Renda Fixa Pós-Fixada: Em Busca da Rentabilidade Perdida

Flávio Mattos (Valor, 28/03/19) informa: em março de 2019, as Letras Financeiras do Tesouro (LFT) atingiram o patamar de cinco dígitos, o valor de R$ 10 mil.

As LFT são títulos com rentabilidade diária vinculada à taxa de juros básica da economia, a Selic, e iniciaram com o valor de R$ 1 mil em julho de 2000. Portanto, em pouco mais de 18 anos e meio, os investidores ao aplicarem nas LFT conseguiram acumular uma valorização de 900% – ou seja, decuplicaram (multiplicaram por 10 vezes o seu investimento).

As LFTs foram criadas em novembro de 1987 aproveitando o sucesso da Letra do Banco Central (LBC), título com a mesma característica, sendo as primeiras de responsabilidade do Tesouro Nacional e destinadas especificamente para financiamento dos déficits orçamentários. As sucessivas crises macroeconômicas vividas pelo país nessa época, com níveis de inflação e incerteza elevados, permitiram que esses títulos fossem praticamente a única forma de financiamento da dívida.

Os melhores fundamentos a partir principalmente de 2000, com resultados fiscais significativos, permitiram diversos avanços no gerenciamento da dívida pública, com visíveis melhoras na composição da dívida por meio do desenvolvimento do mercado de títulos prefixados e de títulos referenciados por índices de preços, pela menor exposição cambial e pelo alongamento da dívida pública.

Foi nessa época que o Tesouro zerou a contagem das LFTs e reiniciou com o valor de R$ 1.000 (julho de 2000).

Em períodos de incerteza, títulos pós-fixados, como as LFTs, cuja rentabilidade segue a variação diária da taxa Selic, possuem forte demanda já que não incorrem em perdas com as oscilações das taxas de juros previstas pelo mercado. Diferentemente do que ocorre em outros países, onde instrumentos flutuantes são normalmente indexados a uma taxa de juros trimestral ou semestral, a LFT é indexada à taxa diariamente fixada pela autoridade monetária.

A cultura do investimento pós-fixado em CDI ou Selic por parte dos investidores sempre colocou a LFT como o título preferido da indústria de fundos de investimentos, principalmente os de renda fixa. Os fundos continuam como os maiores detentores desses títulos (47,51% do estoque da dívida), o que representa 67% de todo o estoque de títulos públicos federais nos fundos, em dados de janeiro de 2018.

Nesses mais de 18 anos, os números mostram que os fundos de renda fixa se beneficiaram da tríade financeira oferecida pelas LFTs: rentabilidade muito significativa, baixa volatilidade e alta liquidez. A rentabilidade nominal de 900% equivale a uma rentabilidade anual média de 13,16% ao ano e uma rentabilidade real – descontada da inflação IPCA – de 6,34% ao ano. A inflação anualizada no período foi de 6,41% (em 13 de março de 2019).

Quando comparamos com o retorno da bolsa de valores, que também atingiu em março um patamar histórico importante de seis dígitos – 100 mil pontos, notamos a grande vantagem da renda fixa sobre os ativos mais arriscados, que a princípio deveriam render mais. A rentabilidade do Ibovespa no mesmo período foi de 472% e, portanto, a LFT ou a Selic rendeu 3,04% a mais do que o índice por ano. Não é pouco.

Os títulos prefixados e indexados à inflação, também presentes nos fundos de renda fixa, obtiveram ganhos ainda maiores. O índice IRF-M, que mede o desempenho dos títulos prefixados, desde dezembro de 2000 variou 1.134%. Comparando no mesmo período com as LFTs, os títulos prefixados renderam 118,20% da Selic.

Ao comemorar ter atingido esse valor histórico, os fundos detentores das LFT estão em busca da rentabilidade perdida. Embora o retorno tenha sido muito atraente, podemos notar uma tendência decrescente desse retorno ao longo do tempo. Ao dividirmos esse período pela metade, pode-se medir na primeira um retorno de 16,19% ao ano e de 10,21% ao ano na segunda.

Hoje, a expectativa de retorno nominal para um ano projetada pelo mercado é de apenas 6,48%, com uma expectativa de inflação de 4,05% também em um ano – o que projeta um retorno real de apenas 2,33% ao ano, em dados de mercado de 08 de março. Portanto, temos uma expectativa de retorno nominal e real caindo para quase um terço do período histórico das LFTs.

Com uma Selic estacionada há um ano em 6,40%, o retorno mensal médio desses títulos não passa de 0,52%.

Sabendo que o emissor dos títulos possui uma dívida pública que não suporta mais o pagamento de juros nos patamares históricos, a melhor saída para os investidores para os próximos anos seria uma maior diversificação dos investimentos. Para o bem do Brasil e a correção histórica da teoria de retornos maiores com riscos também superiores, o índice acionário e outros ativos de risco terão que render muito mais do que as famosas LFT.

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