Inteligência Artificial X Ignorância Natural dos Investidores

Martha Funke (Valor, 31/01/19) avalia: as tecnologias de inteligência artificial abrem espaço em corretoras e gestoras de investimentos. Além de facilitar a vida de investidores sem acesso aos tradicionais serviços de gestão de patrimônio, ajudam a compor fundos sustentados por regras automáticas para pesquisa de padrões e implementação de operações.

Seival Investimentos e Visia estão entre as gestoras de fundos baseados na tecnologia.

Em 2018, o Seival FGS, por exemplo, rendeu 41% com modelos quantitativos seguidores de tendências.

A Visia, com patrimônio sob gestão perto de R$ 900 milhões, busca ineficiências de mercado em repetição de padrões e usa aprendizado de máquina (machine learning) para executar ordens de compra sem impactar o mercado. Seu fundo Zarathustra anuncia ter rendido 240% do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI) em 2018. [Sem esquema de Pirâmide Ponzi?!]

A falta de familiaridade com conceitos e lógica das finanças colabora para a popularização dos robôs para aconselhamento. Para o CEO da Warren, 85% dos investidores brasileiros preferem delegar decisões de investimentos por falta de conhecimentos suficientes sobre o tema.

A fintech, nascida em 2017, já atraiu mais de 50 mil clientes, maneja perto de R$ 300 milhões e usa a tecnologia para identificação de perfil e objetivos de investimento, recomendação e back office. Oferece quatro fundos próprios e, a partir de fevereiro de 2019, fundos de terceiros, graças à aquisição de uma corretora com recursos do aporte de um fundo do Vale do Silício. O serviço de gestão do portfólio de investimentos do cliente custa 0,5% ao ano, e produtos próprios têm taxa zero.

A massificação dos serviços é um dos benefícios da tecnologia. Em geral, serviços tradicionais de gestão, como a Infinity Asset, miram clientes com disponibilidade elevada. A casa usa sistemas automáticos para a pré-seleção de fundos, mas a análise qualitativa e o atendimento são pessoais. São mais de R$ 1 bilhão geridos.

Os agentes autônomos deixaram a assessoria pessoal mais acessível, mas os robôs preencheram a lacuna para investidores em processo de criação de riqueza. O sistema da Monetus define alocação automática de recursos com base em perfil e objetivos do investidor.

Com R$ 120 milhões sob gestão, 45 mil investidores cadastrados e 10 mil clientes distribuídos em cinco carteiras, a empresa usa inteligência artificial para cuidar do cliente, mas a gestão dos fundos ainda é humana. Usa sistemas para comparação, mas a rentabilidade é menor em relação à obtida por humanos.

Já os serviços de gestão de patrimônio da Magnetis são sustentados por plataforma digital automatizada para entender o cliente, recomendar investimentos, definir carteiras e, se necessário, modificá-las. A automatização cria eficiência operacional e deixa o serviço mais acessível. São 0,4% ao ano pela gestão e taxa administrativa de 0,3% a 0,5% para alocação nos fundos, com atendimento humano para os investidores.

A fintech Vérios, por sua vez, cobra entre 0,4% e 0,65% ao ano sobre o valor investido. Somando custos como corretagem, custódia e outros, o valor total fica em 0,95% anuais. Robôs ajudam no gerenciamento da conta individual e no cálculo da alocação, com definição final pela equipe da casa. No ano passado, o rendimento ficou entre 105% e 135% do CDI, sem contabilizar o risco corrido em crédito privado (debêntures).

A inteligência artificial ajuda a massificar o atendimento, mas as plataformas podem ter dificuldade em reconhecer, por exemplo, objetivos múltiplos de cada investidor. O indivíduo precisa dedicar algumas horas por mês para saber o que fazer de melhor com seu dinheiro e não transferir responsabilidade por eventual perda para preservar sua autoestima.

IPTU, IPVA, matrícula e material escolar dos filhos são alguns dos típicos gastos de início de ano, mas ainda há quem fique surpreso com eles. Quem não se preparou pode, inclusive, começar o ano com dívidas. Afinal, por que a maioria dos brasileiros não tem o hábito de se planejar?

Primeiro, porque não cumpre o dever da cidadania: estudar, mesmo quando está em período escolar. Quer aprender de maneira fácil sem nenhum esforço próprio.

Segundo, não planeja porque não consegue aprender com a má experiência. De nada adianta passar por uma situação diversas vezes se não houver algum tipo de reflexão para a pessoa efetive alguma alteração de comportamento. Repete erros.

Uma das explicações é a inércia. Na prática, o ser humano tem forte tendência de deixar tudo como está. Outro problema é a crença infundada na capacidade de mudança futura. Em início de ano, as pessoas juram mudar, mas o ano passa, o foco some e os problemas costumam se repetir.

A história econômica brasileira recente também tende a reforçar a propensão ao consumo imediatista. Basta recordar do período de inflação galopante, fantasma ainda presente.

Boa parte da população economicamente ativa não teve com quem aprender a fazer o planejamento financeiro, afinal seus pais viveram em um período de hiperinflação, quando as despesas eram feitas no mês e de forma rápida.

Além disso, a rotina acelerada leva as pessoas a se preocuparem apenas com os gastos atuais, deixando de se organizar para os compromissos futuros. Para mudar esse contexto, é necessário treinar para desenvolver um novo hábito. Até porque IPVA, IPTU, seguro do carro e outros itens são despesas eventuais, e não imprevistos.

De início, pode ser difícil. Mas como qualquer hábito, começar já é um passo importante. Uma estratégia é acumular o quanto antes uma reserva financeira destinada aos tradicionais gastos de início de ano. O ideal é colocar os aportes mensais em débito automático. É importante a pessoa se esquecer do montante sendo acumulado para não ficar com a tentação de usar antes da hora.

Também não há como fugir do bom e velho orçamento pessoal ou familiar. Nele, os gastos eventuais podem ser provisionados mensalmente. Significa ‘carimbar o dinheiro’, ou seja, fazer uma reserva todo mês especificamente para um objetivo sem assumir dívidas.

Além de um orçamento detalhado, é fundamental revisá-lo ao longo do ano. Isso porque nem sempre as estimativas de gastos se mantêm. Isto é tão importante quanto é o controle cotidiano. O orçamento deve ser conferido mensalmente, fazendo-se as devidas revisões de meta necessárias. Dinheiro é planejamento e ação.

Depois de definir um padrão de vida abaixo de 20% da renda líquida, destinados aos investimentos mensais, é necessária a Educação Financeira para saber investir com segurança, liquidez e rentabilidade.

Investir no mercado financeiro nunca foi tão fácil, tanto pela quantidade de produtos e informações acessíveis quanto pela agilidade trazida pela internet. De olho no crescente nicho de investidores incapazes de gerir suas próprias aplicações, começam a ganhar corpo no Brasil as casas de análise independentes.

O foco são pessoas físicas, em geral com algum conhecimento financeiro, com aplicações entre R$ 5 mil a R$ 100 mi. Elas demandam análises para tomar suas decisões de investimentos.

As novas casas de análise oferecem aos clientes avaliações das melhores opções de investimento por meio de relatórios diários ou semanais, entrevistas, “lives” com especialistas e vídeos didáticos, com indicações para cada perfil de investidor.

O diferencial delas é não venderem fundos, ações e tampouco administrarem carteiras para evitar conflitos de interesse. Vendem informação e não estão ligadas a bancos ou corretoras. Há casa criada em março de 2018 e que já conta com cerca de 100 mil assinantes.

Perceberam ser preciso comunicar de forma mais simples. A linguagem usada no mercado sempre foi muito técnica.

A Levante oferece gratuitamente, de forma resumida, em seu site, relatórios com análises sobre os principais fatos econômicos e políticos e seus prováveis impactos sobre os investimentos e de forma mais alentada para os assinantes. Basta desembolsar R$ 21,90 mensais. O rol de ativos cobertos inclui títulos públicos, fundos e ações.

A Eleven Financial Research, criada em 2015, acompanha de perto as ações de 130 empresas. Além disso, está autorizada pela Comissão de Valores Mobilários (CVM) a emitir parecer sobre IPOs, porque não participa de ofertas públicas.

A Suno Research, no mercado desde 2017, elabora e vende relatórios, com foco em renda variável e fundos imobiliários. Com uma assinatura anual de R$ 380,00, os assinantes recebem relatórios diários, newsletters e análises detalhadas de empresas listadas. Pesquisou os modelos internacionais e percebemos haver espaço para copiar no Brasil.

A queda dos juros promoveu uma migração de pequenos investidores para a renda variável. Isto requer Educação Financeira básica. Esses conhecimentos incluem não só as práticas e a dinâmica do mercado, mas também a consciência de os analistas não preverem o futuro e o material produzido ser a ferramenta para a tomada de decisão, e não oráculo. É preciso ter expectativa realistas.

Atenta às novas demandas, a CVM editou em 2018 a Instrução 598. Inclui a obrigatoriedade de registro por parte das casas de análise. Os clientes esperam uma prestação de serviços à altura de qualidade contratada. Antes, havia marketings agressivos, mas com linguagem moderada no produto final, o que pode ser entendido como propaganda enganosa. Após a edição da norma, tal prática é passível de punição.

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