Deuses Naturais do Planeta Terra: Homo Deus

Yuval Noah Harari, no livro “Homo Deus: Uma breve história do amanhã” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015), comenta: ao buscar a felicidade e a imortalidade, os humanos estão na verdade tentando promover-se à condição de deuses. Não só porque esses atributos são divinos, mas igualmente porque, para superar a velhice e o sofrimento, terão de adquirir primeiro um controle de caráter divino sobre o próprio substrato biológico. Se algum dia detivermos o poder de excluir a morte e a dor de nosso sistema, esse poder provavelmente será suficiente para estruturar nosso sistema do jeito que quisermos e para manipular nossos órgãos, emoções e inteligência de várias maneiras.

A elevação dos humanos à condição de deuses pode seguir qualquer um dentre estes três caminhos:

  1. engenharia biológica,
  2. engenharia cibernética e
  3. engenharia de seres não orgânicos.

A engenharia biológica começa com a noção de que estamos longe de constatar todo o potencial dos corpos orgânicos. Durante 4 bilhões de anos, a seleção natural vem fazendo ajustes e correções nesses corpos, de modo que passamos de amebas a répteis, a mamíferos e a Sapiens. Contudo, não há motivo para pensar que Sapiens seja o último estágio.

A bioengenharia não vai ficar esperando pacientemente a seleção natural realizar a sua mágica. Bioengenheiros vão pegar o velho corpo do Sapiens e reescrever intencionalmente seu código genético, reconectar seus circuitos cerebrais, alterar seu equilíbrio bioquímico e até mesmo provocar o crescimento de novos membros. Disso resultarão novas entidades divinas. Poderão ser tão diferentes de nós Sapiens quanto somos diferentes do Homo erectus.

A engenharia cibernética dará um passo a mais, ao fundir o corpo orgânico com dispositivos não orgânicos, como mãos biônicas, olhos artificiais ou milhões de nanorrobôs. Eles navegarão na corrente sanguínea com o propósito de diagnosticar doenças e corrigir danos. Um ciborgue poderia dispor de capacidades muito além daquelas comuns a qualquer corpo orgânico.

Mas mesmo a engenharia cibernética é relativamente conservadora, ao assumir que os cérebros orgânicos continuarão a ser os centros de comando e controle da vida. Uma abordagem mais ousada dispensa totalmente as partes orgânicas, com a expectativa de dominar a engenharia de seres completamente não orgânicos.

Redes neurais serão substituídas por softwares inteligentes, que poderiam surfar em mundos virtuais e não virtuais, livres das limitações da química orgânica. Depois de 4 bilhões de anos perambulando no reino dos compostos orgânicos, a vida eclodirá na vastidão do reino inorgânico e assumirá formas que não podemos vislumbrar mesmo em nossos sonhos mais loucos. Afinal, esses sonhos ainda são produto da química orgânica.

Sair fora do reino orgânico poderia permitir que a vida finalmente saísse do planeta Terra também. Durante 4 bilhões de anos a vida permaneceu confinada a este minúsculo fragmento de planeta porque a seleção natural fez todos os organismos serem totalmente dependentes de condições exclusivas desta rocha voadora. Nem mesmo as bactérias mais resistentes podem sobreviver em Marte.

Uma inteligência artificial não orgânica, em contraste, vai achar que é muito mais fácil colonizar outros planetas. A substituição da vida orgânica por seres inorgânicos pode portanto ser a semente de um futuro império galáctico.

Não sabemos para onde esses caminhos podem nos levar, nem que aparência terão nossos descendentes divinoides. Predizer o futuro nunca foi fácil, e biotecnologias avançadas podem dificultar essa empreitada. Por mais difícil que seja prever o impacto de novas tecnologias em campos como transportes, comunicação e energia, tecnologias para o aprimoramento de seres humanos representam um tipo de desafio totalmente distinto. Como podem ser usadas para transformar mentes e desejos humanos, pessoas que têm mentes e desejos atuais não podem, por definição, compreender suas implicações.

Por milhares de anos reviravoltas tecnológicas, econômicas, sociais e políticas fizeram parte da história. Mas algo permaneceu constante: a humanidade em si mesma. Nossos instrumentos e instituições atuais são muito diferentes daqueles dos tempos bíblicos, mas as estruturas mais profundas na mente humana não se alteraram.

Por isso ainda conseguimos nos reconhecer nas páginas da Bíblia, nos textos de Confúcio ou nas tragédias de Sófocles e Eurípides. Esses clássicos foram criados por humanos como nós, e sentimos que eles falam a nosso respeito.

No entanto, quando a tecnologia permitir a reengenharia das mentes humanas, o Homo sapiens vai desaparecer, a história humana caminhará para seu fim, e um tipo de processo completamente novo vai surgir, incompreensível para pessoas como você e eu.

Muitos estudiosos tentam prever qual será o aspecto do mundo em 2100 ou em 2200. É uma perda de tempo. Qualquer previsão, para ser válida, deve levar em conta a capacidade de reengenharia das mentes humanas. Isso é impossível.

No século XXI, o terceiro grande projeto da humanidade será:

  1. adquirir poderes divinos de criação e destruição e
  2. elevar o Homo sapiens à condição de Homo deus.

Esse terceiro projeto obviamente engloba os dois primeiros e é por eles alimentado. Queremos ter a capacidade de fazer a reengenharia de nosso corpo e mente acima de tudo para escapar à velhice, à morte e à infelicidade, mas, uma vez dispondo disso, o que mais poderíamos fazer com tal capacidade? Assim, bem podemos pensar que a nova agenda humana na realidade consiste em um só projeto (com muitos ramos): alcançar a divindade.

Se isso não soa científico ou se parece totalmente excêntrico, é porque com frequência as pessoas entendem mal o sentido da divindade. Divindade não é uma vaga qualidade metafísica. E não é o mesmo que onipotência. Quando se fala em elevar humanos à condição de deuses, a ideia diz mais respeito aos deuses gregos, ou aos devas hindus, do que a um pai celestial bíblico e onipotente.

Nossos descendentes ainda teriam seus pontos fracos, suas imperfeições e limitações, assim como Zeus e Indra tiveram os seus. Mas seriam capazes de amar, odiar, criar e destruir numa escala muito maior em relação à nossa.

No decorrer da história acreditou-se que a maioria dos deuses não era onipotente, mas possuía supercapacidades específicas, tais como a de:

  1. projetar e criar seres vivos;
  2. transformar o próprio corpo;
  3. controlar o meio ambiente e o clima;
  4. ler mentes e se comunicar à distância;
  5. movimentar-se a velocidades muito altas e
  6. obviamente, escapar da morte e viver infinitamente.

Os seres humanos estão tratando de adquirir todas essas capacidades, e outras mais. Certas aptidões tradicionais, que durante milênios foram consideradas divinas, tornaram-se tão comuns que quase não pensamos nelas. Hoje, uma pessoa mediana se move e se comunica a grandes distâncias com muito mais facilidade do que antigos deuses gregos, hindus ou africanos.

Até agora estávamos competindo com os deuses da Antiguidade na criação de ferramentas cada vez melhores. Num futuro não tão distante poderíamos criar super-humanos capazes de exceder os deuses antigos não em suas ferramentas, mas em suas faculdades corporais e mentais. Se e quando chegarmos lá, no entanto, a divindade terá se tornado tão corriqueira quanto o ciberespaço — uma maravilha das maravilhas que já consideramos como certa.

É certo que os humanos se esforçarão para atingir a divindade, pois têm muitos motivos para querer essa atualização e muitos caminhos para consegui-la. Talvez descubramos o genoma humano ser complicado demais para ser manipulado com seriedade, mas isso não impede o desenvolvimento de interfaces entre cérebro, computador, nanorrobôs ou inteligência artificial.

O Homo sapiens não vai ser exterminado por um levante de robôs. É mais provável que sua atualização ocorra passo a passo, fundindo-se no processo com robôs e computadores.

Na verdade, essa evolução sistêmica está acontecendo neste momento como resultado de inúmeras ações cotidianas sobre seus diversos componentes. Todo dia milhões de pessoas decidem dar a seu smartphone um pouco mais de controle sobre suas vidas, ou experimentam uma droga antidepressiva nova e mais eficaz. Na busca de saúde, felicidade e poder, os humanos modificarão primeiro uma de suas características, depois outra, e outra, até não serem mais humanos.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s