os seguintes temas, bem mais positivos:

  1. streaming de vídeo,
  2. esportes eletrônicos,
  3. 5G,
  4. blockchain,
  5. comércio eletrônico,
  6. superaplicativos e
  7. “unicórnios”, como são chamadas as startups cujo valor de mercado supera US$ 1 bilhão.

É difícil prever aonde levará a pressão crescente para que as empresas de internet minimizem os dilemas virtuais. Em novembro, o britânico Tim Berners-Lee – criador da World Wide Web, ou www, a interface visual da internet – disse: companhias como Google e Facebook acumularam poder demais e podem ter de ser desmembrados se, em algum momento, não forem desafiados por algum competidor mais novo ou por uma mudança de comportamento dos usuários.

Essa não é uma opinião isolada. Vários observadores do setor têm lembrado que isso já ocorreu anteriormente, como nos anos 80, quando o governo dos Estados Unidos desmembrou o negócio de telefonia local da operadora AT&T em sete empresas menores, as “Baby Bells“.

É fato, mas esse não é um processo rápido, nem fácil — e não há nenhuma indicação de que o governo do presidente Donald Trump tenha intenção de fazer algo semelhante, a despeito de suas desavenças pessoais com empresas como a Amazon.

O descontentamento generalizado, porém, abriu espaço para a discutir mudanças no modelo de negócio das companhias de internet, mais especificamente daquelas que vivem de publicidade on-line. No centro da questão estão os dados dos usuários e a quem, de fato, eles pertencem.

Já há quem defenda a proposta de companhias como Facebook e Google cobrem do consumidor por seus serviços. Com esses recursos os grupos passariam a financiar suas operações. Em contrapartida, não teriam mais direito a negociar as bases de dados de seus usuários com anunciantes. O modelo seria semelhante ao do Netflix: cobra uma assinatura pelo conteúdo oferecido, mas não ganha com anúncios.

A proposta é polêmica, mas seus defensores argumentam que, sem acesso a informações críticas, as empresas de internet não seriam alvos frequentes de vazamentos ou invasões, nem poderiam negociar dados de maneira a favorecer a si mesmas em detrimento dos concorrentes.

Há algumas iniciativas em andamento para oferecer alternativas ao modelo vigente. Berners-Lee fundou uma empresa, a Inrupt, para desenvolver o Solid, uma plataforma na qual os usuários poderiam definir quais serviços on-line teriam acesso a seus dados, como fotos, vídeos e até comentários. Em Cingapura, a Ocean Protocol, outra empresa novata, já atraiu investidores para seu projeto de criar um ecossistema virtual onde as pessoas seriam capazes de vender, elas próprias, suas informações.

1 ­ Vazamento de dados

A rede de hotéis Marriott, a operadora de TV paga Sky, o Banco Inter e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) foram algumas das empresas e organizações que, ao longo de 2018, sofreram algum tipo de vazamento de dados.

A estimativa é que, só no primeiro semestre do ano passado, quase 5 mil dados pessoais tenham sido expostos na internet a cada minuto, segundo levantamento da empresa francesa Gemalto. Isso significa que mais de 4,55 bilhões de registros foram vazados, um aumento de 133% na comparação com o mesmo período de 2017.

As falhas vão se tornar ainda mais frequentes por dois fatores:

  1. o primeiro é que, a despeito dos riscos, muitas empresas ainda dispensam atenção insuficiente à manutenção de seus bancos de dados;
  2. o outro é mais incidentes serão comunicados à medida que regras mais duras de proteção das informações sejam aprovadas.

2 ­ Leis de proteção

Sancionada em agosto do ano passado, a Lei de Proteção de Dados Pessoais entrará em vigor oficialmente em agosto de 2020. Por isso, é aguardada para os próximos meses uma intensa movimentação das empresas para se adaptar à nova regra. Quem não cumprir a lei pode ser punido com multa de 2% do faturamento, limitada a R$ 50 milhões, e sanções como a suspensão do direito de usar dados que tenham sido alvo de vazamento.

Na sexta-feira, 28 de dezembro, o então presidente Michel Temer criou, por medida provisória, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), vinculada à Presidência da República. A ANPD vai fiscalizar a forma como companhias e instituições tratam os dados de consumidores e usuários. Sua atuação deverá ser articulada com o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor, do Ministério da Justiça, e com outros órgãos ligados ao tema de proteção de dados pessoais.

3 ­ Notícias falsas

As notícias falsas emergiram como um dos principais problemas da internet e nada indica que sua circulação será reduzida sensivelmente em 2019. Ao Congresso dos Estados Unidos, em abril do ano passado, Mark Zuckerberg, presidente do Facebook, disse acreditar que a inteligência artificial vá eliminar as campanhas de desinformação, mas traçou um horizonte de cinco a dez anos para isso ocorrer. “Ainda não chegamos lá”, alertou.

As agências de checagem de notícias têm fornecido um antídoto importante, mas as “fake news” vêm migrando para aplicativos de mensagens privadas como WhatsApp, nos quais o combate é mais difícil.

A situação tende a piorar. Softwares de manipulação gráfica estão ficando mais fáceis de usar, abrindo espaço para o “deep fake” – falsificações convincentes de vídeos e fotos. O exemplo é um vídeo no qual a cabeça da ex-primeira-dama americana Michelle Obama aparecia no corpo de uma modelo pornô.

4 ­ Streaming de vídeo

A disputa pela transmissão de vídeos via internet vai atingir seu ápice em 2019, com a entrada da Disney no segmento e a esperada reação de rivais como Netflix e Amazon. A expectativa é esses movimentos acentuarem duas características do mercado:

  1. o consumo voraz de infraestrutura e
  2. a produção de conteúdo próprio.

A Ericsson, fabricante sueca de redes de comunicação, prevê que o tráfego global de dados crescerá cinco vezes entre 2018 e 2024, passando de 27 para 136 exabytes mensais. O tráfego de vídeo, que representa 60% do total, passará a responder por 74%.

Na guerra pelo assinante, os grupos de mídia reforçam o número de produções. Segundo a rede americana de canais FX Networks, os serviços de streaming responderam por 32% das séries de ficção lançadas nos EUA no ano passado, quatro vezes mais que os 8% de 2014. No Brasil, o Grupo Globo partiu para a produção de conteúdo exclusivo para o serviço GloboPlay.

5 ­ Unicórnios

A expectativa é o Brasil aumentar seu rebanho de unicórnios, como são chamadas as empresas novatas de tecnologia com valor de mercado superior a US$ 1 bilhão. Raras no cenário internacional, essas companhias demoraram ainda mais para surgir no país. Negócios concluídos em 2018, porém, mostram que há possibilidades a explorar.

O primeiro “unicórnio” brasileiro foi o aplicativo de transporte 99, comprado pela chinesa Didi Chuxing em janeiro. A PagSeguro, de meios de pagamento, entrou na lista no mesmo mês, após uma oferta pública inicial de ações na Bolsa de Nova York. A Stone, processadora de cartões, seguiu o caminho com uma oferta na Nasdaq, em outubro. A PagSeguro tem valor de mercado de US$ 6,1 bilhões, e a Stone, de US$ 5,1 bilhões (cotações de 31 de dezembro). No “clube global de unicórnios”, da consultoria CB Insights, só há um nome brasileiro entre os 260 “unicórnios” no mundo: a fintech Nubank, com valor de US$ 4 bilhões.

6 ­ E­Sports

Desde que foram lançados, nos anos 70, os videogames têm formado sucessivas gerações de jogadores. Agora, começam a atrair um público diferente: espectadores. É o fenômeno dos esportes eletrônicos ou e-sports, pelo qual equipes profissionais disputam prêmios milionários, em torneios acompanhados em tempo real por milhões de fãs.

Na final de League of Legends, um game popular, bateu recorde ao ser visto por 99,6 milhões de pessoas, quase o dobro da audiência da final do ano anterior, de 57 milhões de espectadores.

O Brasil é o terceiro maior mercado de e-sports do mundo, atrás dos Estados Unidos e da China, segundo a consultoria Newzoo. São cerca de 17,7 milhões de espectadores no país, o equivalente a 8,5% da população. Entre 2013 e o ano passado, segundo o Ministério da Cultura, o número de estúdios de criação de games mais que dobrou no Brasil, de 142 para 375 empresas.

7 ­ 5G

Nos Estados Unidos, as primeiras redes da nova geração de telefonia móvel começarão a funcionar neste ano, com limitação de cobertura e velocidade de acesso. A Samsung já anunciou: vai lançar dois aparelhos compatíveis com a tecnologia – um com a operadora Verizon, no primeiro trimestre, e outro com a AT&T, na segunda metade do ano.

No Brasil, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) estima para o segundo semestre, ou para o ano de 2020, o anúncio dos primeiros leilões de frequências para 5G.

A corrida pela nova tecnologia, voltada principalmente à comunicação de dados, ganhou contornos geopolíticos no fim do ano passado, depois que os EUA pediram que o governo canadense detivesse uma executiva da Huawei, filha do fundador da companhia chinesa, sob a acusação de violar sanções americanas ao Irã. A Huawei expressa a ambição da China de se tornar líder no fornecimento da infraestrutura para as novas redes.

8 ­ Comércio eletrônico

2019 será um ano de inflexão para o comércio eletrônico. A empresa americana de pesquisas Activate estima que as vendas on-line vão empatar com o varejo físico em novas vendas realizadas ao longo do ano: US$ 600 bilhões.

Em 2020, haverá uma inversão, com o comércio eletrônico passando a adicionar mais dólares em vendas novas que o varejo tradicional, representando 58% do total.

Sob esse ritmo de crescimento acelerado, as vendas on-line vão dobrar de tamanho entre 2018 e 2022, passando de US$ 3 trilhões para US$ 6 trilhões.

O avanço ainda não será suficiente para fazer o mundo físico perder o posto de principal destino para compras, mas fará o comércio digital passar de 12% do varejo como um todo para 20%. O modelo de “marketplace” ou shopping virtual — com diversos vendedores exibindo seus produtos em grandes sites — continuará a ser o principal motor de crescimento.

9 ­ Blockchain

O sistema de registro de informações por trás da moeda virtual bitcoin vai receber muita atenção em 2019, como já ocorreu no ano passado. A expectativa é o Blockchain ganhar destaque, devido à variedade de casos aos quais tem sido aplicado. A maior dos projetos ainda está em fase piloto, com aplicação limitada, mas a tecnologia tem se mostrado consistente.

À medida que se dissemina, o Blockchain começa a popularizar termos e expressões até agora restritos ao ambiente das criptomoedas. É o caso da Ethereum, rede favorita para quem quer trabalhar com a tecnologia.

Uma vertente inovadora é a das ofertas de valores mobiliários “tokenizadas”, ou Security Token Offerings (STO). Trata-se da emissão de um ativo digital baseado em um ativo real, como um imóvel ou uma empresa. Com esse lastro, as ofertas prometem mais segurança aos investidores comparadas às ofertas iniciais de moedas (ICO). Estas não são regulamentadas.

10 ­ Superaplicativos

Muitos consumidores têm percebido seus smartphones estarem sobrecarregados de aplicativos, o que exige uma faxina constante e incômoda. Essa overdose de opções abriu caminho para o surgimento de uma nova categoria de apps, turbinados com diversas funcionalidades. São os superaplicativos.

A principal referência é o chinês WeChat. Além de oferecer meios de pagamento e jogos, permite seus usuários lerem notícias e carregarem cópias digitais de seus documentos de identificação.

No Brasil, esse segmento tem começado a se desenhar com os investimentos da Movile, dona do aplicativo de comida iFood; da colombiana Rappi e da espanhola Glovo.

As duas últimas se encaixam na categoria das “entregas de tudo”, como remédios e roupas, além de refeições. Grandes redes varejistas como o Magazine Luiza também estão de olho na tendência dos aplicativos “tudo em um só lugar”.

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