Risco de Investimentos em Corretoras e Agentes Autônomos

Felipe Bottino é CEO da Pi Investimentos, plataforma aberta de investimentos do Santander. Publicou artigo (Valor, 26/03/19) para anunciar: o mercado de investimentos brasileiro mudou radicalmente nos últimos anos, mas o investidor ainda não tem muitos motivos para comemorar.

Estamos deixando para trás, rapidamente, o modelo dominado por bancos, ultraconservador, com taxas elevadas e plataforma fechada. E migramos para uma era de agentes autônomos. Ela traz consigo vantagens como uma plataforma aberta e mais facilidade de acesso para os clientes. Mas ninguém deve se enganar: as taxas ainda são pouco atrativas diante do alto risco dos investimentos oferecidos.

O modelo “Banco 1.0” trata os clientes como hipossuficientes e subentende os gerentes não serem especialistas de investimentos. Dessa forma, oferece principalmente produtos extremamente conservadores e de alta liquidez.

Nesse ambiente, o objetivo é:

  1. preservar o capital do cliente e
  2. evitar ele adquirir produtos com perfil de risco inadequado.

Com menos ênfase na performance, a plataforma aberta não se faz necessária.

Em contrapartida, no modelo “Agentes autônomos 2.0”

  1. o cliente é tido como autossuficiente e
  2. o profissional com o papel do gerente bancário é percebido como um grande especialista de investimentos.

Com o foco no resultado, a plataforma aberta com produtos sofisticados torna-se um diferencial. Esse modelo vem sendo bastante difundido nos últimos anos.

Bottino utiliza o exemplo dos fundos de renda fixa para explicar esses movimentos:

  • em linhas gerais, o cliente do “Banco 1.0” tinha a sua disposição fundos de renda fixa compostos somente por títulos públicos, a uma taxa média de administração de 1%, o que representaria uma expectativa de retorno de cerca de 85% do CDI;
  • ao migrar para o modelo de “Agentes autônomos 2.0“, esse cliente encontra fundos de renda fixa com a mesma taxa de administração de 1%, mas retornos em torno de 104% do CDI e alta liquidez.

Tanto o agente autônomo quanto a corretora classificam essa modalidade como “conservadora”. Mas a verdade é esses fundos serem compostos por títulos privados de alto risco e baixa liquidez. Portanto, o cliente pode:

  1. sofrer perdas representativas e
  2. não recuperar o seu capital no momento desejado.

Nesse exemplo específico, o fundo deve render bruto 120% do CDI (equivalente a 7,68%, considerando um CDI de 6,4% ao ano) para entregar líquido 104% do CDI de taxa de administração (6,68% ao ano).

Logo, o cliente fica com cerca de 22% desse ganho (0,28 ponto percentual dos 1,28 ponto acima dos 6,4% do CDI), mas com todos os riscos listados anteriormente. Enquanto isso, o gestor, a corretora e o agente autônomo se apropriam de 78% dos lucros (1,0 ponto do 1,28 ponto acima do CDI), sem risco adicional.

Para efeito de comparação, no modelo do “Banco 1.0”, o cliente perde 1 ponto em relação ao CDI, valor que é apropriado pelo banco, mas fica isento dos riscos de liquidez e de crédito do modelo 2.0.

Portanto, embora o modelo 2.0 represente uma evolução, os benefícios para o cliente ainda são marginais diante do aumento do risco para obter tal retorno.

É preciso tomar cuidado para não cair em armadilhas. No exemplo mencionado anteriormente, o cliente simplesmente migrou de um modelo conservador e caro para um modelo de altíssimo risco, e ainda muito caro. Além disso, contou com pouca transparência em relação aos custos de distribuição do produto, outro ponto negativo, por gerar grande conflito de interesses.

Obviamente, não podemos negar: a abertura das plataformas para gestores independentes e o acesso a produtos mais sofisticados representam uma evolução para o mercado. Entretanto, a velocidade da economia também é refletida em ciclos de dominância cada vez mais curtos.

As empresas líderes na abertura das plataformas hoje são vítimas do seu próprio sucesso. Corretoras e agentes autônomos, inebriados pelo êxito repentino:

  • executaram planos de expansão agressivos,
  • mudaram-se para edifícios luxuosos e
  • aumentaram o custo fixo com a premissa da manutenção do novo status quo de:
  1. taxas elevadas,
  2. pouca transparência e
  3. transferência do risco para o cliente.

A nova revolução do mercado financeiro brasileiro já começou e deve se materializar nos próximos anos. O modelo de “Investimento 3.0” precisa mesclar:

  1. a desintermediação bancária com a democratização (acesso “popular”) e
  2. a gestão de excelência.

Só assim será possível:

  1. baratear os custos dos produtos acessados diretamente pelo cliente e
  2. ampliar o seu acesso aos melhores especialistas de construção de carteira,
  3. dar mais transparência e praticidade em todas as etapas do processo entre investidores e investimentos.

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