Direito à Felicidade

Yuval Noah Harari, no livro “Homo Deus: Uma breve história do amanhã” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015), avalia: o segundo grande projeto na agenda humana será provavelmente encontrar a chave para a felicidade.

No decorrer da história, muitos pensadores e profetas, e também muitas pessoas comuns, definiram a felicidade, e não a vida em si mesma, como um bem supremo.

Na Grécia antiga, o filósofo Epicuro explicou que o culto a deuses é um desperdício de tempo, que não há existência após a morte e que a felicidade é o único propósito da vida. Embora tenha sido rejeitado na Antiguidade, o epicurismo tornou-se a concepção-padrão.

O ceticismo em relação a uma existência pós-vida impele o gênero humano a buscar a imortalidade, e igualmente a felicidade terrena. Quem gostaria de viver para sempre em um tormento eterno?

Para Epicuro, a busca da felicidade era uma procura pessoal. Pensadores modernos, em contrapartida, tendem a considerá-la um projeto coletivo. Sem planejamento governamental, recursos econômicos e pesquisa científica, ninguém conseguirá ir longe na sua busca da felicidade. Se seu país foi dilacerado por uma guerra, se a economia está em crise e se o acesso à saúde é inexistente, é bem provável que você seja infeliz.

No final do século XVIII, o filósofo britânico Jeremy Bentham declarou que o bem supremo é “a maior felicidade para o maior número de pessoas”. Ele concluiu que o único objetivo meritório do Estado, do mercado e da comunidade científica consistia em incrementar a felicidade global. Políticos deveriam assegurar a paz, homens de negócios deveriam estimular a prosperidade, e aos estudiosos caberia estudar a natureza — não para uma glória maior de um rei, de um país ou de Deus, e sim para que você e eu possamos usufruir uma vida mais feliz.

Durante os séculos XIX e XX, embora aparentemente muitos concordassem com a concepção de Bentham, governos, corporações e laboratórios focaram suas conquistas em metas mais imediatas e bem definidas. Os países avaliavam o sucesso pelo tamanho de seu território, o aumento de sua população e o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) — e não pela felicidade de seus cidadãos.

“Nações industrializadas como Alemanha, França e Japão estabeleceram sistemas gigantescos de educação, saúde e bem-estar social, todos com o objetivo de fortalecer a Nação, em vez de assegurar o bem-estar individual”.

[Não concordo com esta hipótese generalista de Yuval Noah Harari. Assegurar o bem-estar social era a meta da socialdemocracia capaz de elevação do IDH – Índice de Desenvolvimento Humano correlacionado ao FIB — Felicidade Interna Bruta.]

“Em 1776, os Pais Fundadores dos Estados Unidos estabeleceram que o direito à busca pela felicidade era um dos três direitos inalienáveis do homem, ao lado do direito à vida e do direito à liberdade. No entanto, é importante observar que a Declaração de Independência dos Estados Unidos garantia o direito de busca da felicidade, e não o direito à felicidade em si.

Crucialmente, Thomas Jefferson não responsabilizou o Estado pela felicidade de seus cidadãos. Ao contrário, buscou apenas limitar seu poder. A ideia era reservar ao indivíduo um âmbito privado de escolhas, livre da supervisão do Estado. [Por isso, a esquerda norte-americana republicana é conhecida como “liberal”: defende a igualdade de oportunidades e o livre-arbítrio individual.]

Mas nas últimas décadas a situação mudou, e a visão de Bentham tem sido levada mais a sério. Cada vez mais se acredita que os imensos sistemas estabelecidos há mais de um século para fortalecer a nação deveriam efetivamente prover felicidade e bem-estar aos cidadãos, como indivíduos. Não estamos aqui para servir o Estado — ele é que deve nos servir.

O direito de buscar a felicidade, concebido na origem como uma restrição ao poder do Estado, imperceptivelmente ganhou forma de direito à felicidade — como se os seres humanos tivessem o direito natural de serem felizes. Nesse sentido, tudo o que nos faça ficar insatisfeitos seria uma violação de nossos direitos humanos básicos, de modo que o Estado deveria fazer algo a respeito.

No século XX, talvez o principal parâmetro para avaliar o sucesso nacional fosse o PIB per capita. Porém, atualmente, pensadores, e até economistas, defendem suplementar, ou mesmo substituir, o PIB pelo FIB — Felicidade Interna Bruta (em inglês GDH, Gross Domestic Happines). Afinal, o que as pessoas querem? Elas não querem produzir. Querem ser felizes. A produção é importante porque provê a base material para a felicidade. Mas ela constitui apenas os meios, não o fim.

[Hoje se qualifica mais essa hipótese. Felicidade é um estado de espírito (psicológico) passageiro. Boa vida é uma qualidade mais perene. A ideia é cada ser humano ter acesso a bens essenciais para ter uma boa-vida: saúde, segurança, personalidade, respeito, harmonia com a natureza, amizade, lazer criativo.]

Quando Epicuro definiu a felicidade como o bem supremo, advertiu seus discípulos de que ser feliz exige trabalho duro. Conquistas materiais não proporcionam satisfação por muito tempo. Na verdade, a perseguição cega do dinheiro, da fama e do prazer só torna as pessoas infelizes.

Epicuro recomenda, por exemplo, comer e beber com moderação e refrear os apetites sexuais. No longo prazo, uma amizade profunda provoca mais alegria do que uma orgia frenética. Epicuro delineou uma ética de o que se deve e não se deve fazer para orientar as pessoas no traiçoeiro caminho para a felicidade.

Epicuro aparentemente percebeu que ser feliz não é algo que acontece com facilidade. A despeito de nossas conquistas sem precedentes nas últimas décadas, está longe de ser óbvio que os contemporâneos estejam significativamente mais satisfeitos do que seus ancestrais. Com efeito, como um sinal nefasto, apesar de mais prosperidade, conforto e segurança, a taxa de suicídios no mundo desenvolvido é muito mais elevada do que nas sociedades tradicionais.

Mesmo que tenhamos superado muitas agruras do passado – fome, guerra e doença –, alcançar uma felicidade afirmativa pode ser muito mais difícil do que abolir completamente o sofrimento. Um pedaço de pão era suficiente para alegrar um camponês medieval faminto. Como alegrar um engenheiro entediado, muito bem remunerado e obeso?

“O teto de vidro da felicidade é mantido no lugar por dois pilares sólidos, um psicológico e outro biológico”.

No nível psicológico, a felicidade depende mais de expectativas do que de condições objetivas. Não ficamos satisfeitos com uma existência pacífica e próspera. Em vez disso, nosso contentamento resulta de a realidade corresponder a nossas expectativas.

Porém, à medida que as condições melhoram, nossas expectativas inflam. Melhoras dramáticas nas condições, como as que a humanidade vem experimentando em décadas recentes, se traduzem em expectativas maiores e não em mais contentamento. Se não fizermos alguma coisa quanto a isso, ficaremos insatisfeitos também com nossas conquistas futuras.

No nível biológico, tanto nossas expectativas como nossa felicidade são determinadas mais pela bioquímica do que pela situação econômica, social ou política.

Segundo Epicuro, ficamos felizes quando desfrutamos de sensações agradáveis e nos sentimos livres das desagradáveis. Jeremy Bentham, de modo semelhante, sustentava que a natureza deu o domínio sobre o homem a dois senhores — o prazer e a dor — e eles sozinhos determinam tudo o que fazemos, dizemos e pensamos.

O sucessor de Bentham, John Stuart Mill, explicou que a felicidade nada é senão o prazer e a libertação da dor. Para além de um e de outro, não há nem o bem nem o mal. Aquele que buscar deduzir o bem e o mal de algo diferente (como a palavra de Deus ou o interesse nacional) estará tentando enganá-lo, e talvez enganando a si mesmo também.

Nos tempos de Epicuro, tal discurso seria uma blasfêmia. Nos tempos de Bentham e de Mill, era subversão radical. Mas, no início do século XXI, é ortodoxia científica.

Segundo as ciências biológicas, a felicidade e o sofrimento não são mais do que sensações corporais balanceadas de maneiras diferentes. Nunca reagimos a acontecimentos no mundo exterior, somente a sensações que ocorrem em nosso corpo.

Ninguém sofre porque perdeu o emprego, porque se divorciou ou porque o governo deu início a uma guerra. O que faz as pessoas infelizes são as sensações desagradáveis verificadas no próprio corpo. Perder o emprego certamente pode desencadear uma depressão, que é em si um tipo de sensação corporal desagradável. São vários os motivos que podem nos fazer ficar com raiva, porém a raiva nunca é uma abstração. Ela sempre é sentida como uma sensação de calor e tensão no corpo, que é o que a torna tão irritante. Não é à toa que dizemos que estamos “ardendo” de raiva.

Inversamente, de acordo com a ciência ninguém fica feliz ao conseguir uma promoção, ganhar na loteria ou encontrar o amor verdadeiro. As pessoas ficam felizes com uma coisa, e uma coisa apenas — sensações de prazer no corpo.

Se você acabou de ouvir que recebeu uma promoção inesperada no trabalho e começa a dar pulos de alegria, está reagindo ao tipo de sensação do êxtase. As partes mais profundas de sua mente conhecem apenas sensações. Se você recebeu uma promoção, mas por algum motivo não sente nenhuma sensação prazerosa, não ficará satisfeito. O oposto também é verdadeiro. Se você acabou de ser despedido, mas está experimentando sensações muito prazerosas (talvez por ter tomado algum comprimido), poderá assim mesmo sentir que está no topo do mundo.

A má notícia é as sensações agradáveis passarem rapidamente e mais cedo ou mais tarde tornam-se desagradáveis. Nada garante felicidade eterna. Na verdade, a partir daí tudo pode seguir ladeira abaixo. De modo similar, se no ano passado eu ganhei uma promoção inesperada no trabalho, posso até ainda estar ocupando a nova posição, mas as agradáveis sensações que experimentei ao ouvir a notícia desapareceram em poucas horas. Se quiser sentir novamente aquelas sensações maravilhosas, terei de conseguir outra promoção. E depois outra. E assim por diante, senão posso ficar ainda mais amargo e enraivecido do que estaria se tivesse continuado a ser um humilde trabalhador.

Essa é a maior falha da evolução. Por gerações incontáveis nosso sistema bioquímico adaptou-se à necessidade de aumentar nossas probabilidades de sobrevivência e reprodução, não de promover nossa felicidade.

O sistema bioquímico recompensa ações que levam à sobrevivência e à reprodução com sensações agradáveis. Mas se trata apenas de um artifício efêmero de venda. Nós nos esforçamos para ter comida e um parceiro ou parceira a fim de evitar sensações desagradáveis de fome e de usufruir sabores agradáveis e orgasmos prazerosos. Mas sabores agradáveis e orgasmos prazerosos não duram muito tempo, e se quisermos tornar a senti-los teremos de sair em busca de mais comida e de parceiros ou parceiras.

O que nós, animais humanos, buscamos reunir — empregos lucrativos, casas espaçosas, parceiros ou parceiras de boa aparência — raramente nos satisfazem por muito tempo.

Alguns dirão: isso não é ruim, porque não é o objetivo que nos torna felizes — é a jornada:

  1. escalar o monte Evereste é mais prazeroso do que ficar de pé em seu topo;
  2. o flerte e as preliminares são mais excitantes do que o orgasmo em si; e
  3. conduzir experimentos inovadores em laboratórios é mais interessante do que receber prêmios e reconhecimento.

Mas isso quase não modifica o quadro. Indica apenas que a evolução nos controla com uma grande abrangência de prazeres. Às vezes ela nos seduz com sensações de felicidade e tranquilidade, enquanto em outras ocasiões nos empurra adiante com eletrizantes sensações de júbilo e excitação.

Talvez a chave para a felicidade não seja nem a corrida nem a medalha de ouro, e sim a combinação de doses certas de excitação e tranquilidade. Mas a maioria das pessoas tende a saltar toda a distância que vai do estresse ao tédio e, ao fim, segue descontente com um e com o outro.

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