Fuga de Capitais em 2018

Isabel Versiani e Alex Ribeiro (Valor, 29/01/19) informam: investidores estrangeiros tiraram do país US$ 7,682 bilhões investidos em ações e em fundos de investimento no ano eleitoral de 2018, segundo o Banco Central, o maior volume desde 2008, quando US$ 10,850 bilhões deixaram o país em meio à crise financeira global desencadeada pela quebra do banco Lehman Brothers.

Dados preliminares do BC para janeiro já mostram reversão parcial desse fluxo negativo. Até o dia 24, US$ 3,088 bilhões tinham ingressado no país para compra de ações e aplicações em fundos de investimento. Segundo o BC, essas aplicações obedecem a certa sazonalidade, com concentração de retiradas no final do ano. Elas tendem a voltar parcialmente em janeiro.

Ainda assim, o número de 2018 chama a atenção, após nove anos consecutivos de fluxos positivos de estrangeiros para a compra de ações e cotas de fundos, com média anual de entrada de US$ 12,957 bilhões. Ao longo de 2018, houve meses de ingresso de recursos, mas as saídas prevaleceram, principalmente ao longo do segundo semestre.

Os investimentos em renda fixa, por outro lado, sofreram retiradas menores do que em 2017. A saída foi de US$ 4,348 bilhões em 2018, frente a US$ 5,066 bilhões no ano anterior. Em 2016, ano do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, os não residentes tiraram do país US$ 26,6 bilhões em investimentos em renda fixa.

As saídas registradas em 2018 representam uma pequena fração do estoque de investimentos mantidos por estrangeiros no mercado de ações. Em dezembro, o estoque de aplicações de não residentes em ações somava US$ 301 bilhões. Ao longo do ano passado, a desvalorização do real e a queda do mercado acionário chegaram a reduzir o montante de investimentos estrangeiros a US$ 256 bilhões em junho.

Se os investimentos em carteira tiveram desempenho fraco em 2018, o mesmo não se pode dizer dos investimentos diretos, que tiveram alta de 25,7% frente a 2017 e somaram US$ 88,314 bilhões, acima da projeção de US$ 80 bilhões feita pelo BC no início do ano.

O saldo foi mais do que suficiente para cobrir o déficit em transações correntes. Este, apesar de ter dobrado na comparação com o ano anterior, segue em patamar historicamente baixo, a US$ 14,511 bilhões, ou 0,77% do PIB. Em dezembro, o déficit foi de 815 milhões.

Mas o crescimento nos fluxos de investimentos diretos se concentrou, sobretudo, nos empréstimos intercompanhia. As participações no capital encolheram de 2017 para 2018, de US$ 64,008 bilhões para US$ 55,994 bilhões. A queda se concentrou nas grandes operações, com valores superiores a US$ 1 bilhão. Os empréstimos intercompanhia aumentaram de US$ 6,2 bilhões para US$ 32,320 bilhões.

Em nota a clientes, o Goldman Sachs destacou que o ajuste das contas externas tem sido movido essencialmente pela demanda doméstica fraca. “Acreditamos que um ajuste fiscal profundo que elevasse a poupança do setor público é necessário para facilitar um ajuste estruturas permanente das transações correntes”, afirmou o economista para economias emergentes, Aberto Ramos.

O aumento do déficit em 2018 se explica pela retomada gradual da economia. Gerou aumento da demanda por importados, afetando o resultado da balança comercial. No ano, o superávit comercial caiu 16,3%, para US$ 53,587 bilhões.

A conta de serviços ficou praticamente estável, com déficit de US$ 33,95 bilhões. A alta do dólar conteve um aumento das despesas, segundo o chefe do Departamento de Estatísticas do BC, Fernando Rocha. O maior exemplo é o da conta de viagens internacionais. As despesas dos brasileiros com viagens ao exterior recuaram 3,9%, após terem crescido em 2017, para US$ 18,26 bilhões. Também houve queda nos gastos com aluguel de equipamentos (-10,9%) e com serviços de propriedade intelectual (-5,5%).

Para este ano, a projeção do BC é de continuidade do processo de recuperação da atividade siga impactando as contas externas. A estimativa é o saldo em transações correntes mais do que dobrar e alcançar US$ 35,6 bilhões, 1,8% do PIB. Já o IDP aumentará para US$ 90 bilhões.

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