Reinventando o Ensino Superior: Qualificação Maior dos Trabalhadores Intelectuais

Área interna de prédio da FAU, na USP,  em São PauloHélio Schwartsman, jornalista, ex-editor de Opinião da FSP, é autor do livro “Pensando Bem…”. Publicou artigo (FSP, 10/04/19) explicando direitinho, quase “desenhando”, para até os bolsonaristas conseguirem entender: Universidades não são “antros de comunistas” (crítica demodê e anacrônica dos anos de Guerra Fria), mas sim de gente inteligente em busca de maior conhecimento.

“É verdade que o pensamento de esquerda predomina nas universidades. Isso não é exclusividade do Brasil, mas uma tendência geral no Ocidente.

Nos EUA, onde existe medida para quase tudo, a proporção dos professores universitários (todas as áreas) que se declaram liberais ou de extrema esquerda em relação aos que se dizem conservadores ou de extrema direita atingiu o pico de cinco para um em 2011. Durante a maior parte do século 20, a taxa oscilou entre dois e três para um.

O motivo para o desequilíbrio não é um complô do globalismo gramsciano, mas uma razão bem mais trivial: um dos traços de personalidade mais fortemente correlacionados à esquerda, a abertura ao novo, é também uma característica que leva pessoas a aprofundar-se nos estudos e a procurar a carreira acadêmica.

De modo análogo, encontramos mais direitistas nos quartéis e nas polícias, porque esse grupo tende a pontuar mais alto na escala de conscienciosidade, a preferência por previsibilidade e por ações planejadas.

​E a desproporção é um problema? Depende do tamanho dela. De acordo com Greg Lukianoff e Jonathan Haidt, autores do excelente “The Coddling of The American Mind”, do qual eu tirei a maior parte das informações desta coluna, não é necessário estabelecer cotas de professores conservadores, mas é importante que haja diversidade ideológica suficiente para evitar a instalação do pensamento único.

A dupla acredita que uma “ratio” de dois ou três professores de esquerda para um de direita basta para garantir a liberdade acadêmica e o que chama de desconfirmação institucionalizada, isto é, assegurar que uma corrente não se encastele em posições-chave e passe a bloquear contratações e publicações de pesquisadores que pensem de outra forma.

As áreas de estudo, quando a homogeneidade se enquista, acabam mesmo produzindo material que se parece muito mais com religião do que com ciência.”

PS:

Sobre o livro The Coddling of The American Mind:

É uma investigação oportuna sobre:

  1. o ataque ao campus pela liberdade de expressão e
  2. o que isso significa para os estudantes, a educação e a democracia.

A geração Y está chegando à maturidade e à ela foi ensinada três Grandes inverdades:

  1. seus sentimentos estão sempre certos;
  2. eles devem evitar dor e desconforto; e
  3. eles devem procurar falhas nos outros e não em si mesmos.

Essas três Grandes Verdades são parte de uma filosofia maior espalhada em rede social de direita. Ela vê os jovens como criaturas frágeis a serem protegidas e supervisionadas por adultos conservadores.

Mas, apesar das “boas intenções” (sic) dos adultos ao as transmitirem, as Grandes Verdades estão prejudicando os jovens, ensinando-lhes o oposto da sabedoria antiga e o oposto das descobertas psicológicas modernas sobre determinação, crescimento e antifragilidade. O resultado são taxas crescentes de depressão e ansiedade, junto com histórias intermináveis ​​de campi universitários dilacerados por divisões moralistas e recriminações mútuas.

Este é um livro sobre como chegamos a esse ponto. Greg Lukianoff, especialista em First Amendment, e Jonathan Haidt, psicólogo social, nos levam a conhecer as tendências sociais da década de 1980: a Era do Neoliberalismo individualista, incensado pela Geração Yuppie — jovens urbanos bem-sucedidos em O Mercado. Elas  produziram confusão e conflitos no campus hoje, incluindo a perda do tempo de reprodução não supervisionado e o nascimento das mídias sociais. durante um período de crescente polarização política.

Este é um livro sobre como consertar a bagunça. A cultura da “segurança” e sua intolerância a pontos de vista opostos deixou muitos jovens ansiosos e despreparados para a vida adulta, com consequências devastadoras para eles, para seus pais, para as empresas com expectativas de os contratar em breve, e para uma democracia já levada à beira da violência por causa de suas crescentes divisões políticas.

Lukianoff e Haidt oferecem um conjunto abrangente de reformas que fortalecerão os jovens e as instituições, permitindo-nos a todos colher os benefícios da diversidade, incluindo a diversidade de pontos de vista.

Este é um livro para quem está confuso com o que está acontecendo nos campi universitários hoje, ou tem filhos, ou está preocupado com a crescente incapacidade dos americanos de viver e trabalhar e cooperar entre as linhas partidárias.

Reinventando o Ensino Superior

Em tempos de polarização de opiniões e ataques em redes sociais, o campus da faculdade volta a ser um importante espaço para discussões políticas e sociais. Para tanto, eles precisam ser neutros. As instituições de ensino sabem que para preservar a liberdade de expressão, entretanto, devem estabelecer regras de convívio e ensinar os alunos sobre o genuíno respeito à diversidade.

Para os reitores e especialistas que participaram 10a edição da conferência “Reinventing Higher Education” (Reinventando o Ensino Superior), na Universidade Brown, em Providence, nos Estados Unidos, esse é um tema que vai ganhar cada vez mais relevância diante das transformações socio-políticas atuais.

“Com a ascensão do populismo em vários países, as universidades têm que ensinar os alunos a discordarem de forma respeitosa, a processarem as diferenças e a perseguirem a verdade. Como instituições, temos que investir em padrões de inclusão e sermos um exemplo para todos”, diz Julio Frenk, presidente da Universidade Miami, nos Estados Unidos.

O presidente da Universidade Americana de Beirute, no Líbano, diz ser importante as faculdades, no seu papel de educadoras, ensinem valores para os alunos. Um terço da população do seu país hoje é formado por refugiados. Seu campus é bastante diverso, por isso tem trabalhado bastante a questão da diversidade.

Um exemplo de que é possível começar a mudar as coisas foi a adesão dos estudantes filiados ao Hezbollah e outros partidos religiosos a uma petição dando apoio à comunidade LGBT para eles serem melhor recebidos pela comunidade universitária. As escolas não têm apenas educar, mas também ajudar a promover as transformações sociais.

Em um clima hostil e de polarização mundial na área política, cabe aos educadores melhorar o processo de informação dos alunos. Os jovens talvez sejam hoje o grupo mais vulnerável aos dados trazidos pelas mídias sociais.

Os alunos já chegam com a opinião formada, cabe a universidade destrinchar a informação para promover o debate. O populismo de direita é contagioso e tende a baixar o nível das discussões. Temos de cuidar para isso não acontecer dentro da universidade.

As instituições de ensino não devem tomar partido, mas não podem ser tolerantes a comportamentos extremos que possam inibir a participação de alguns alunos. Temos certas restrições para preservar o que caracteriza o debate acadêmico como, por exemplo, saber diferenciar o que é fato de o que é opinião. Nosso papel é trazer dados capazes de mostrarem a verdade — e refutem a pós-verdade de fake News dos populistas de direita.

Stela Campos (Valor, 11/04/19) avalia: as faculdades e universidades, em todo o mundo, têm hoje o grande desafio de resgatar o interesse de estudantes cada vez mais viciados em tecnologia e encantados pelo convívio em universos virtuais.

As escolas sabem que as inovações tecnológicas precisam estar mais presentes na sala de aula para que elas se tornem mais atraentes e que, sobretudo, é necessário restabelecer a conexão dos alunos com os professores e as próprias instituições.

Um meio de engajar a nova geração tem sido envolvê-los em projetos nos quais eles sintam que estão se preparando para o mercado de trabalho e, ao mesmo tempo, contribuindo para a transformação da sociedade.

Esses foram alguns dos principais tópicos discutidos na 10a edição da conferência “Reinventing Higher Education” (Reinventando o Ensino Superior), que aconteceu na semana passada na Universidade Brown, em Providence, nos Estados Unidos. O evento, promovido pela universidade americana e pela espanhola IE, abordou este ano o tema “Building the Human Capital of Tomorrow: a Global Responsability” (Construindo o Capital Humano do Futuro: uma responsabilidade global) e reuniu 35 palestrantes entre reitores e especialistas de 20 países, representando cinco continentes.

Temos o desafio de ensinar os nossos professores a ensinarem os nossos alunos a aprender como aprender. A abundância de informações hoje cria a necessidade de se desenvolver o pensamento crítico dos estudantes.

Temos de ajudá-los a ter mais autonomia para discutir os assuntos, a ser responsáveis socialmente e não deixá-los assistindo passivamente a uma aula. A relação entre mestre e aluno tem de mudar e a tecnologia permeia essa mudança. O estudante às vezes confia mais na Wikipedia em vez de ouvir o professor. O papel de quem ensina precisa ser outro.

Os MOOCS, cursos on-line gratuitos ou com preços mais acessíveis, surgidos em 2008, atualmente oferecidos por boa parte das grandes universidades do mundo, são vistos pelos reitores como complementares ao ensino universitário tradicional e não como uma ameaça. Eles expandiram e não há como negar que são uma fonte com alto potencial de aprendizado, mas eles não substituem o convívio em um mesmo espaço e a argumentação que surge em uma sala de aula.

Os Moocs criaram a oportunidade de personalizar a educação disponibilizando cursos de assuntos específicos e abrindo caminho para o aluno construir uma trilha de conhecimento. Eles não substituem a experiência interpessoal e não estão acessíveis a todo mundo. Na África, por exemplo, o acesso à banda larga ainda é um problema para os cursos on-line.

O MIT, uma das instituições de ensino pioneiras na criação de cursos on-line gratuitos, aproveita o poder de atração dessa plataforma para conquistar alunos para o curso presencial. Convidamos os estudantes com melhor desempenho nos Moocs para virem ao campus e terem uma experiência real. Dessa forma, a escola consegue descobrir talentos escondidos em diferentes partes do mundo. A internet funciona como um filtro para chegar até eles.

O futuro do ensino superior passa pela flexibilização dos modelos de ensino tradicional e on-line. Os alunos já na graduação precisam ser preparados para o ‘ensino para a vida toda. O ensino agora é direcionado também pelos estudantes e não apenas pelas instituições.

Os alunos querem aprender com a experiência, ver a viabilidade das suas ideias. Por exemplo, um projeto foi criado por um grupo de estudantes da graduação há dois anos para medir o “humor” da própria escola. É uma plataforma capaz de indicar o índice de estresse dos alunos semanalmente, baseados na avaliação deles sobre os professores, os exames, o ambiente, entre outros fatores. A ferramenta já foi usada por 80% dos 5 mil estudantes e passou a oferecer insights importantes. Eles estão influenciando o próprio modelo de negócios da instituição.

A tecnologia oferece um espaço importante para que as escolas possam experimentar coisas novas. Há mais oportunidade de inovar, de mexer nos currículos e adaptá-los. Podemos entender melhor quais habilidades os alunos precisam desenvolver e personalizar o ensino.

Os estudantes hoje querem fazer as coisas no seu próprio tempo e, se o objetivo é buscar engajamento e renovar o interesse pelo ensino tradicional, é preciso parar de ditar algumas regras.

As faculdades também têm que aprender com os estudantes e estar abertas para ouvir o que eles têm a dizer. Não dá para a academia virar às costas, por exemplo, para as mídias sociais. Temos de aprender a lidar com as fake news.

As mídias sociais são uma ferramenta importante para a escola. Os alunos vão perguntar sobre elas, então precisamos entender primeiro o que está acontecendo, não ignorar.

Um dos grandes desafios para as escolas é trazer para dentro do currículo questões mundiais que o jovem acompanha e das quais quer participar de alguma forma. Hoje se observa um esforço das escolas para incluir as comunidades externas na sala de aula na forma de projetos e pesquisas de campo. É importante isso fazer parte de exames e esteja nos currículos.

Os estudantes são incentivados a produzir podcasts e vídeos sobre suas pesquisas sociais. Depois são veiculados nas comunidades relacionadas ao estudo. É uma forma do estudante expressar a sua identidade e contribui com suas análises. Os empregadores também estão observando esse movimento.

Diante da perspectiva de que não é possível prever quais serão os empregos disponíveis nos próximos 50 anos, a habilidade a ser desenvolvida para o mercado de trabalho é a de ser “uma pessoa que faz“, não importa o quê. O melhor conjunto de competências para o jovem envolve resiliência, agilidade e autoconfiança. As companhias vão precisar de pessoas com essa mentalidade que possam ajudar a construir uma cultura corporativa mais sustentável.

Os empregadores querem pessoas que saibam resolver problemas a partir do desenvolvimento de projetos.

O continente africano ainda vai representar a maior força de trabalho do mundo. Precisamos investir no conhecimento, desenvolver habilidades para os jovens trabalharem em grupo, se comunicarem melhor, aprenderem fazendo, mas, acima de tudo, prepará-los para ter caráter ao lidar com as questões do mundo.

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